ceticismo

Hume: paixão e razão

"A razão é, e só pode ser, escrava das paixões; só pode pretender ao papel de as servir e obedecer a elas."
(David Hume - Tratado da Natureza Humana)
 
David Hume (1711-1776), filósofo escocês do século XVIII, escreveu sua obra mais contundente quando tinha apenas 28 anos. Embora seja considerado por muitos uma das grandes obras da história do pensamento, o "Tratado da natureza humana" (1739) não ganhou a repercussão esperada pelo próprio autor que, constatando que se tratava de um problema de estilo, e não de conteúdo, decidiu reescrevê-lo com uma linguagem mais adequada ao público em "Enquiry Concerning Human Understanding" (1748). Grande parte de suas investigações estão relacionadas à questão do conhecimento e, neste sentido, Hume é considerado um empirista por conta de suas convicções a respeito das construção do conhecimento humano a partir de sua relação com o mundo que o cerca, ou seja, suas experiências. Não seria exagero compreender o pensamento de Hume como uma contraposição materialista ao dualismo proposto por Descartes, um século antes. Para Hume, a alma como "substância pensante" (res cogitans), tal como proposto pelo cartesianismo, não existe e o que nós chamamos de "alma" seria apenas um conjunto de fenômenos inconscientes criados a partir das percepções e afetos do mundo que nos circunda. A "razão" seria, entrementes, somente a combinação de representações que, por sua vez, "recolho" do mundo.
 
Outra questão pertinente deste grande pensador é debate permanente entre as noções de "desejo" e "razão", profundamente desenvolvida (ainda que em uma nomenclatura diferente, onde "razão" é elaborada sob o conceito de "vontade", a partir de Rousseau) por Kant 46 anos mais tarde, em 1785, em sua obra clássica "Fundamentação da Metafísica dos Costumes". No trecho que separei, retirado do livro "A Treatise of Human Nature" (1739), David Hume formula sua oposição à concepção de supremacia da razão sobre as pulsões carnais, constatando as últimas, como as verdadeiras responsáveis pelo "agir" humano. Em sua perspectiva, é preciso buscar os motivos do "agir" nas paixões, sendo a "razão" sempre incapaz de impedir um impulso passional.

Descartes e o cogito

Nesta passagem, o filósofo francês René Descartes (1596-1650), propõe o "cogito" ao percorrer o caminho cético e "destrinchar" o princípio epistemológico fundamental sobre o qual todo o conhecimento é construído.

"I suppose, accordingly, that all the things which I see are false; fictitious. I believe that none of those objects which my fallacious memory represents ever existed; I suppose that I possess no senses; I believe that body, figure, extension, motion, and place are merely fictions of my mind. What is there, then, that can be esteemed true? Perhaps this only, that there is absolutely nothing certain. But how do I know that there is not something different altogether from the objects I have now enumerated, of which it is impossible to entertain the slightest doubt? Is there not a God, or some being, by whatever name I may designate Him, who causes these thoughts to arise in my mind? But why suppose such a Being, for it may be I myself am capable of producing them? Am I, then, at least not something? But I before denied that I possessed senses or a body; I hesitate, however, for what follows from that? Am I so dependent on the body and the senses that without these I cannot exist? But I had the persuasion that there was absolutely nothing in the world, that there was no sky and no earth, neither minds nor bodies; was I not, therefore, at the same time, persuaded that I did not exist? Far from it; I assuredly existed, since I was persuaded. But there is I know not what being, who is possessed at once of the highest power and the deepest cunning, who is constantly employing all his ingenuity in deceiving me. Doubtless, then, I exist, since I am deceived; and, let him deceive me as he may, he can never bring it about that I am nothing, so long as I shall be conscious that I am something. So that it must, in fine, be maintained, all things being maturely and carefully considered, that this proposition: I am, I exist; is necessarily true each time it is expressed by me, or conceived in my mind."

Descartes, "Meditations On First Philosophy"