Descartes

A racionalidade científica é totalitária - Boaventura de Sousa Santos

"O modelo de racionalidade que preside à ciência moderna constituiu-se a partir da revolução científica do século XVI e foi desenvolvido nos séculos seguintes basicamente no domínio das ciências naturais. Ainda que com alguns prenúncios no século XVIII, é só no século XIX que este modelo de racionalidade se estende às ciências sociais emergentes. A partir de então pode falar-se de um modelo global de racionalidade científica que admite variedade interna mas que se distingue e defende, por via de fronteiras ostensivas e ostensivamente policiadas, de duas formas de conhecimento não-científico (e, portanto, irracional) potencialmente perturbadoras e intrusas: o senso comum e as chamadas humanidades ou estudos humanísticos (em que se incluíram, entre outros, os estudos históricos, filológicos, jurídicos, literários, filosóficos e teológicos). Sendo um modelo global, a nova racionalidade científica é também um modelo totalitário, na medida em que nega o caráter racional a todas as formas de conhecimento que se não pautarem pelos seus princípios epistemológicos e pelas suas regras metodológicas. 
 
É esta a sua característica fundamental e a que melhor simboliza a ruptura do novo paradigma científico com os que o precedem. Está consubstanciada, com crescente definição, na teoria heliocêntrica do movimento dos planetas de Copérnico, nas leis de Kepler sobre as órbitas dos planetas, nas leis de Galileu sobre a queda dos corpos, na grande síntese da ordem cósmica de Newton e finalmente na consciência filosófica que lhe conferem Bacon e sobretudo Descartes. Esta preocupação em testemunhar uma ruptura fundante que possibilita uma e só uma forma de conhecimento verdadeiro está bem patente na atitude mental dos protagonistas, no seu espanto perante as próprias descobertas e a extrema e ao mesmo tempo serena arrogância com que se medem com os seus contemporâneos. Para citar apenas dois exemplos, Kepler escreve no seu livro sobre a Harmonia do Mundo publicado em 1619, a propósito das harmonias naturais que descobrira nos movimentos celestiais: "Perdoai-me mas estou feliz; se vos zangardes eu perseverarei; ( . . . ) O meu livro pode esperar muitos séculos pelo seu leitor. Mas mesmo Deus teve de esperar seis mil anos por aqueles que pudessem contemplar o seu trabalho".

O racionalismo como filosofia profana - René Guenon

"Mais tarde, ao analisar com atenção o que eu era, e vendo que podia presumir que não possuía corpo algum e que não havia mundo algum, ou lugar onde eu existisse, mas que nem por isso podia supor que não existia; e que, ao contrário, pelo fato mesmo de eu pensar em duvidar da verdade das outras coisas, resultava com bastante evidência e certeza que eu existia [...]"
 
Descartes, "Discurso sobre o Método"
 
 
"A palavra “filosofia”, em si mesma, pode seguramente ser tomada num sentido muito legítimo, que foi sem dúvida o seu sentido primitivo, sobretudo se é verdade, como se pretende, que foi Pitágoras o primeiro a utilizá-la. Etimologicamente, significa “amor à sabedoria”; designa portanto, primeiramente, uma disposição prévia requerida para alcançar a sabedoria, e pode designar também, por uma natural extensão, a procura que, nascendo dessa disposição, deve conduzir ao conhecimento. É então apenas um estágio preliminar e preparatório, um caminhar para a sabedoria, um grau correspondente a um estado inferior a esta. O desvio que se produziu depois consistiu em tomar este grau transitório pelo próprio fim, em pretender substituir a sabedoria pela “filosofia”, o que implica o esquecimento ou o desconhecimento da verdadeira natureza desta última.
 
