Bioética

Heidegger - ser-para-a-morte

"Uma interpretação ontológica do ser-aí só pode ser originária se assentar sobre a totalidade desse ente. O ser-aí deve então ser acessível como uma totalidade. Ora, esta empresa parece votada ao fracasso, pois que o ser-aí, enquanto cuidado, está perpetuamente face a ele próprio, e está, portanto, em constante falta de acabamento. Heidegger mostra entretanto que o ser-aí pode tornar-se total, sem deixar, por isso, de ser o ser-aí que ele é, na «antecipação» Vorlaufen) da morte.

A ciência como negação do sujeito

Excerto da obra "Ética e Pensamento Científico"
Jean Ladrière

"Qual o "contexto cultural" da bioética? O termo "contexto" designa o meio ambiente, aquilo que cerca o conjunto dos fatos culturais nos quais se situa a biologia atual. O fato fundamental é "o poder do homem sobre a vida" (Cf. Le pouvoir de l'homme sur la vie. Paris, Desclée de Brouwer, 1976). Ora, se há um poder do homem sobre a vida, é porque o homem dispõe hoje de certo saber sobre a vida. A questão filosófica, que aqui se coloca, é a de determinar a natureza desse poder, de compreender o porque da ligação entre saber e poder. A cultura grega dispunha de um saber de grande alcance. Mas não conduzia a um amplo poder. Ao contrário, o saber moderno, de caráter científico, se faz acompanhar de um extraordinário poder. Devemos examinar por que é assim. Colocar-se essa questão é, ipso facto, colocar-se a questão mesma da natureza e do estatuto da ciência.

Uma primeira observação se impõe: de forma alguma a ciência constitui um fenômeno natural. A atitude científica é muito diferente daquilo que a linguagem filosófica denomina a "atitude natural" ou a "visão do mundo natural", tal como se exprime nos mitos, nas tradições, nos provérbios, nas sabedorias e nas concepções de mundo. A atitude científica é de natureza artificial. Em outras palavras, a ciencia é um fenômeno histórico, situado de modo preciso no tempo e no espaço. Mesmo que o fenômeno científico se torne hoje universal, permanece verdade que nasceu em lugares bem determinados e num momento preciso da história. Claro que, se a ciência pode surgir foi porque houve, no espírito humano, possibilidades fundamentais que ela apenas revelou. Cabe-nos interrogar sobre a natureza dessas possibilidades e compreender o que se passou no momento em que elas se manifestaram e começaram a produzir frutos visíveis. Ora, só podemos perceber corretamente a natureza de um fenômeno com certo recuo. Os fundadores da ciência moderna tinham certa consciencia daquilo que faziam. Mas não dispunham do recuo que temos hoje, após vários séculos de pesquisa e de progresso.

Eutanásia: emergindo da sombra de Hitler

Peter Singer
 
Texto retirado do site "Crítica". Tradução de Álvaro Nunes e Joana Valente (pequenos ajustes foram realizados por mim...)
 
Durante cinquenta anos, Adolfo Hitler lançou uma longa e escura sombra sobre as discussões acerca da eutanásia. A sua sombra ainda persiste, na medida em que sempre que se debate a eutanásia, o declive ardiloso aparece debaixo dos nossos pés, fazendo-nos cair no Holocausto.
 
A passagem mais frequentemente citada acerca do nazismo e da eutanásia é a do psiquiatra americano, Major Leo Alexander, que foi encarreguado de fazer um relatório sobre a esterilização compulsória nazi e o assim chamado "programa de eutanásia".
 
