moral

Heidegger: antes do agir, é preciso aprender a pensar

"It is toward the great essence of man that we are thinking, inasmuch as man’s essence belongs to the essence of Being and is needed by Being to keep safe the coming to presence of Being into its truth.
 
Therefore, what is necessary above all is this: that beforehand we ponder the essence of Being as that which is worthy of thinking; that beforehand, in thinking this, we experience to what extent we are called upon first to trace a path for such experiencing and to prepare that path as a way into that which till now has been impassable.
 
All this we can do only it before considering the question that is seemingly always the most immediate one and the only urgent one, What shall we do? we ponder this: How must we think? For thinking is genuine activity, genuine taking a hand, if to take a hand means to lend a hand to the essence, the coming to presence, of Being. This means: to prepare (build) for the coming to presence of Being that abode in the midst of whatever is [inmitten des Seienden] into which Being brings itself and its essence to utterance in language. Language first gives to every purposeful deliberation its ways and its byways. Without language, there would be lacking to every doing every dimension in which it could bestir itself and be effective. In view of this, language is never primarily the expression of thinking, feeling, and willing. Language is the primal dimension within which man’s essence is first able to correspond at all to Being and its claim, and, in corresponding, to belong to Being. This primal corresponding, expressly carried out, is thinking. Through thinking, we first learn to dwell in the realm in which there comes to pass the restorative surmounting of the destining of Being, the surmounting of Enframing."
 
Heidegger, (GA7), Trad. William Lovitt, 1977, p. 40-41
 
 

A contribuição do pensamento grego para a formação moral

Texto de João Cardoso de Castro
 
Muito pode se falar sobre o certo e o errado, e em nosso dia-a-dia julgamos, consciente ou inconscientemente, pessoas a nossa volta, seus hábitos e comportamentos. Quando se trata de filosofia, por sua vez, questiona-se como deveríamos viver, quais os comportamentos ideais e se existe uma disciplina filosófica que poderíamos chamá-la de prática, esta seria, sem dúvida, a Ética. Toda reflexão que pretende identificar a melhor forma de viver e conviver se articula, necessariamente, com o estudo da moral. 
 
É lugar comum a ideia de que a crise ética que vivemos nos dias de hoje tem sua origem na perda de valores e normas que, de alguma forma, vem à tona no período moderno, com o surgimento de sociedades complexas, com uma pluralidade de crenças, ideologias e comportamentos. O advento da Reforma, por exemplo, (e das inúmeras correntes protestantes oriundas deste processo) cria uma cisão no Cristianismo, que fundamentava-se como principal referência ética desde a Antiguidade. Outros sugerem que esta crise "espiritual", sem precedentes, que atinge a civilização ocidental seja fruto da irrefreável produção de bens materiais e simbólicos que, amarrados a uma visão liberal, é capaz de fazer “brotar” em nós uma ambição quase capilar por toda esta parafernália produzida.

Ética: uma manifestação de potencialidade - Agamben

"Ao contrário de sua acepção comum, em que podemos acusar alguém de ter ou não ética, o éthos estabelece uma dimensão originária para o homem e todas as suas ações. Ele é essencialmente livre porque é ético, lança-se na diferença do ser. Em todos os momentos da civilização, a ética poética consiste em cuidar para que o outro seja o que ele é, o que não pode ser removido ou apagado nem mesmo na morte."
 
Denise Quintão - Ética e Responsabilidade na Vida
 
 
"The fact that must constitute the point of departure for any discourse on ethics is that there is no essence, no historical or spiritual vocation, no biological destiny that humans must enact or realize. This is the only reason why something like an ethics can exist, because it is clear that if humans were or had to be this or that substance, this or that destiny, no ethical experience would be possible - there would be only tasks to be done. This does not mean, however, that humans are not, and do not have to be, something, that they are simply consigned to nothingness and therefore can freely decide whether to be or not to be, to adopt or not to adopt this or that destiny (nihilism and decisionism coincide at this point). There is in effect something that humans are and have to be, but this something is not an essence nor properly a thing: It is the simple fact of one’s own existence as possibility or potentiality. But precisely because of this things become complicated; precisely because of this ethics becomes effective. 
 
Since the being most proper to humankind is being one’s own possibility or potentiality, then and only for this reason (that is, insofar as humankind’s most proper being – being potential– is in a certain sense lacking, insofar as it can not-be, it is therefore devoid of foundation and humankind is not always already in possession of it), humans have and feel a debt. Humans, in their potentiality to be and to not-be, are, in other words, always already in debt; they always already have a bad conscience without having to commit any blameworthy act. This is all that is meant by the old theological doctrine of original sin. Morality, on the other hand, refers this doctrine to a blameworthy act humans have committed and, in this way, shackles their potentiality, turning it back toward the past. The recognition of evil is older and more original than any blameworthy act, and it rests solely on the fact that, being and having to be only its possibility or potentiality, humankind fails itself in a certain sense and has to appropriate this failing – it has to exist as potentiality. Like Perceval in the novel by Chretien de Troyes, humans are guilty for what they lack, for an act they have not committed.

