Kierkegaard

Ciência, Kierkegaard e verdade

"The old scientific ideal of episteme — of absolutely certain, demonstrable knowledge—has proved to be an idol. The demand for scientific objectivity makes it inevitable that every scientific statement must remain tentative for ever. It may indeed be corroborated, but every corroboration is relative to other statements which, again, are tentative."

(K. Popper, The Logic of Scientific Discovery)

Atualmente a ciência permeia nossas vidas como língua franca, como padrão de racionalidade. Se uma simples pasta de dente, conforme sua propaganda, foi desenvolvida após anos de pesquisas científicas, não há qualquer dúvida de sua qualidade, de sua competência para os fins a que se destina. A mise en-scène do comercial, com pessoas de aventais brancos em uma espécie de laboratório, declarando a pasta de dente como resultado de inúmeras pesquisas só serve para legitimar ainda mais a força do científico em nossa sociedade. O pensador brasileiro Rubem Alves (1933-2014) transcreveu a passagem abaixo, do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813 - 1855), em seu livro "Filosofia da Ciência". O objetivo era destacar esta "insinuação" científica de conhecer a realidade em toda a sua plenitude, uma reivindicação incompatível, segundo Rubem Alves, com as possibilidades do método científico cujos propósitos se resumem a busca de fatos que comprovem ou neguem as suas teorias ou, nas palavras do próprio autor uma abordagem sobre a realidade onde o fato "só tem significação na medida em que acrescenta ou diminui a plausibilidade de uma teoria". O discurso científico se pretende verdadeiro na medida em que acredita representar a realidade tal qual ela é. Rubem Alves diria ser impossível reproduzir fidedignamente o "relógio" sem jamais abrí-lo. O que a ciência nos pede aqui, afinal, é um ato de fé...

"Se um dançarino desse saltos muito altos, poderíamos admirá-lo. Mas se ele tentasse dar a impressão de poder voar, o riso seria seu merecido castigo, mesmo se ele fosse capaz, na verdade, de saltar mais alto que qualquer outro dançarino. Saltos são atos de seres essencialmente terrestres, que respeitam a força gravitacional da Terra, pois que  o salto é algo momentâneo. Mas o vôo nos faz lembrar os seres emancipados das condições telúricas, um privilégio reservado para as criaturas aladas..."

(Kierkegaard, "Concluding Unscientific Postscript")

"...e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal"

No primeiro trecho, o mote da consagrada MIT (Massachusetts Institute of Technology). No segundo, e a propósito desta "insinuação", que assenta-se na idéia universal de que a ciência moderna e seus infalíveis métodos detém a capacidade de descortinar a realidade, a metáfora do filósofo dinamarquês Kierkegaard pode nos ajudar a melhor compreender e relativizar estas pretensões.
 
“(...) e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal.” 
Moto da comunidade científica, segundo mural do Massachusetts Institute of Technology 
 
“Se um dançarino desse saltos muito altos, poderíamos admirá-lo. Mas se ele tentasse dar a impressão de poder voar, o riso seria seu merecido castigo, mesmo se ele fosse capaz, na verdade, de saltar mais alto que qualquer outro dançarino. Saltos são atos de seres essencialmente terrestres, que respeitam a força gravitacional da Terra, pois que  o salto é algo momentâneo. Mas o vôo nos faz lembrar os seres emancipados das condições telúricas, um privilégio reservado para as criaturas aladas...” (Kierkegaard)
 
O pensador alemão Kant e o "fundador da filosofia moderna", Descartes, também refletiram sobre a dificuldade da razão humana diante dos fenômenos da realidade:
 
"a razão, assim, se aproxima da natureza não como um aluno, que ouve tudo aquilo que o professor se decide a dizer, mas como um juiz que obriga a testemunha a responder questões que ele mesmo formulou." (Kant)
 
"Entre todos os que buscam a verdade nas ciências, apenas os matemáticos encontram algumas demonstrações, isto é, algumas razões certas e evidentes." (Descartes)