Introdução à Filosofia

Heidegger - o grande equívoco da Filosofia

Para aprendermos a experimentar em sua pureza — e isto significa também levar à plenitude — essa Essência do pensar, devemos libertar-nos da interpretação técnica do pensamento. Seus primórdios remontam até Platão e Aristóteles. Para eles o pensamento é, em si mesmo, uma techne, o processo de calcular a serviço do fazer e operar. Nesse processo já se toma o cálculo em função e com vistas à praxis e à poesis. Por isso, quando considerado em si, o pensamento não é prático. A caracterização do pensamento como theoria, e a determinação do conhecimento como atitude "teórica" já se processam dentro da interpretação "técnica" do pensar. É um esforço reativo, visando preservar, também para o pensamento, autonomia face ao fazer e ao agir. Desde então, a "filosofia" sente, constantemente, a necessidade de justificar sua existência diante das "ciências". E crê fazê-lo, da forma mais segura, elevando-se à condição de ciência. Ora, esse esforço é o abandono da Essência do pensamento. A filosofia é perseguida pelo medo de perder em prestigio e importância, caso não seja ciência. O que se considera uma deficiência, idêntica à inciência (Unwissenschaftlichkeit). Na interpretação técnica do pensamento, se abandona o Ser como o elemento do pensar. A partir da Sofística e de Platão, a "lógica" é a sanção dessa interpretação. Julga-se o pensar com uma medida que lhe é inadequada. Um tal julgamento equivale ao processo que procura avaliar a natureza e as possibilidades do peixe pela capacidade de viver no seco. De há muito, demasiado muito, o pensamento vive no seco. Será que se pode chamar "irracionalismo" o esforço de repor o pensamento em seu elemento?
 
Heidegger, Carta sobre o Humanismo. Trad. Carneiro Leão, p.27

A origem da polis

"Na origem da pólis [...] encontram-se outros fatores. A partir do século VIII a.C., o renascimento do comércio — que ganha impulso com a invenção da moeda cunhada — termina com o isolamento das aldeias. Isso leva a uma união que acaba por dissolver as antigas linhagens tribais. A sociedade torna-se mais complexa. Deixa de ser um aglomerado de agricultores e artesãos — o demos — reunidos em torno do palácio central. 
 
Também o centro da cidade sofre uma mudança radical. Passa a ser a ágora, a praça pública, onde acontecem as transações comerciais e as discussões sobre a vida da cidade, a começar por sua defesa. O acesso à ágora tor-na-se cada vez maior, estendendo-se, com a instituição da democracia, a todos os que têm direito à cidadania, ou seja, habitantes do sexo masculino, adultos e que não sejam estrangeiros ou escravos. 
 
Essa nova forma de organização social e política é a pólis, cujas características, segundo o historiador francês Jean-Pierre Vernant, são a supremacia do logos (que significa “palavra”, “discurso” e “razão”), pois a decisão sobre os assuntos públicos depende apenas da força das palavras dos oradores, cuja condição social e econômica não é mais levada em conta; do caráter público das discussões políticas, que deixam de ser privilégio de grupos (as leis são elaboradas em conjunto e depois escritas, para que todos possam conhecê-las); da ampliação do culto, uma vez que a religião já não é um saber secreto de reis e sacerdotes, mas sim algo afeito ao Estado, público, acessível a todos. 
 
Essa revolução política foi fundamental para o desenvolvimento do pensamento humano. Na pólis, com os cidadãos em pé de igualdade, vence quem sabe convencer. É preciso valer-se exclusivamente do raciocínio e da correta exposição de idéias — em suma, do logos. Essa fórmula de raciocinar, de falar e até de polemizar não se limita à política, porém. Passa a ser o critério para pensar qualquer coisa."
 
 
Bernadette Siqueira Abrão, "História da Filosofia" (p. 17)
 

A filosofia serve para entristecer - Deleuze

"Diógenes objectou, quando louvaram um filósofo diante dele: O que ele tem de grandioso para mostrar, ele que se dedicou tanto tempo à filosofia sem nunca entristecer ninguém? Com efeito, seria preciso colocar como epitáfio sobre o túmulo da filosofia universitária: Ela não entristeceu ninguém."