Aristóteles - por uma vida boa

The selfish, they're all standing in line.. Faithing and hoping to buy themselves time.. Me, I figure as each breath goes by, I only own my mind [...] I know I was born and I know that I'll die.. The in between is mine, I am mine [...] 

The ocean is full 'cause everyone's crying.. 
The full moon is looking for friends at hightide.. The sorrow grows bigger when the sorrow's denied, I only know my mind, I am mine [...]

 
Eddie Vedder, "I Am Mine"

 

"[...] como ele era quando jovem? Não temos documentos privados desse período, mas sabemos de um belo ensaio, a Exortação à Filosofia, que ele publicou aos seus trinta e poucos anos. Esse ensaio revela uma trama bem diferente no tecido do pensamento de Aristóteles e complementa aquilo que seu testamento nos conta sobre ele.

As boas coisas de que gozamos, Aristóteles diz, como a riqueza e a saúde, não têm nenhum valor se nossa alma não for boa. Da mesma maneira como a alma é superior ao corpo, a parte racional da alma é superior à parte irracional. A melhor coisa que podemos fazer é promover o que há de melhor na melhor parte de nós, que é ser tão racional quanto possível e passar a conhecer as coisas mais importantes. Esse estado de conhecimento é uma virtude em si mesmo e traz consigo suas próprias recompensas, já que nós naturalmente gostamos de compreender as coisas. É natural e certo para nós tornarmo-nos animais racionais e, se não o fizermos, então poderemos ser homens vivos, mas não estaremos vivendo como homens; poderemos ter prazer enquanto vivermos, sem ter prazer em viver. A única maneira de realizarmos nossa natureza humana é realizar nossa natureza divina, e a mente é o elemento divino em nós; em virtude de possuirmos razão, podemos aproximar-nos do feliz estado dos deuses. "O homem destituído de percepção e de mente é reduzido à condição de uma planta; destituído tão-somente de mente é tornado um bruto; destituído de irracionalidade, mas conservando a mente, torna-se como Deus.

Ethos (eta inicial) - Heidegger

"O ethos (eta inicial), como postura do modo de ater-se do homem em meio aos homens, só diz respeito ao homem. Só que o ethos vem ao encontro dos homens na propriedade de ser no ethos e pelo ethos que o homem tem em referência à totalidade dos entes. Por isso, o ethos só diz respeito ao homem.
[...]
Como atitude capaz de enunciados, o logos pertence ao ethos. Essa é a postura que vigora em todo comportamento. Por isso, como saber do comportamento das posturas humanas, a ética é o saber mais abrangente, incluindo a lógica. A "lógica" é, por sua vez, uma ética específica, aquela do comportamento de propor enunciados, a ética do logos, da enunciação. Sendo assim, cai por terra o fundamento de que a lógica deve parear-se com, ou preceder, as outras duas, a física e a ética. Pensado em suas remissões universais e modos de comportamento frente à totalidade dos entes e, assim, pensado a partir do todo, o homem se determina pelo êthos. Por isso podemos dizer, com algum direito, que o homem é aquele ente, em meio à totalidade dos entes, cuja essência se distingue pelo ethos."
 
Heidegger, "Heráclito"
 

O vazio por trás das ideias de bem e mal - Spinoza

"Depois que a experiência me ensinou que tudo que frequentemente ocorre na vida comum é vão e fútil, como via que tudo que me provocava temor e que eu temia não tinha em si nada de bom nem de mau, a não ser na medida em que o ânimo era comovido por isso, decidi finalmente indagar se existia algo que fosse um bem verdadeiro [...]"

(Spinoza, Tratado da reforma do intelecto)

 

"O que permite a uma pessoa perguntar-se por um bem verdadeiro? Fundamentalmente, a desconfiança de que os bens (e também os males) que lhe foram propostos sejam incertos. Ao ensinar o vazio por trás das ideias de bem e mal, que "não se dizem senão relativamente", a experiência nos leva a supeitar da escala de valores da "vida comum", à qual somos todos apresentados tão logo nos damos por gente. Nesse sentido, deparamos uma experiencia da desconfiança que põe em suspensão as certezas da vida comum. Esse primeiro traço característico da experiência (a desconfiança) nos conduz a outro, talvez até mais primordial: trata-se de uma experiência da decepção. Os bens da vida comum quando nos são apresentados, envolvem uma promessa e nos propõem um trato: se acedermos a eles, eles nos trarão algo. Como sabemos pelo Tratado, porém, a certeza da vanidade e futilidade do que ocorre na vida comum deve-se à experiência de que tal vida não cumpre suas promessas. Ou seja, seus bens tornam-se incertos porque deles desconfiamos, e deles desconfiamos porque se mostraram decepcionantes.

Decepção e desconfiança articulados, esses sentimentos dão forma a um tipo determinado de experiência que, ao abalar o sistema da vida comum em que estamos inseridos, abre um campo de novas possibilidades, em especial a possibilidade de uma nova vida. A despeito do conteúdo dessa experiência, reafirmemos, cabe insistir nos seus efeitos, extremamente próximos dos daquela mencionada no apêndice.

