pensar

A banalidade do mal - Hannah Arendt

"[...] o que me deixou aturdida foi que a conspícua superficialidade do agente tornava impossível retraçar o mal incontestável de seus atos, em suas raízes ou motivos, em quaisquer níveis mais profundos. Os atos eram monstruosos, mas o agente -- ao menos aquele que estava em julgamento -- era bastante comum, banal, e não demoníaco e monstruoso. Nele não se encontrava sinal de firmes convicções ideológicas ou de motivações especificamente más, e a única característica notória que se podia perceber tanto em seu comportamento anterior quanto durante o próprio julgamento e o sumário de culpa que o antecedeu era algo de inteiramente negativo: não era estupidez, mas irreflexão."
 
Hannah Arendt, "A Vida do Espírito"
 
 
Hannah Arendt, no início de sua notável conferência na prestigiosa Gifford Lectures, relembra sua constatação diante do julgamento do carrasco nazista Eichmann: a "banalidade do mal" é justamente o mal se apresentando na total e absoluta "ausência de pensar".
 
"Foi essa ausência de pensamento — uma experiência tão comum em nossa vida cotidiana, em que dificilmente temos tempo e muito menos desejo de parar e pensar — que despertou meu interesse. Será o fazer-o-mal (pecados por ação e omissão) possível não apenas na ausência de "motivos torpes" (como a lei os denomina), mas de quaisquer outros motivos, na ausência de qualquer estímulo particular ao interesse ou à volição? Será que a maldade — como quer que se defina este estar "determinado a ser vilão" — não é uma condição necessária para o fazer-o-mal? Será possível que o problema do bem e do mal, o problema de nossa faculdade para distinguir o que é certo do que é errado, esteja conectado com nossa faculdade de pensar? Por certo, não, no sentido de que o pensamento pudesse ser capaz de produzir o bem como resultado, como se a "virtude pudesse ser ensinada" e aprendida — somente os hábitos e costumes podem ser ensinados e nós sabemos muito bem com que alarmante rapidez eles podem ser desaprendidos e esquecidos quando as novas circunstâncias exigem uma mudança nos modos e padrões de comportamento. (O fato de que habitualmente se trata de assuntos ligados ao problema do bem e do mal em cursos de "moral" ou de "ética" pode indicar quão pouco sabemos sobre eles, pois moral deriva de mores e ética de ethos, respectivamente os termos latino e grego para designar os costumes e os hábitos — estando a palavra latina associada a regras de comportamento e a grega sendo derivada de habitação, como a nossa palavra "hábitos"). A ausência de pensamento com que me defrontei não provinha nem do esquecimento de boas maneiras e bons hábitos, nem da estupidez, no sentido de inabilidade para compreender— nem mesmo no sentido de "insanidade moral", pois ela era igualmente notória nos casos que nada tinham a ver com as assim chamadas decisões éticas ou os assuntos de consciência.

Somos e conhecemos que somos - S. Agostinho

"Somos e conhecemos que somos e amamos este ser e conhecer. Mas nestas três coisas que eu disse nenhuma falsidade semelhante à verdade nos perturba. Pois não as tocamos com nenhum sentido corporal, como aqueles que estão fora, e assim as sentimos vendo suas cores, ouvindo seus sons, cheirando seus odores, provando seus sabores, tocando o duro ou o brando; e manejamos também no pensamento imagens desses objetos sensíveis, muito semelhantes a eles, porém não corpóreas, temo-las na memória e excitam-nos o desejo deles; em lugar disso, é certíssimo para mim, sem nenhuma imaginação enganosa de ilusões ou fantasmagorias, que sou e conheço e amo isto. Não há que temer nestas verdades os argumentos dos acadêmicos, que dizem: E se te enganas? Pois se me engano, sou. Pois aquele que não existe, na verdade, nem enganar-se pode; e por isto existo se me engano. E visto que existo se me engano, como posso enganar-me acerca de que existo, quando é certo que existo se me engano? E, portanto, como eu, o enganado, existiria, embora me enganasse, sem dúvida não me engano ao conhecer que existo."

(S. Agostinho, "A Cidade de Deus")

Nothing religious is ever destroyed by logic; it is destroyed only by the God’s withdrawal

Trecho da obra "WHAT IS CALLED THINKING?", de Martin Heidegger.

"We come to know what it means to think when we ourselves try to think. If the attempt is to be successful, we must be ready to learn thinking. As soon as we allow ourselves to become involved in such learning, we have admitted that we are not yet capable of thinking.

Yet man is called the being who can think, and rightly so. Man is the rational animal. Reason, ratio, evolves in thinking. Being the rational animal, man must be capable of thinking if he really wants to. Still, it may be that man wants to think, but can’t. Perhaps he wants too much when he wants to think, and so can do too little. Man can think in the sense that he possesses the possibility to do so. This possibility alone, however, is no guarantee to us that we are capable of thinking. For we are capable of doing only what we are inclined to do. And again, we truly incline only toward something that in turn inclines toward us, toward our essential being, by appealing to our essential being as the keeper who holds us in our essential being. What keeps us in our essential nature holds us only so long, however, as we for our part keep holding on to what holds us. And we keep holding on to it by not letting it out of our memory. Memory is the gathering of thought. Thought of what?