Brasil

O Brasil odeia a igualdade, o mérito, o mercado

Nesta entrevista o antropólogo Roberto DaMatta discute o conceito de igualdade na cultura brasileira. Entre outras questões que nos fazem pensar, o autor derruba a ideia de que uma mudança no estado (acredito que o autor entenda estado aqui por governo!) acarretaria a tão sonhada transformação da sociedade. Ledo engano! Como bem ressaltou o pensador: "É justamente o contrário. Quem assume os cargos públicos são nossos iguais, companheiros, parentes. São como nós as pessoas que reproduzem no estado esse padrão duplo de usar de vez em quando uma ética igualitária e em outros momentos uma ética baseada em relações, nos contatos. O Brasil não gosta de ser igual, odeia a igualdade, o mérito, o mercado."
 
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Por que o Brasil é assim?

Neste texto, retirado do livro "O que faz o brasil, Brasil?", o antropólogo Roberto DaMatta discorre sobre a um dos mais salientes adjetivos do brasileiro: o nosso "jeitinho". Entre idas e vindas o autor enxerga nesta "malandragem", tipicamento brasileira, uma forma de navegação social que permite juntar o pessoal com o impessoal. Entre o "pode" e o "não pode", o brasileiro vê o "jeitinho". 
 
"Entre a desordem carnavalesca, que permite e estimula o excesso, e a ordem, que requer a continência e a disciplina pela obediência estrita às leis, como é que nós, brasileiros, ficamos? Qual a nossa relação e a nossa atitude para com e diante de uma lei universal que teoricamente deve valer para todos? Como procedemos diante da norma geral, se fomos criados numa casa onde, desde a mais tenra idade, aprendemos que há sempre um modo de satisfazer nossas vontades e desejos, mesmo que isso vá de encontro às normas do bom senso e da coletividade em geral?
 
Num livro que escrevi – Carnavais, malandros e heróis – lancei a tese de que o dilema brasileiro residia numa trágica oscilação entre um esqueleto nacional feito de leis universais cujo sujeito era o indivíduo e situações onde cada qual se salvava e se despachava como podia, utilizando para isso o seu sistema de relações pessoais. Haveria assim, nessa colocacão, um verdadeiro combate entre leis que devem valer para todos e relações que evidentemente só podem funcionar para quem as tem. O resultado é um sistema social dividido e até mesmo equilibrado entre duas unidades sociais básicas: o indivíduo (o sujeito das leis universais que modernizam a sociedade) e a pessoa (o sujeito das relações sociais, que conduz ao pólo tradicional do sistema). Entre os dois, o coração dos brasileiros balança. E no meio dos dois, a malandragem, o  “jeitinho” e o famoso e antipático “sabe com quem está falando?” seriam modos de enfrentar essas contradições e paradoxos de modo tipicamente brasileiro. Ou seja: fazendo uma mediação também pessoal entre a lei, a situação onde ela deveria aplicar-se e as pessoas nela implicadas, de tal sorte que nada se modifique, apenas ficando a lei um pouco desmoralizada – mas, como ela é insensível e não é gente como nós, todo mundo fica, como se diz, numa boa, e a vida retorna ao seu normal...