Nietzsche

Nietzsche e o fim da Metafísica - Oswaldo Giacóia

"A partir de muita convivência com o mesmo tema e de uma vida dedicada a isso, subitamente, como a luz nascida do fogo, brota na alma a verdade, para então crescer sozinha."
 
Platão, "Carta VII"
 
 
"Para Nietzsche, pode-se tomar a filosofia de Platão como modelo da metafísica. Esta se fundamenta numa concepção dualista do universo, estabelecendo uma oposição de valores entre duas esferas distintas da realidade ou do ser: de um lado, existe um domínio ideal, considerado como o verdadeiro mundo ou a realidade verdadeira, assim denominado por ser o plano das essências, isto é, aquilo que, em todo e qualquer fenômeno constitui sua pura forma ou conceito. Assim, por exemplo, a humanidade constitui a essência de cada ser humano particular, ou a triangularidade determina a natureza de toda e qualquer figura triangular que vemos ou traçamos. Todos os indivíduos humanos concretos são limitados e finitos, mas a humanidade é uma entidade intelectual, que em nada se altera em virtude da sucessão dos indivíduos singulares.
 
Tais formas puras, denominadas tecnicamente idéias por Platão, teriam sua origem na idéia do Bem — ou de Deus — que é a causa produtora de todas as outras idéias que são as formas gerais do universo.Tais entidades são inacessíveis a nossos órgãos dos sentidos; e imutáveis, uma vez que não estão submetidas às leis do espaço e do tempo. Por serem as responsáveis pela realidade de todo real, foram tradicionalmente denominadas realidade inteligível, em contraposição a uma segunda ordem de realidade, a realidade aparente ou sensível, que é aquela de que temos experiência ordinária. Contraposto às essências inteligíveis, o mundo sensível é tradicionalmente considerado um plano de realidade deficitária, enganosa, mera aparência ou simulacro das formas puras, que são como originais ou modelos dos quais toda realidade empírica, sensível, constitui uma cópia, necessariamente imperfeita e corruptível. E a essa realidade degradada, sujeita às condições do espaço e do tempo, que pertence nossa existência terrena e corporal.

Tua alma morrerá antes que teu corpo - Nietzsche

"Zaratustra assim falou à gente: Eu vos ensino o super-homem. O homem é algo que deve ser superado. [...] Que é o macaco para o homem? Uma risada, ou dolorosa vergonha. Exatamente isso deve o homem ser para o super-homem: uma risada, ou dolorosa vergonha. Fizestes o caminho do verme ao homem, e muito, em vós, ainda é verme. Outrora fostes macacos, e ainda agora o homem é mais macaco do que qualquer macaco. O mais sábio entre vós é apenas discrepância e mistura de planta e fantasma. [...] Eu vos imploro, irmãos, permanecei fiéis à terra e não acrediteis nos que vos falam de esperanças supraterrenas! São envenenadores, saibam eles ou não. São desprezadores da vida, moribundos que a si mesmos envenenaram, e dos quais a terra está cansada: que partam, então! Uma vez a ofensa a Deus era a maior das ofensas, mas Deus morreu [...]"
 
(Nietzsche, "Assim falou Zaratustra")
 
Depois de falar do super-homem e de que "o homem é uma corda, atada entre o animal e o super-homem — uma corda sobre um abismo", surge o equilibrista andando por uma corda suspensa e perseguido por um palhaço que o faz cair, e é assim relatado (Prólogo - Parte VI):
 
"Mas então sucedeu algo que fez toda boca silenciar e todo olhar enrijecer. Nesse meio-tempo o equilibrista começara seu trabalho: surgira de uma pequena porta e andava sobre a corda que se achava estendida entre duas torres, acima da praça e do povo. Quando estava no meio de seu caminho, abriu-se novamente a pequena porta e um rapaz de vestes coloridas, semelhante a um palhaço, pulou fora e seguiu o primeiro com passos rápidos. “Adiante, aleijado!”, gritou com voz terrível, “adiante, preguiçoso, muambeiro, cara-pálida! Para eu não te fazer cócegas com meu calcanhar! Que fazes aqui entre as torres? Teu lugar é na torre, devias ser trancafiado, estorvas o caminho de alguém melhor do que tu!” — E a cada palavra lhe chegava mais próximo; porém, quando estava a somente um passo do equilibrista, sucedeu a coisa pavorosa que fez toda boca silenciar e todo olhar enrijecer: — lançou um grito de demônio e saltou sobre aquele que lhe estava no caminho. Mas esse, vendo seu rival assim triunfar, perdeu a cabeça e a corda; desfez-se de sua vara e mais rapidamente do que ela mergulhou na profundeza, como um redemoinho de braços e pernas. A praça e o povo semelhavam o mar quando chega a tempestade: todos corriam e se atropelavam, sobretudo no local onde se precipitava o corpo.