Foi assim que nasceu o que nós podemos chamar de Filosofia “profana”, ou seja, uma pretensa sabedoria puramente humana, portanto de ordem simplesmente racional, tomando o lugar da verdadeira sabedoria tradicional, supra-racional e “não humana”. No entanto, subsistiu ainda alguma coisa desta através de toda a Antiguidade; o que o prova é primeiramente a persistência dos “mistérios”, cujo caráter essencialmente “iniciático” não pode ser contestado, e também o fato de que o ensino dos próprios filósofos tinha simultaneamente, na maior parte dos casos, um lado “exotérico” e um lado “esotérico”, este último permitindo a ligação a um ponto de vista superior, que se manifesta de maneira muito nítida, embora talvez incompleta em certos aspectos, alguns séculos mais tarde, entre os Alexandrinos. Para que a Filosofia “profana” fosse definitivamente constituída como tal, foi preciso que só o “exoterismo” permanecesse e que se fosse até à negação pura e simples de todo o “esoterismo”; foi precisamente a isso que conduziu, entre os modernos, o movimento começado pelos gregos. As tendências que se tinham afirmado entre estes foram levadas até às suas conseqüências mais extremas, e a importância excessiva que eles tinham atribuído ao pensamento racional acentuou-se ainda, para chegar ao “racionalismo”, atitude especialmente moderna que consiste não apenas em ignorar, mas em negar expressamente tudo o que é de ordem supra-racional. Mas não anteciparei demasiado, porque devo voltar a falar destas conseqüências e a ver o desenvolvimento delas numa ou outra parte da minha exposição.

Como senhores e possuidores da Natureza - Descartes

"Jamais dei muita atenção às coisas que provinham de meu espírito, e, à medida que não colhi outros frutos do método que emprego, exceto que fiquei satisfeito em relação a algumas dificuldades que dizem respeito às ciências especulativas, ou então que tentei pautar meus hábitos pelas razões que ele me ensinava, não me considerei obrigado a nada escrever acerca dele. Pois, no que se refere aos hábitos, cada qual segue de tal maneira sua própria opinião que se poderia encontrar tantos reformadores quantas são as cabeças, se fosse permitido a outros, além dos que Deus estabeleceu como soberanos dos povos, ou então aos que concedeu suficiente graça e diligência para serem profetas, tentar mudá-los em algo; e, apesar de que minhas especulações me agradassem muito, pensei que os outros também tinham as suas que lhes agradariam talvez mais. Porém, apenas adquiri algumas noções gerais concernentes a física, e, começando a comprová-las em várias dificuldades particulares, percebi até onde podiam conduzir e quanto diferem dos princípios que haviam sido utilizados até o presente, considerei que não podia mantê-las escondidas sem transgredir a lei que nos obriga a procurar, no que depende de nós, o bem geral de todos os homens. 

Somos e conhecemos que somos - S. Agostinho

"Somos e conhecemos que somos e amamos este ser e conhecer. Mas nestas três coisas que eu disse nenhuma falsidade semelhante à verdade nos perturba. Pois não as tocamos com nenhum sentido corporal, como aqueles que estão fora, e assim as sentimos vendo suas cores, ouvindo seus sons, cheirando seus odores, provando seus sabores, tocando o duro ou o brando; e manejamos também no pensamento imagens desses objetos sensíveis, muito semelhantes a eles, porém não corpóreas, temo-las na memória e excitam-nos o desejo deles; em lugar disso, é certíssimo para mim, sem nenhuma imaginação enganosa de ilusões ou fantasmagorias, que sou e conheço e amo isto. Não há que temer nestas verdades os argumentos dos acadêmicos, que dizem: E se te enganas? Pois se me engano, sou. Pois aquele que não existe, na verdade, nem enganar-se pode; e por isto existo se me engano. E visto que existo se me engano, como posso enganar-me acerca de que existo, quando é certo que existo se me engano? E, portanto, como eu, o enganado, existiria, embora me enganasse, sem dúvida não me engano ao conhecer que existo."

(S. Agostinho, "A Cidade de Deus")

A ciência moderna procede da idealização

"A ciência moderna procede da idealização, quer dizer da determinação segundo a exatidão matemática, de tudo o que no mundo da vida, a Lebenswelt, permanece irredutivelmente imerso no flou eidético, na indeterminabilidade ao menos relativa mas sempre indefinidamente aberta dos seres e das coisas. Esta idealização que procede de alguma maneira da hipótese do espaço e do tempo como parâmetros imutáveis, passa de pronto pela «geometrização» do mundo natural, para se prolongar na «matematização», em direito integral, da natureza. Tal é, segundo a Krisis, o espírito galileano, ao qual o espírito cartesiano aporta uma espécie de comutador metafísico pela concepção da dualidade do pensamento e da extensão, entendamos, em termos que já não são mais aqueles de Descartes, o dualismo do que é matematizável, logo objetivo, segundo o método matemático da física de inspiração galileana, e do que parece aí escapar, mas sempre sob reserva de investigações científicas mais precisas, sob a forma da alma ou da subjetividade. Assim sendo, é por isto que Husserl denominava por «substrução» o campo idealizado das objetividades matemáticas que tende a se substituir ao mundo natural, quer dizer a esvaziá-lo de seu sentido, este não se encontrando mais senão nas operações lógico-matemáticas e no sujeito operador da ciência, considerado todo poderoso, «mestre e possuidor da natureza». Toda questão do sentido que não será mais regrada pelo método matemático se torna por aí ilegítima, rejeitada na zona flou do não ainda conhecido e do irracional. O dualismo de inspiração cartesiana é tal que a alma ou a subjetividade, espécie de reduto para as questões de senso, se encolhe como uma ameixa."
 