Segundo Alexander:
 
"Quaisquer que tenham sido as proporções finalmente assumidas pelos crimes [nazis], para todos aqueles que os investigaram tornou-se vidente que, na origem, esses crimes tiveram começos modestos. Inicialmente, estes princípios consistiram apenas numa sutil mudança de ênfase na atitude básica dos médicos. Começou com a aceitação da atitude, básica no movimento a favor da eutanásia, de que há algo como uma vida que não merece ser vivida. Nos seus primeiros estágios, esta atitude respeitava apenas aos que estavam crônica e severamente doentes. Gradualmente, a esfera daqueles a serem incluídos na categoria foi alargada para englobar os socialmente improdutivos, os ideologicamente indesejados, os racialmente indesejados e finalmente todos os não-germânicos. Mas é importante perceber que a infinitamente pequena alavanca a partir da qual toda esta propensão mental recebeu o seu ímpeto foi a atitude para com os doentes não reabilitáveis." [1]

A ressurreição de Frankenstein

Este trecho foi retirado do artigo "A ressurreição de Frankenstein: uma metáfora das unidades de terapia intensiva contemporâneas", do filósofo Rodrigo Siqueira-Batista. O tema é de extrema relevância para a reflexão da Bioética como ferramenta para a tomada de decisões no manejo de pacientes graves e em situações limítrofes, sobretudo por conta da "insuficiência da ética médica tradicional (hipocrática) para lidar com estas novas questões". 
 
"Neste contexto, caberia a Bioética - como instância da proteção - a indagação, entre outras possíveis sobre o significado mais profundo de se viver e morrer dignamente e a ponderações acerca do momento em que é rompido o tênue limite entre salvar e agredir, entre cuidar e manter a "vida" de forma cega, irresponsável e com sofrimentos terríveis, cujos resultados espúrios convergem para aberrações da interseção biotecnológica tornando os pacientes, muitas vezes, "espécimes" de Frankensteins contemporâneos. [...]
 
[...] Nascer e morrer podem ser considerados os pontos críticos da experiência humana de existir. Tão logo nasça, um ser humano - na verdade qualquer vivente - tem como único e irrefutável caminho o intríseco e inexorável encontro com a própria morte. Entrementes, aqui emerge uma diferença substancial: se o fim é certo para todos, apenas ao homem é dado conhecer sobre este porvir, ou seja, a certeza sobre a brevidade da vida é uma perculiaridade homo sapiens sapiens. Desta forma, o saber-se mortal é um dos esteios da experiência que o ser humano tem de si mesmo (Dastur, 2002).
 
Quais seriam as implicações dete conhecimento? Tantas quantas permitidas no vôo do pensamento, mas uma, especialmente, se dobra e se recoloca nas mais diferentes manifestações de cultura: um mal-estar, bem demarcado e vinculado à ideia de extinção. Morrer, reconhecer-se finito, está quase invariavelmente relacionado, na sociedade ocidental, à tristeza e ao sofrimento (Zaidhaft, 1997). Deixar de fazer parte deste único mundo conhecido, afastar-se do convívio de pessoas queridas e, ainda mais profundamente, deixar de ser, são todas instâncias capazes de mitigar profundamente aquele que se coloca diante da própria efemeridade. Se à vida pode-se atribuir a afirmação do ser, sua positividade e potência, o passamento institui o não-ser, o limite do que não pode ser reconhecido - e do que é cogniscível -, sequer pensado, como disse Françoise Dastur:
 
"de Aristóteles a Hegel, essa negatividade absoluta, essa ruptura radical, esse impensável puro e simples que é a morte se vêem convertidos em 'não-ser relativo' e 'negatividade determinada', em ruptura 'substituível' e em simples limite do que pode ser pensado: o que, no final das contas, testemunha a incapacidade metafísica de enfrentar verdadeiramente a morte" (2002, p. 56). 
 
Tal possibilidade inextinguível de não-ser - ou deixar de ser - é, em si mesma, capaz de gerar angústia quase essencial, um mal-estar típico da própria condição de finitude. Mas esta não é a única questão: se este não-ser está além do que pode ser verdadeiramente pensado (Freud, 1974), o mesmo não se aplicaria ao processo de morrer, o qual está muitas vezes atrelado, no âmbito das inquietações humanas, à ideia do sofrimento - quer imposto por um fim trágico e inesperado, quer relacionado a uma moléstia grave e mitigante. Em ambas as situações, a supressão do bem maior da vida - pelo menos assim considerado -, tanto de forma insidiosa, quanto de forma abrupta, possibilita a adoção de uma postura reflexiva por parte daqueles que experimentam a proximidade da morte - o enfermo, os familiares e os profissionais de saúde."
 
 
Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis
Trata de saborear a vida; e fica sabendo, que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la.