Espinosa como precursor de Nietzsche

"Estou totalmente estupefato, maravilhado! Tenho um precursor, e que precursor! Eu não conhecia quase nada de Espinosa: que eu seja agora impelido a ele, foi um ‘ato instintivo’. Não só sua tendência geral é a mesma que a minha – fazer do conhecimento o mais potente dos afetos -, como me reencontro em cinco pontos capitais de sua doutrina; este pensador, o mais fora da norma e solitário, é-me nesses aspectos justamente o mais próximo […] In summa: minha solidão, que, como sobre o cume de elevadas montanhas, tantas e tantas vezes tornou minha respiração difícil e me fez sangrar, é, ao menos agora, uma ‘dualidão'”

Carta de Nietzsche a Overbeck, 30 de julho de 1881

 

O desejo de uma só moral: por que e pra quem? - Nietzsche

"Considerando que as paixões e os instintos fundamentais exprimem, em toda raça e em toda classe, algo das condições de existência destas (— ao menos das condições em que vivem há longo tempo), exigir que sejam “virtuosas” seria pedir: que transformassem seu caráter, que mudassem de pêlo e desfizessem seu passado; que cessassem de se diferenciarem; que se aproximassem pela semelhança de suas necessidades e de suas aspirações, — mais exatamente: que perecessem... 
 
A vontade de uma só moral consiste, portanto, em ser a tirania de uma espécie, a qual serviu de medida para a moral única, em detrimento das outras espécies: é a destruição ou a uniformização em favor da moral reinante (ou para não mais lhe ser perigosa, ou para ser explorada por ela). “Supressão da escravidão” — na aparência um tributo trazido à “dignidade humana”, na realidade a destruição de uma espécie fundamentalmente diferente."
 
Nietzsche, "Vontade de Potência / Parte II"
 

A existência como sofrimento sem sentido - Nietzsche

"O que revolta no sofrimento não é o sofrimento em si, mas a sua falta de sentido: mas nem para o cristão, que interpretou o sofrimento introduzindo-lhe todo um mecanismo secreto de salvação, nem para o ingênuo das eras antigas, que explicava todo sofrimento em consideração a espectadores ou a seus causadores, existia tal sofrimento sem sentido. Para que o sofrimento oculto, não descoberto, não testemunhado, pudesse ser abolido do mundo e honestamente negado, o homem se viu então praticamente obrigado a inventar deuses e seres intermediários para todos os céus e abismos, algo, em suma, que também vagueia no oculto, que também vê no escuro, e que não dispensa facilmente um espetáculo interessante de dor. Foi com ajuda de tais invenções que a vida conseguiu então realizar a arte em que sempre foi mestra: justificar a si mesma, justificar o seu "mal"; agora ela talvez necessite de outros inventos [...]"
 
Nietzsche, "Genealogia da Moral"
 

Eu sou o destino!

"Conheço a minha sina. Um dia, meu nome será ligado à lembrança de algo tremendo — de uma crise como jamais houve sobre a Terra, da mais profunda colisão de consciências, de uma decisão conjurada contra tudo o que até então foi acreditado, santificado, requerido. Eu não sou um homem, sou dinamite. E com tudo isso nada tenho de fundador de religião — religiões são assunto da plebe, eu sinto necessidade de lavar as mãos após o contato com pessoas religiosas... Não quero “crentes”, creio ser demasiado malicioso para crer em mim mesmo, nunca me dirijo às massas... Tenho um medo pavoroso de que um dia me declarem santo: perceberão por que publico este livro antes, ele deve evitar que se cometam abusos comigo... Eu não quero ser um santo, seria antes um bufão... Talvez eu seja um bufão... E apesar disso, ou melhor, não apesar disso — pois até o momento nada houve mais mendaz do que os santos —, a verdade fala em mim. — Mas a minha verdade é terrível: pois até agora chamou-se à mentira verdade. — Transvaloração de todos os valores: eis a minha fórmula para um ato de suprema autognose da humanidade, que em mim se fez gênio e carne. Minha sina quer que eu seja o primeiro homem decente, que eu me veja em oposição à mendacidade de milênios... Eu fui o primeiro a descobrir a verdade, ao sentir por primeiro a mentira como mentira — ao cheirar... Meu gênio está nas narinas... Eu contradigo como nunca foi contradito [...]"
 
Nietzsche, "Ecce Homo"
 

Alguns nascem postumamente...

“Eu vos digo: é preciso ter ainda caos dentro de si, para poder dar à luz uma estrela dançante.”
 
(Nietzsche, “Assim falava Zaratustra.”)
 
 
"Este livro pertence aos homens mais raros. Talvez nenhum deles sequer esteja vivo. É possível que se encontrem entre aqueles que compreendem o meu “Zaratustra”: como eu poderia misturar-me àqueles aos quais se presta ouvidos atualmente? – Somente os dias vindouros me pertencem. Alguns homens nascem póstumos.
 
As condições sob as quais sou compreendido, sob as quais sou necessariamente compreendido – conheço-as muito bem. Para suportar minha seriedade, minha paixão, é necessário possuir uma integridade intelectual levada aos limites extremos. Estar acostumado a viver no cimo das montanhas – e ver a imundície política e o nacionalismo abaixo de si. Ter se tornado indiferente; nunca perguntar se a verdade será útil ou prejudicial... Possuir uma inclinação – nascida da força – para questões que ninguém possui coragem de enfrentar; ousadia para o proibido; predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para música nova. Olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades que até agora permaneceram mudas. E um desejo de economia em grande estilo – acumular sua força, seu entusiasmo... Auto-reverência, amor-próprio, absoluta liberdade para consigo...
 
