Espinosa

O vazio por trás das ideias de bem e mal - Spinoza

"Depois que a experiência me ensinou que tudo que frequentemente ocorre na vida comum é vão e fútil, como via que tudo que me provocava temor e que eu temia não tinha em si nada de bom nem de mau, a não ser na medida em que o ânimo era comovido por isso, decidi finalmente indagar se existia algo que fosse um bem verdadeiro [...]"

(Spinoza, Tratado da reforma do intelecto)

 

"O que permite a uma pessoa perguntar-se por um bem verdadeiro? Fundamentalmente, a desconfiança de que os bens (e também os males) que lhe foram propostos sejam incertos. Ao ensinar o vazio por trás das ideias de bem e mal, que "não se dizem senão relativamente", a experiência nos leva a supeitar da escala de valores da "vida comum", à qual somos todos apresentados tão logo nos damos por gente. Nesse sentido, deparamos uma experiencia da desconfiança que põe em suspensão as certezas da vida comum. Esse primeiro traço característico da experiência (a desconfiança) nos conduz a outro, talvez até mais primordial: trata-se de uma experiência da decepção. Os bens da vida comum quando nos são apresentados, envolvem uma promessa e nos propõem um trato: se acedermos a eles, eles nos trarão algo. Como sabemos pelo Tratado, porém, a certeza da vanidade e futilidade do que ocorre na vida comum deve-se à experiência de que tal vida não cumpre suas promessas. Ou seja, seus bens tornam-se incertos porque deles desconfiamos, e deles desconfiamos porque se mostraram decepcionantes.

Decepção e desconfiança articulados, esses sentimentos dão forma a um tipo determinado de experiência que, ao abalar o sistema da vida comum em que estamos inseridos, abre um campo de novas possibilidades, em especial a possibilidade de uma nova vida. A despeito do conteúdo dessa experiência, reafirmemos, cabe insistir nos seus efeitos, extremamente próximos dos daquela mencionada no apêndice.

A filosofia como uma doutrina de salvação ... por si mesmo! - Luc Ferry

Aprender a viver
Luc Ferry
 
“Por não conseguir acreditar num Deus salvador, o filósofo é antes de tudo aquele que pensa que, se conhecemos o mundo, compreendendo a nós mesmos e compreendendo os outros, tanto quanto nossa inteligência o permite, vamos conseguir, pela lucidez e não por uma fé cega, vencer nossos medos. Em outras palavras, se as religiões se definem como “doutrinas da salvação” por um Outro, pela graça de Deus, as grandes filosofias poderiam ser definidas como “doutrinas da salvação por si mesmo, sem a ajuda de Deus. É assim que Epicuro, por exemplo, define a filosofia como uma “medicina da alma”, cujo objetivo último é o de nos fazer compreender que “a morte não deve amedrontar”. Esse é também todo o programa filosófico que seu mais eminente discípulo, Lucrécio, expõe num poema intitulado Sobre a Natureza das Coisas: "É preciso, antes de tudo, expulsar e destruir esse medo do Aqueronte [o rio dos Infernos] que, penetrando até o fundo de nosso ser, envenena a vida humana, colore todas as coisas do negror da morte e não deixa subsistir nenhum prazer límpido e puro."
 
Isso é válido também para Epicteto, um dos maiores representantes de outra escola filosófica da Grécia antiga, o estoicismo, sobre o qual falarei daqui a pouco, que vai reduzir todas as interrogações filosóficas a uma única e mesma fonte: o medo da morte. Vamos ouvi-lo quando se dirige a seu discípulo durante as conversas que com ele mantém: Tens em mente — diz ele — que para o homem o princípio de todos os males, da baixeza, da covardia, é... o medo da morte? Exercita-te contra ela; que para isso tendam “todas as tuas palavras, todos os teus estudos, todas as tuas leituras e saberás que é o único meio que os homens têm de se tornarem livres.
 