Nietzsche, "Schopenhauer como educador"

 

"Quando alguém pergunta para que serve a filosofia, a resposta deve ser agressiva, visto que a pergunta pretende-se irônica e mordaz. A filosofia não serve nem ao Estado, nem à Igreja, que têm outras preocupações. Não serve a nenhum poder estabelecido. A filosofia serve para entristecer. Uma filosofia que não entristece a ninguém e não contraria ninguém, não é uma filosofia. A filosofia serve para prejudicar a tolice, faz da tolice algo de vergonhoso. Não tem outra serventia a não ser a seguinte: denunciar a baixeza do pensamento sob todas as suas formas. Existe alguma disciplina, além da filosofia, que se proponha a criticar todas as mistificações, quaisquer que sejam sua fonte e seu objetivo? Denunciar todas as ficções sem as quais as forças reativas não prevaleceriam. Denunciar, na mistificação, essa mistura de baixeza e tolice que forma tão bem a espantosa cumplicidade das vítimas e dos algozes. Fazer, enfim, do pensamento algo agressivo, ativo, afirmativo. Fazer homens livres, isto é, homens que não confundam os fins da cultura com o proveito do Estado, da moral, da religião. Vencer o negativo e seus altos prestígios. Quem tem interesse em tudo isso a não ser a filosofia? A filosofia como crítica mostra-nos o mais positivo de si mesma: obra de desmistificação. […] tolice e a bizarria, por maiores que sejam, seriam ainda maiores se não subsistisse um pouco de filosofia para impedi-las, em cada época, de ir tão longe quanto desejariam, para proibi-las, mesmo que seja por ouvir dizer, de serem tão tolas e tão baixas quanto cada uma delas desejaria. Alguns excessos lhes são proibidos, mas quem lhes proíbe a não ser a filosofia? Quem as força a se mascararem, a assumirem ares nobres e inteligentes, ares de pensador? Certamente existe uma mistificação propriamente filosófica; a imagem dogmática do pensamento e a caricatura da crítica são testemunhos disso. Mas a mistificação da filosofia começa a partir do momento em que esta renuncia a seu papel ... dismitificado e faz o jogo dos poderes estabelecidos, quando renuncia a contrariar a tolice, a denunciar a baixeza."

 

(Deleuze, "Nietzsche e a filosofia", 1987, p. 87)

 

Sobre a história da Filosofia - Leonel Franca

"A história da filosofia é a exposição crítica metódica dos principais sistemas e das mais importantes escolas. Seguir o pensamento humano nas diferentes fases de seu desenvolvimento através das idades, inventariar os esforços e as tentativas feitas nas diversas épocas pelas mais poderosas inteligências para dar uma solução racional e científica às mais altas questões acerca de Deus, do homem e do universo, tal é o seu objeto. Como a história de tôdas as ciências, também a da filosofia deve ser crítica e metódica. [...] Sem crítica, a história pensamento não passaria de um repositório morto de idéias, de um estudo sem vida, estéril e até prejudicial.

Ante o desfilar vertiginoso de tantas opiniões contraditórias, inteligências novas ou pouco afeitas à reflexão poderiam levianamente inclinar-se a um ecletismo fácil ou deixar-se entrar dos esmorecimentos do ceticismo. Incumbe, por isso, ao historiador o dever de julgar os sistemas, joeirando-lhes o verdadeiro do falso, o certo do duvidoso, o inconcusso do controvertível, e assinando a cada filósofo a sua contribuição para o progresso ou atraso do saber. Assim se procede na história de todas as ciências. Assim se deverá proceder também na história da filosofia.

Mas com que critério se hão de apreciar as doutrinas filosóficas? Certamente, não com os preconceitos de sistema. O kantismo e o positivismo, o materialismo e o panteísmo ou outro qualquer sistema preconcebido não podem servir de craveira, por onde há de aferir o progresso do pensamento. Julgar assim fôra expor-se a falsear a história e a desnaturar os fatos. O critério único que em semelhantes apreciações deve servir de norma ao historiador é o critério da evidência, é a conformidade das doutrinas com os primeiros princípios da razão. Julgada aos reflexos desta luz, a verdade ressairá sempre mais brilhante e o êrro, cedo ou tarde, se manifestará no absurdo de suas contradições.

