morte

A morte não é nada - Henry Scott-Holland

"A morte não é nada. Eu somente passei para o outro lado do Caminho. Eu sou eu, vocês são vocês. O que eu era para vocês, eu continuarei sendo. Me dêem o nome que vocês sempre me deram, falem comigo como vocês sempre fizeram. Vocês continuam vivendo no mundo das criaturas, eu estou vivendo no mundo do Criador. Não utilizem um tom solene ou triste, continuem a rir daquilo que nos fazia rir juntos. Rezem, sorriam, pensem em mim. Rezem por mim. Que meu nome seja pronunciado como sempre foi, sem ênfase de nenhum tipo. Sem nenhum traço de sombra ou tristeza. A vida significa tudo o que ela sempre significou, o fio não foi cortado. Porque eu estaria fora de seus pensamentos, agora que estou apenas fora de suas vistas? Eu não estou longe, apenas estou do outro lado do Caminho... Você que aí ficou, siga em frente, a vida continua, linda e bela como sempre foi."
 
Henry Scott-Holland, sermão intitulado "Death the King of Terrors"

O animal não tem consciência da morte - Schopenhauer

"A morte é o verdadeiro gênio inspirador ou o Muságeta da filosofia, razão pela qual Sócrates também a definiu como thanatou memléte (preparação para a morte). De fato, sem a morte, seria até difícil filosofar. Por isso, é perfeitamente legítimo que uma consideração especial sobre a morte seja colocada aqui, no início de nosso último livro, que é o mais sério e importante de todos. O animal vive sem um verdadeiro conhecimento da morte: por isso, o indivíduo animal desfruta diretamente de toda a imortalidade da espécie, na medida em que tem consciência de si mesmo apenas como ser sem fim. No homem, o surgimento da razão trouxe necessariamente consigo a assustadora certeza da morte. No entanto, como na natureza para todo o mal há sempre um remédio ou, pelo menos, um substituto, a mesma reflexão que provocou o conhecimento da morte também nos conduz a formular opiniões metafísicas que nos consolam a respeito, e das quais o animal não necessita nem é capaz de ter.
 
Esse é o objetivo principal a que se orientam todas as religiões e todos os sistemas filosóficos, que em primeiro lugar, constituem, portanto, o antídoto da certeza da morte, produzido pela razão reflexiva a partir de recursos próprios. No entanto, o grau em que alcançam esse objetivo é muito variado, e não há dúvida de que certa religião ou certa filosofia, muito mais do que qualquer outra, tornará o homem apto a encarar a morte com um olhar sereno. Nesse sentido, o bramanismo e o budismo, que ensinam o homem a ver-se como o próprio ser primordial, o Brama, que é essencialmente alheio a todo o nascimento e a todo perecimento, são muito mais eficazes do que aquelas religiões para as quais o homem foi criado a partir do nada e que fazem com que sua existência, recebida de outrem, realmente comece com o nascimento. Por conseguinte, encontramos na Índia uma confiança na morte e um desprezo por ela que são inconcebíveis na Europa. De fato, quanto a essa importante questão, é grave querer impor ao homem e nele inculcar precocemente conceitos fracos e insustentáveis, tornando-o para sempre incapaz de assimilar os conceitos mais corretos e mais sólidos.

A crise da medicina - Peter Sloterdijk

Accustom yourself to believe that death is nothing to us, for good and evil imply awareness, and death is the privation of all awareness; therefore a right understanding that death is nothing to us makes the mortality of life enjoyable, not by adding to life an unlimited time, but by taking away the yearning after immortality. For life has no terror; for those who thoroughly apprehend that there are no terrors for them in ceasing to live. Foolish, therefore, is the person who says that he fears death, not because it will pain when it comes, but because it pains in the prospect. Whatever causes no annoyance when it is present, causes only a groundless pain in the expectation. Death, therefore, the most awful of evils, is nothing to us, seeing that, when we are, death is not come, and, when death is come, we are not.
 
Epicurus, "Letter to Menoeceus" 
 
 
"Em cada civilização, há grupos de pessoas que por conta de suas tarefas profissionais são levados a desenvolver diferentes realismos em contato com corpos moribundos ou mortos: o soldado, o carrasco, o sacerdote. Mas é na profissão médica que se constroi o realismo mais aprofundado da morte. — Esta consciência da morte tem um conhecimento técnico mais íntimo que toda outra da fragilidade do corpo, e dá luz ao movimento, orientado para a morte, de nosso organismo — seja ele chamado saúde, doença ou envelhecimento. Só o açougueiro possui, do aspecto material de nossa morte, um saber comparável, igualmente ancorado em rotinas pelo ofício. O materialismo medical chega até a intimidar o materialismo filosófico. Por esta razão, o cadáver seria o professor propriamente qualificado de um materialismo integral. [...]

A morte de Sócrates - Fédon

Nas palavras de Carlos Alberto Nunes, em sua excelente tradução bilíngue do diálogo de Fédon: "Nessas poucas palavras se resume toda a doutrinação filosófica de Sócrates-Platão, dirigida primeiramente aos atenienses, porém logo depois projetada no âmbito da incipiente cultura da Europa: mostrar aos homens o que importa fazer, na vida como na morte, para que sejam homens." SER-humano! Platão, no seu livro Fédon, assim narrou a morte de seu mestre:
 
"Depois de assim falar, levou a taça aos lábios e com toda a naturalidade, sem vacilar um nada, bebeu até à última gota. Até esse momento, quase todos tínhamos conseguido reter as lágrimas; porém quando o vimos beber, e que havia bebido tudo, ninguém mais aguentou. Eu também não me contive: chorei à lágrima viva. Cobrindo a cabeça, lastimei o meu infortúnio; sim, não era por desgraça que eu chorava, mas a minha própria sorte, por ver de que espécie de amigo me veria privado. Critão levantou-se antes de mim, por não poder reter as lágrimas. Apolodoro, que desde o começo não havia parado de chorar, pôs se a urrar, comovendo seu pranto e lamentações até o íntimo todos os presentes, com exceção do próprio Sócrates.
 