O mesmo tema se encontra em Montaigne, no famoso adágio segundo o qual “filosofar é aprender a morrer”, e em Spinoza, com sua bela reflexão sobre o sábio, “que morre menos que o tolo”; em Kant, quando se pergunta “o que nos é permitido esperar”, e até em Nietzsche, que se aproxima, com seu pensamento sobre a “inocência do devir”, dos mais profundos elementos das doutrinas da salvação elaboradas na Antiguidade. Não se preocupe se essas alusões aos grandes autores ainda não lhe dizem nada. É normal, já que você está começando. Voltaremos a cada um desses exemplos para esclarecê-los e explicitá-los. No momento, o que importa é apenas que você compreenda por que, aos olhos de todos esses filósofos, o medo da morte nos impede de viver bem. Não somente porque ela gera angústia. A bem dizer, na maior parte do tempo, não pensamos nisso, e estou certo de que você não passa os dias meditando sobre o fato de que os homens são mortais! No entanto, isso acontece num nível mais profundo, porque a irreversibilidade do curso das coisas, que é uma forma de morte no interior mesmo da vida, ameaça-nos de sempre nos arrastar para uma dimensão do tempo que corrompe a existência: a do passado, onde se instalam os grandes corruptores da felicidade que são a nostalgia e a culpa, o arrependimento e o remorso. Você me dirá talvez que basta não pensar nela, basta tentar, por exemplo, fixar-se de preferência nas lembranças mais felizes do que remoer maus momentos.

Uma vida sem pensamento é totalmente possível... - Hannah Arendt

O pensamento, em seu sentido não-cognitivo e não-especializado, como uma necessidade natural da vida humana, como a realização da diferença dada na consciência, não é uma prerrogativa de poucos, mas uma faculdade sempre presente em todo mundo; do mesmo modo, a inabilidade de pensar não é uma imperfeição daqueles muitos a quem falta inteligência, mas uma possibilidade sempre presente para todos — incluindo os cientistas, os eruditos e outros especialistas em tarefas do espírito. Todos podemos vir a nos esquivar daquela interação conosco mesmos, cuja possibilidade concreta e cuja importância Sócrates foi o primeiro a descobrir. O pensamento acompanha a vida e é ele mesmo a quintessência desmaterializada do estar vivo. E uma vez que a vida é um processo, sua quintessência só pode residir no processo real do pensamento, e não em quaisquer resultados sólidos ou pensamentos específicos. Uma vida sem pensamento é totalmente possível, mas ela fracassa em fazer desabrochar a sua própria essência — ela não é apenas sem sentido; ela não é totalmente viva. Homens que não pensam são como sonâmbulos. Para o ego pensante e para sua experiência, a consciência moral que "deixa o homem cheio de embaraços" é um efeito colateral acessório. Não importa em que séries de pensamentos o ego pensante se engage; para o eu que nós todos somos, importa cuidar de não fazer nada que torne impossível para os dois-em-um serem amigos e viverem em harmonia. É isto o que Espinoza entende por "aquiescência do próprio eu" (acquiescentia in seipso): "ela pode brotar da razão [raciocínio], e este contentamento é a maior alegria possível". Seu critério de ação não será o das regras usuais, reconhecidas pelas multidões e acordadas pela sociedade, mas a possibilidade de eu viver ou não em paz comigo mesmo quando chegar a hora de pensar sobre meus atos e palavras. A consciência moral é a antecipação do sujeito que aguarda quando eu voltar para casa.
 
(Hannah Arendt, "A Vida do Espírito")
 

As teorias morais como sátiras - Espinosa

"Os filósofos concebem as emoções que se combatem entre si, em nós, como vícios em que os homens caem por erro próprio; é por isso que se habituaram a ridicularizá-los, deplorá-los, reprová-los ou, quando querem parecer mais morais, detestá-los. Julgam assim agir divinamente e elevar-se ao pedestal da sabedoria, prodigalizando toda espécie de louvores a uma natureza humana que em parte alguma existe, e atacando através dos seus discursos a que realmente existe. Concebem os homens, efetivamente, não tais como são, mas como eles próprios gostaria que fossem. Daí, por conseqüência, que quase todos, em vez de uma ética, hajam escrito uma sátira..."
 