O nascimento da Filosofia: o milagre grego

"O pensamento racional tem um registro civil: conhece-se a sua data e o seu lugar de nascimento. Foi no século VI antes da nossa era, nas cidades gregas da Ásia Menor, que surgiu uma forma de reflexão nova, inteiramente positiva, sobre a natureza. Burnet exprime a opinião corrente quando observa a este propósito: "Os filósofos jônios abriram o caminho que a ciência não fez depois senão seguir". O nascimento da filosofia, na Grécia, marcaria assim o começo do pensamento científico, — poder-se-ia dizer simplesmente: do pensamento. Na Escola de Mileto, o logos ter-se-ia pela primeira vez libertado do mito como as escaras caem dos olhos do cego. Mais do que uma mudança de atitude intelectual, do que uma mutação mental, tratar-se-ia de uma revelação decisiva e definitiva: a descoberta do espírito. Seria por isso vão procurar no passado as origens do pensamento racional. O pensamento verdadeiro não poderia ter outra origem senão ele próprio. É exterior à história, que só pode, no desenvolvimento do espírito, dar a razão de obstáculos, de erros e de ilusões sucessivas. Tal é o sentido do "milagre" grego: através da filosofia dos jônios, reconhece-se a Razão intemporal encarnada no tempo. O aparecimento do logos introduziria portanto na história uma descontinuidade radical. Viajante sem bagagem, a filosofia viria ao mundo sem passado, sem pais, sem família; seria um começo absoluto.

Do mito à Filosofia - Rodrigo Siqueira-Batista

"Mas, então, como germinou, no húmus mito-poético, a filosofia? Um bom ponto de partida seria a constatação de que, em um momento bastante anterior ao surgimento do pensamento filosófico, torna-se identificável um mito já secularizado, o que gerou diferentes conseqüências como apontado por M. Eliade:
 
Em nenhuma outra parte vemos, como na Grécia, o mito inspirar e guiar não só a poesia épica, a tragédia e a comédia, mas também as artes plásticas; por outro lado, a cultura grega foi a única a submeter o mito a uma longa e penetrante análise, da qual ele saiu radicalmente “desmitizado”. A ascensão do racionalismo jônico coincide com uma crítica cada vez mais corrosiva da mitologia “clássica”, tal qual é expressa nas obras de Homero e Hesíodo. Se em todas as línguas européias a palavra “mito” denota “ficção”, é porque os gregos o proclamaram há vinte e cinco séculos.
 
Estas colocações dão margem à identificação, no curso da filosofia grega, da referida desmitificação que se insinua ainda antes do brotamento desta nova razão, tendo sido igualmente capaz de caminhar em paralelo com o pensamento filosófico. Mas isto, por si só, não foi suficiente. A transição do mito para a filosofia não pode ser compreendida simploriamente como um esmaecimento das narrativas míticas ou como simples dessacralização da religião, mesmo porque o mito permanece presente, de certo modo, nas formulações filosóficas ulteriores:
 
O início da filosofia não coincide, assim, nem com o princípio do pensamento racional nem com o fim do pensamento mítico. Mitogonia autêntica ainda encontramos na filosofia de Platão e na de Aristóteles. São exemplos o mito da alma em Platão, e, em Aristóteles, a idéia do amor das coisas pelo motor imóvel do mundo. (Jaeger, "Paideia: a formação do homem grego")

Uma vida sem pensamento é totalmente possível... - Hannah Arendt

O pensamento, em seu sentido não-cognitivo e não-especializado, como uma necessidade natural da vida humana, como a realização da diferença dada na consciência, não é uma prerrogativa de poucos, mas uma faculdade sempre presente em todo mundo; do mesmo modo, a inabilidade de pensar não é uma imperfeição daqueles muitos a quem falta inteligência, mas uma possibilidade sempre presente para todos — incluindo os cientistas, os eruditos e outros especialistas em tarefas do espírito. Todos podemos vir a nos esquivar daquela interação conosco mesmos, cuja possibilidade concreta e cuja importância Sócrates foi o primeiro a descobrir. O pensamento acompanha a vida e é ele mesmo a quintessência desmaterializada do estar vivo. E uma vez que a vida é um processo, sua quintessência só pode residir no processo real do pensamento, e não em quaisquer resultados sólidos ou pensamentos específicos. Uma vida sem pensamento é totalmente possível, mas ela fracassa em fazer desabrochar a sua própria essência — ela não é apenas sem sentido; ela não é totalmente viva. Homens que não pensam são como sonâmbulos. Para o ego pensante e para sua experiência, a consciência moral que "deixa o homem cheio de embaraços" é um efeito colateral acessório. Não importa em que séries de pensamentos o ego pensante se engage; para o eu que nós todos somos, importa cuidar de não fazer nada que torne impossível para os dois-em-um serem amigos e viverem em harmonia. É isto o que Espinoza entende por "aquiescência do próprio eu" (acquiescentia in seipso): "ela pode brotar da razão [raciocínio], e este contentamento é a maior alegria possível". Seu critério de ação não será o das regras usuais, reconhecidas pelas multidões e acordadas pela sociedade, mas a possibilidade de eu viver ou não em paz comigo mesmo quando chegar a hora de pensar sobre meus atos e palavras. A consciência moral é a antecipação do sujeito que aguarda quando eu voltar para casa.
 