- Que é isso, gente incompreensível? Perguntou. Mandei sair as mulheres, para evitar esses exageros. Sempre soube que só se deve morrer com palavras de bom agouro. Acalmai-vos! Sede homens!
 
Ouvindo-o falar dessa maneira, sentimo-nos envergonhados e paramos de chorar. E ele, sem deixar de andar, ao sentir as pernas pesadas, deitou-se de costas, como recomendara o homem do veneno. Este, a intervalos, apalpava-lhe os pés e as pernas. Depois, apertando com mais força os pés, perguntou se sentia alguma coisa. Respondeu que não. De seguida, sem deixar de comprimir-lhe a perna, do artelho para cima, mostrou-nos que começava a ficar frio e a enrijecer. Apalpando-o mais uma vez, declarou-nos que no momento em que aquilo chegasse ao coração, ele partiria. Já se lhe tinha esfriado quase todo o baixo-ventre, quando, descobrindo o rosto – pois o havia tapado antes – disse, e foram suas últimas palavras:
 
- Critão (exclamou ele), devemos um galo a Asclépio. Não te esqueças de saldar essa dívida!
"Assim farei!", respondeu Critão. Vê se queres dizer mais alguma coisa. A essa pergunta, já não respondeu. Decorrido mais algum tempo, deu um estremeção. O homem o descobriu; tinha o olhar parado. Percebendo isso, Critão fechou-lhe os olhos e a boca.
 
Tal foi o fim do nosso amigo, Equécrates, do homem, podemos afirmá-lo, que entre todos os que nos foi dado conhecer, era o melhor e também o mais sábio e mais justo."
 
Platão, "Fédon" (117c-118a)
 
 

De quem é o corpo? - Heloisa Helena Barboza

“[...] o que está sempre em pauta na biopolítica é o manejo insistente e infinito das fontes da vida para a produção de riqueza material e para a regulação dos laços sociais.”
 
(Joel Birman, "Arquivo da Biopolítica")
 
 
"A medicina de há muito, como se vê, passou a ocupar um lugar de destaque na gestão dos corpos no espaço urbano, quer no plano individual (medicina clínica), quer no coletivo (medicina social). por meio das disciplinas, os corpos são “docilizados”, isto é, “submissos” e “exercitados”4. A disciplina fabrica corpos “dóceis”, ou seja, que têm suas forças aumentadas quanto à economia de utilidade, mas diminuídas quanto à política de obediência (Foucault, 2008, p. 119). Melhor do que reprimir é gerir a vida dos indivíduos, controlá-los em suas ações, diminuir sua capacidade de revolta, de resistência, de luta, de insurreição contra as ordens do poder, neutralização dos efeitos de contra-poder, isto é, tornar os homens dóceis politicamente.
 
A disciplina não é uma instituição ou um aparelho, é um instrumento do poder, do poder disciplinar, que funciona como uma rede que atravessa os corpos sem se limitar a suas fronteiras, que opera mediante “métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que asseguram a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade [...]” (Foucault, 2008, p. 118). O poder não atua do exterior: por meio da disciplina, trabalha o corpo dos homens, manipula seus elementos, produz seu comportamento, enfim fabrica o tipo de homem necessário ao funcionamento e manutenção da sociedade industrial, capitalista.

Alan Watts - The Real You

"When you’re ready to wake up, you’re going to wake up, and if you’re not ready you’re going to stay pretending that you’re just a ‘poor little me.’ And since you’re all here and engaged in this sort of inquiry and listening to this sort of lecture, I assume you’re all in the process of waking up. Or else you’re teasing yourselves with some kind of flirtation with waking up which you’re not serious about. But I assume that maybe you are not serious, but sincere – that you are ready to wake up.

So then, when you’re in the way of waking up, and finding out who you really are, what you do is what the whole universe is doing a the place you call here and now. You are something that the whole universe is doing in the same way that a wave is something that the whole ocean is doing… The real you is not a puppet which life pushes around; the real, deep down you is the whole universe.
 
So then, when you die, you’re not going to have to put up with everlasting non-existance, because that’s not an experience. A lot of people are afraid that when they die, they’re going to be locked up in a dark room forever, and sort of undergo that. But one of the interesting things in the world is–this is a yoga, this is a realization–try and imagine what it will be like to go to sleep and never wake up. Think about that.
 
Children think about it. It’s one of the great wonders of life. What will it be like to go to sleep and never wake up? And if you think long enough about that, something will happen to you. You will find out, among other things, it will pose the next question to you. What was it like to wake up after having never gone to sleep? That was when you were born.
 
You see, you can’t have an experience of nothing; nature abhors a vacuum. So after you’re dead, the only thing that can happen is the same experience, or the same sort of experience as when you were born. In other words, we all know very well that after other people die, other people are born. And they’re all you, only you can only experience it one at a time. Everybody is I, you all know you’re you, and wheresoever beings exist throughout all galaxies, it doesn’t make any difference. You are all of them. And when they come into being, that’s you coming into being.
 
You know that very well, only you don’t have to remember the past in the same way you don’t have to think about how you work your thyroid gland, or whatever else it is in your organism. You don’t have to know how to shine the sun. You just do it, like you breath. Doesn’t it really astonish you that you are this fantastically complex thing, and that you’re doing all this and you never had any education in how to do it? Never learned, but you’re this miracle?"