(Espinosa, "Tratado Político")
 

Espinosa como precursor de Nietzsche

"Estou totalmente estupefato, maravilhado! Tenho um precursor, e que precursor! Eu não conhecia quase nada de Espinosa: que eu seja agora impelido a ele, foi um ‘ato instintivo’. Não só sua tendência geral é a mesma que a minha – fazer do conhecimento o mais potente dos afetos -, como me reencontro em cinco pontos capitais de sua doutrina; este pensador, o mais fora da norma e solitário, é-me nesses aspectos justamente o mais próximo […] In summa: minha solidão, que, como sobre o cume de elevadas montanhas, tantas e tantas vezes tornou minha respiração difícil e me fez sangrar, é, ao menos agora, uma ‘dualidão'”

Carta de Nietzsche a Overbeck, 30 de julho de 1881

 

Gilles Deleuze - a potência de agir de Spinoza

"Quando Espinoza diz: o surpreendente é o corpo... ainda não sabemos o que pode um corpo... ele não quer fazer do corpo um modelo, e da alma, uma simples dependência do corpo. Sua empreitada é mais sutil. Ele quer abater a pseudo-superioridade da alma sobre o corpo. Há a alma e o corpo, e ambos exprimem uma única e mesma coisa: um atributo do corpo é também um expresso da alma (por exemplo, a velocidade). Do mesmo modo que você não sabe o que pode um corpo, há muitas coisas no corpo que você não conhece, que vão além de seu conhecimento, há na alma muitas coisas que vão além de sua consciência. A questão é a seguinte: o que pode um corpo? De que afetos você é capaz? Experimente, mas é preciso muita prudência para experimentar. Vivemos em um mundo desagradável, onde não apenas as pessoas, mas os poderes estabelecidos têm interesse em nos comunicar afetos tristes. A tristeza, os afetos tristes são todos aqueles que diminuem nossa potência de agir. Os poderes estabelecidos têm necessidade de nossas tristezas para fazer de nós escravos. O tirano, o padre, os tomadores de almas, têm necessidade de nos persuadir que a vida é dura e pesada. Os poderes têm menos necessidade de nos reprimir do que de nos angustiar, ou, como diz Virilio, de administrar e organizar nossos pequenos terrores íntimos. A longa lamentação universal sobre a vida: a falta-de-ser que é a vida... 

Kant e a liberdade

Segundo Reale, em sua História da Filosofia, depois de Platão ("ação livre é aquela que se determina em favor do desejo racional"), Kant deu toda amplitude ao "racionalismo" da liberdade: a ação é livre quando a consciência determina "contra" os desejos sensíveis, em função de um princípio racional (por ex., dar esmola "por piedade" é ceder à tendência; mas dar esmola "por princípio" é agir livremente, segundo um princípio racional); Percebe-se que, no fundo, a liberdade não consiste no que se faz, mas na maneira pela qual se faz. A liberdade é uma atitude, a do homem que se reconhece em sua vida, que aceita a história do mundo e dos acontecimentos. Por isso, a liberdade consiste, freqüentemente, muito mais em "mudar seus desejos que a ordem do mundo", em adaptar-se à evolução e à ordem das coisas."

Michael Sandel também cita este princípio da filosofia kantiana quando relembra um famoso anúncio de uma empresa de refrigerantes, cujo logo sugeria: "obedeça sua sede". Segundo o próprio Sandel, este seria um bom exemplo de um agir "heteronomamente", palavra inventada por Kant, que seria o oposto de agir autônomamente. Agir heteronomamente seria, portanto, agir de acordo com desejos que eu não escolhi. Como bem sugeriu Reale, agir livremente, em seu sentido mais puro e direto, não se resume a esta ou aquela ação, mas dos princípios que a regem enquanto ação.