(Hannah Arendt, "A Vida do Espírito")
 

A filosofia como um exercício de si - Foucault

"Quanto ao motivo que me impulsionou foi muito simples. Para alguns, espero, esse motivo poderá ser suficiente por ele mesmo. É a curiosidade - em todo caso, a única espécie de curiosidade que vale a pena ser praticada com um pouco de obstinação: não aquela que procura assimilar o que convém conhecer, mas a que permite separar-se de si mesmo. De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não, de certa maneira, e tanto quanto possível, o descaminho daquele que conhece? Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensá­vel para continuar a olhar ou a refletir. Talvez me digam que esses jogos consigo mesmo têm que permanecer nos bastidores; e que no má­ximo eles fazem parte desses trabalhos de preparação que desaparecem por si sós a partir do momento em que produzem seus efeitos. Mas o que é filosofar hoje em dia - quero dizer, a atividade filosófica - senão o trabalho crítico do pensamento sobre o próprio pensamento? Se não consistir em tentar saber de que maneira e até onde seria possí­vel pensar diferentemente em vez de legitimar o que já se sabe? Existe sempre algo de irrisório no discurso filosófico quando ele quer, do exterior, fazer a lei para os outros, dizer-lhes onde está a sua verdade e de que maneira encontrá-la, ou quando pretende demonstrar-se por positividade ingênua; mas é seu direito explorar o que pode ser mudado, no seu próprio pensamento, através do exercício de um saber que lhe é estranho. O “ ensaio" - que é necessário entender com o experiência modificadora de si no jogo da verdade, e não com o apropriação simplificadora de outrem para fins de comunicação - é o corpo vivo da filosofia, se, pelo menos, ela for ainda hoje o que era outrora, ou seja, uma “ ascese” , um exercido de si, no pensamento."
 
Foucault, "A História da Sexualidade II"
 

O que é filosofia?

"O homem, ao que parece, não pode deixar de filosofar. Impossível fazê-lo, e se os detratores entendessem isso, veriam que zombar da filosofia seria ainda uma espécie de filosofia, embora má."
 
(W. Luijpen, "Introdução à Fenomenologia Existencial")
 
 
Texto de A. C. Ewing
 
"Uma definição precisa do termo "filosofia" é impraticável. Tentar formulá-la poderia, ao menos de início, gerar equívocos. Com alguma espirituosidade, alguém poderia defini-la como "tudo e nada, tudo ou nada...". Melhor dizendo, a filosofia difere das ciências especiais na medida em que procura oferecer uma imagem do pensamento humano - ou mesmo da realidade, até onde se admite que isso possa ser feito -- como um todo. Contudo, na prática, o conteúdo de informação real que a filosofia acrescenta às ciências especiais tende a desvanecer-se até parecer não deixar vestígios.

O nascimento da Filosofia

Neste artigo, o Prof. Rodrigo Siqueira-Batista dialoga com o historiador Diógenes Laércio e discute as origens da filosofia em uma tentativa de recontar o surgimento da "dúvida".
 
"A alvorada do pensamento filosófico na Grécia inaugura uma nova atitude do homem / da mulher em relação à realidade – inscrita, claramente, no horizonte da dúvida –, a qual, de certo modo, manteve-se presente, no pensamento ocidental, ao longo dos últimos dois mil e quinhentos anos. A despeito da centralidade da filosofia naquilo que se costuma denominar cultura ocidental, sua emergência permanece como um fenômeno misterioso. Assim, tem provocado esforços de entendimento a partir de díspares frentes de argumentação: (1) as ponderações sobre uma origem alienígena da filosofia – reconhecendo-se que a mesma teria sido importada de outras culturas (formulação contraposta à concepção de pensamento filosófico como um saber grego autóctone) – e (2) a delimitação da(s) figura(s) índice(s) nestes primórdios da interrogação filosófica.
 
As posições sobre esta questão vêm sendo defendidas, por distintos pensadores, desde a Antigüidade. Neste ínterim, Diógenes Laércio – em sua obra Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres (doravante denominada Vidas e doutrinas) – traz considerações extremamente relevantes, as quais merecem uma análise mais detida. Com base nessas breves ponderações, o objetivo deste ensaio é apresentar um estudo preliminar sobre o Proêmio do Livro I, das Vidas e doutrinas, enfatizando as principais teses apresentadas pelo autor acerca do alvorecer da filosofia."
 

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