Muito bem! Apenas esses são meus leitores, meus verdadeiros leitores, meus leitores predestinados: que importância tem o resto? – O resto é somente a humanidade. – É preciso tornar-se superior à humanidade em poder, em grandeza de alma – em desprezo..."
 
 
Friedrich Nietzsche - O Anticristo

Algo pensa em mim!

Texto retirado do livro "Beyond Good and Evil" (Nietzsche):
 
"As far as the superstitions of the logicians are concerned: I will not stop emphasizing a tiny little fact that these superstitious men are loath to admit: that a thought comes when “it” wants, and not when “I” want. It is, therefore, a falsification of the facts to say that the subject “I” is the condition of the predicate “think.” It thinks: but to say the “it” is just that famous old “I” – well that is just an assumption or opinion, to put it mildly, and by no means an “immediate certainty.” In fact, there is already too much packed into the “it thinks”: even the “it” contains an interpretation of the process, and does not belong to the process itself. People are following grammatical habits here in drawing conclusions, reasoning that “thinking is an activity, behind every activity something is active, therefore –.” Following the same basic scheme, the older atomism looked behind every “force” that produces effects for that little lump of matter in which the force resides, and out of which the effects are produced, which is to say: the atom. More rigorous minds finally learned how to make do without that bit of “residual earth,” and perhaps one day even logicians will get used to making do without this little “it” (into which the honest old I has disappeared)."

Todo amor é amor próprio!


A citação abaixo é, muitas vezes, atribuída ao filósofo Nietzsche, em uma confusão justificada. Na verdade se trata de um trecho do livro de Irvin D. Yalom - "Quando Nietzsche chorou". Em um dado momento da trama, o personagem "Nietzsche" questiona o "Dr. Breuer" sobre suas reais motivações em querer tratá-lo, que lhe explica que ajudar as pessoas a aliviar suas dores é sua atividade. "Breuer" lhe faz a mesma pergunta: “Para quê, então, filosofa?”. E recebe uma baita "tijolada":

“Ah! Existe uma importante distinção entre nós. Eu não alego que filosofo para si, enquanto o senhor, doutor, continua fingindo que sua motivação é servir-me, aliviar minha dor. Tais alegações nada têm a ver com a motivação humana. Elas fazem parte da mentalidade de escravo astutamente engendrada pela propaganda sacerdotal. Disseque suas motivações mais profundamente! Achará que jamais alguém fez algo totalmente para os outros. Todas as ações são autodirigidas, todo serviço é auto-serviço, todo amor é amor-próprio. (...) Parece surpreso com esse comentário? Talvez esteja pensando naqueles que ama. Cave mais profundamente e descobrirá que não ama a eles: ama isso sim as sensações agradáveis que tal amor produz em você! Ama o desejo, não o desejado.”

 

 

Trecho de "Assim falava Zaratustra", de Nietzsche

O pensador alemão do século XIX, Friedrich Nietzsche (1844-1900), marcou a história da filosofia ao desafiar as verdades estabelecidas, tendo consagrado sua filosofia como a filosofia da “vida", do “agora". Como um “martelo”, pretendeu derrubar o idealismo platônico e o poder da ciência. Se os achados produzidos pela ciência nos ludibriam sobre a possibilidade da verdade, consideradas pelo filósofo como um “batalhão móvel” de metáforas, ou seja, que não passam de ilusões das quais nos esquecemos que o são, as formulações socrático-platonicas nos afastam da vida ao dividir tanto homem quanto mundo em dois. Estas interpretações são, para Nietzsche, um niilismo (cujo significado ganha contornos diferentes no pensamento nietzscheano) na medida em que servem como muletas para a inquietação humana de aceitar a vida como ela é.

Ainda estes dias tive a oportunidade de reler este trecho do livro do Nietzsche, que compartilho com vocês. Apesar da leitura "dura" que o autor nos oferece, afinal Nietzsche nos escreve através de uma linguajem artística (poética), exatamente para confrontar o modelo racional filosófico de seu tempo, acredito que com um pouco de esforço o sentido venha à tona.


"Eu vo-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante. Eu vo-lo digo: tendes ainda um caos dentro de vós outros. Ai! Aproxima-se o tempo em que o homem já não dará a luz às estrelas; aproxima-se o tempo do mais desprezível dos homens, do que já se não pode desprezar a si mesmo. Olhai! Eu vos mostro o último homem. Que vem a ser isso de amor, de criação, de ardente desejo, de estrela? — pergunta o último homem, revirando os olhos. A terra tornar-se-á então mais pequena, e sobre ela andará aos pulos o último homem, que tudo apouca. A sua raça é indestrutível como a da pulga; o último homem é o que vive mais tempo. “Descobrimos a felicidade” — dizem os últimos homens, e piscam os olhos.