Platão - a vida moral

"O que é a vida moral? É procura da Virtude mas devendo-se observar que, para Platão como para os Antigos, esta palavra tem ressonâncias diferentes daquelas que lhe conhecemos atualmente. A «Virtude», a arete, é ao mesmo tempo a excelência, a perfeição, mas também, areskei o que agrada, o que se aparenta, portanto, com o agradável e o útil.

Ethos: a morada do homem

"Para Aristóteles seria insensato e mesmo ridículo (geloion) querer demonstrar a existência do ethos, assim como é ridículo querer demonstrar a existência da physis. Physis e ethos são duas formas primeiras de manifestação do ser, ou da sua presença, não sendo o ethos senão a transcrição da physis na peculiaridade da praxis ou da ação humana e das estruturas histórico-sociais que dela resultam. No ethos está presente a razão profunda da physis que se manifesta no finalismo do bem e, por outro lado, ele rompe a sucessão do mesmo que caracteriza a physis como domínio da necessidade, com o advento do diferente no espaço da liberdade aberto pela praxis. Embora enquanto autodeterminação da praxis o ethos se eleve sobre a physis, ele reinstaura, de alguma maneira, a necessidade da natureza ao fixar-se na constância do hábito (hexis). Demonstrar a ordem da praxis, articulada em hábitos ou virtudes, não segundo a necessidade transiente da physis, mas segundo o finalismo imanente do logos ou da razão, eis o propósito de uma ciência do ethos tal como Aristóteles se propõe constituí-la, coroando a tradição socrático-platônica. A Ética alcança, assim, seu estatuto de saber autônomo, e passa a ocupar um lugar preponderante na tradição cultural e filosófica do Ocidente.
 
O termo ethos é uma transliteração dos dois vocábulos gregos ethos (com eta inicial) e ethos (com épsilon inicial). É importante distinguir com exatidão os matizes peculiares a cada um desses termos. Por outro lado, se a eles acrescentarmos o vocábulo hexis, de raiz diferente, teremos definido um núcleo semântico a partir do qual será possível traçar as grandes linhas da Ética como ciência do ethos.

Uma vida sem pensamento é totalmente possível... - Hannah Arendt

O pensamento, em seu sentido não-cognitivo e não-especializado, como uma necessidade natural da vida humana, como a realização da diferença dada na consciência, não é uma prerrogativa de poucos, mas uma faculdade sempre presente em todo mundo; do mesmo modo, a inabilidade de pensar não é uma imperfeição daqueles muitos a quem falta inteligência, mas uma possibilidade sempre presente para todos — incluindo os cientistas, os eruditos e outros especialistas em tarefas do espírito. Todos podemos vir a nos esquivar daquela interação conosco mesmos, cuja possibilidade concreta e cuja importância Sócrates foi o primeiro a descobrir. O pensamento acompanha a vida e é ele mesmo a quintessência desmaterializada do estar vivo. E uma vez que a vida é um processo, sua quintessência só pode residir no processo real do pensamento, e não em quaisquer resultados sólidos ou pensamentos específicos. Uma vida sem pensamento é totalmente possível, mas ela fracassa em fazer desabrochar a sua própria essência — ela não é apenas sem sentido; ela não é totalmente viva. Homens que não pensam são como sonâmbulos. Para o ego pensante e para sua experiência, a consciência moral que "deixa o homem cheio de embaraços" é um efeito colateral acessório. Não importa em que séries de pensamentos o ego pensante se engage; para o eu que nós todos somos, importa cuidar de não fazer nada que torne impossível para os dois-em-um serem amigos e viverem em harmonia. É isto o que Espinoza entende por "aquiescência do próprio eu" (acquiescentia in seipso): "ela pode brotar da razão [raciocínio], e este contentamento é a maior alegria possível". Seu critério de ação não será o das regras usuais, reconhecidas pelas multidões e acordadas pela sociedade, mas a possibilidade de eu viver ou não em paz comigo mesmo quando chegar a hora de pensar sobre meus atos e palavras. A consciência moral é a antecipação do sujeito que aguarda quando eu voltar para casa.
 
(Hannah Arendt, "A Vida do Espírito")
 

As teorias morais como sátiras - Espinosa

"Os filósofos concebem as emoções que se combatem entre si, em nós, como vícios em que os homens caem por erro próprio; é por isso que se habituaram a ridicularizá-los, deplorá-los, reprová-los ou, quando querem parecer mais morais, detestá-los. Julgam assim agir divinamente e elevar-se ao pedestal da sabedoria, prodigalizando toda espécie de louvores a uma natureza humana que em parte alguma existe, e atacando através dos seus discursos a que realmente existe. Concebem os homens, efetivamente, não tais como são, mas como eles próprios gostaria que fossem. Daí, por conseqüência, que quase todos, em vez de uma ética, hajam escrito uma sátira..."
 
(Espinosa, "Tratado Político")
 

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