Sergio Fernandes

Quem é você?

Texto retirado do livro "Filosofia e Consciência" de Sérgio L. de C. Fernandes (grifo meu).

Como pode haver "consciência de si", se todo objeto é uma opacidade e todo sujeito a sombra por ela projetada? O que eu uma vez chamei, erroneamente, de "consciência de si", era flatus vocis. O que há é uma distinção entre o que se repete nas identificações e as identificações que se repetem. O que se repete nas identificações é sempre a inconsciência sob alguma "forma". As identificações que se repetem são nossas mentiras sistemáticas. Ter um ponto de vista é simplesmente ser ignorante, ignorar o que se é, ignorar os "outros" pontos de vista, ser "alguém", ter uma identidade, estar identificado, estar apavorado com a perspectiva de deixar de existir, estar aterrorizado pela morte: é desejar, e estar por isso condenado a uma frustração irremediável, pois é estar no tempo, ter começo e fim, e estar localizado no espaço, estar aqui porque não se está ali. Quando respondemos à pergunta "Quem é você", apontamos sempre para um objeto. E não nos enganamos: jamais nos passa despercebido que estamos mentindo. Quem é você? O Professor Fulano. A Professora Fulana, o marido, a mulher, o pai, a mãe, o aluno, a aluna, o Diretor, aquele que faz isso, aquela que faz aquilo, o que sente isso, o que sente aquilo, o que tem tais e tais memórias, o filho ou a filha de Fulano e Sicrano; tudo isso nada mais é do que construção da mente, biológica e social. Essas construções jamais poderão ser o que alguém é, não porque possa haver alguém ali, onde há uma personalidade, mas porque o pensamento é a produção do falso em cadeia. Não há "identificações" verdadeiras. Aquilo que, ao ser conhecido, deixa de ser o que é, justamente por ter sido conhecido, é o Falso: trata-se do que jamais se revela tal qual é, mas sempre como não é — símbolo, o que está sempre no lugar de outra coisa. É uma ironia do que Heráclito chamou de "destino", que expressões como "eu consciente", "ego fortalecido", "bem estruturado" etc., sejam corriqueiras. Uma questão de "caráter". Por isso a resposta do sábio à pergunta sobre quem ele é só pode ser o silêncio. Ou então a mais longa das respostas: "Sou isto, e aquilo, e aquilo ...", indefinidamente.