(Marc Richir, "Science et phénoménologie")
 

Penso, logo sou!

"Mais tarde, ao analisar com atenção o que eu era, e vendo que podia presumir que não possuía corpo algum e que não havia mundo algum, ou lugar onde eu existisse, mas que nem por isso podia supor que não existia; e que, ao contrário, pelo fato mesmo de eu pensar em duvidar da verdade das outras coisas, resultava com bastante evidência e certeza que eu existia [...]"
 
(Descartes, Discurso do Método)
 
 
"NÃO ESTOU SEGURO se deva falar-vos a respeito das primeiras meditações que aí realizei; já que por serem tão metafísicas e tão incomuns, é possível que não serão apreciadas por todos. Contudo, para que seja possível julgar se os fundamentos que escolhi são suficientemente firmes, vejo-me, de alguma forma, obrigado a falar-vos delas. Havia bastante tempo observara que, no que concerne aos costumes, é às vezes preciso seguir opiniões, que sabemos serem muito duvidosas, como se não admitissem dúvidas, conforme já foi dito acima; porém, por desejar então dedicar-me apenas a pesquisa da verdade, achei que deveria agir exatamente ao contrário, e rejeitar como totalmente falso tudo aquilo em que pudesse supor a menor dúvida, com o intuito de ver se, depois disso, não restaria algo em meu crédito que fosse completamente incontestável. Ao considerar que os nossos sentidos às vezes nos enganam, quis presumir que não existia nada que fosse tal como eles nos fazem imaginar. E, por existirem homens que se enganam ao raciocinar, mesmo no que se refere às mais simples noções de geometria, e cometem paralogismos, rejeitei como falsas, achando que estava sujeito a me enganar como qualquer outro, todas as razões que eu tomara até então por demonstrações. E, enfim, considerando que quaisquer pensamentos que nos ocorrem quando estamos acordados nos podem também ocorrer enquanto dormimos, sem que exista nenhum, nesse caso, que seja correto, decidi fazer de conta que todas as coisas que até então haviam entrado no meu espírito não eram mais corretas do que as ilusões de meus sonhos. Porém, logo em seguida, percebi que, ao mesmo tempo que eu queria pensar que tudo era falso, faziase necessário que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, ao notar que esta verdade: eu penso, logo existo, era tão sólida e tão correta que as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de lhe causar abalo, julguei que podia considerá-la, sem escrúpulo algum, o primeiro princípio da filosofia que eu procurava.
 
Mais tarde, ao analisar com atenção o que eu era, e vendo que podia presumir que não possuía corpo algum e que não havia mundo algum, ou lugar onde eu existisse, mas que nem por isso podia supor que não existia; e que, ao contrário, pelo fato mesmo de eu pensar em duvidar da verdade das outras coisas, resultava com bastante evidência e certeza que eu existia [...]"
 
Descartes, "Discurso sobre o Método"
 

Algo pensa em mim!

Texto retirado do livro "Beyond Good and Evil" (Nietzsche):
 
"As far as the superstitions of the logicians are concerned: I will not stop emphasizing a tiny little fact that these superstitious men are loath to admit: that a thought comes when “it” wants, and not when “I” want. It is, therefore, a falsification of the facts to say that the subject “I” is the condition of the predicate “think.” It thinks: but to say the “it” is just that famous old “I” – well that is just an assumption or opinion, to put it mildly, and by no means an “immediate certainty.” In fact, there is already too much packed into the “it thinks”: even the “it” contains an interpretation of the process, and does not belong to the process itself. People are following grammatical habits here in drawing conclusions, reasoning that “thinking is an activity, behind every activity something is active, therefore –.” Following the same basic scheme, the older atomism looked behind every “force” that produces effects for that little lump of matter in which the force resides, and out of which the effects are produced, which is to say: the atom. More rigorous minds finally learned how to make do without that bit of “residual earth,” and perhaps one day even logicians will get used to making do without this little “it” (into which the honest old I has disappeared)."

O homem é condenado a ser livre - Sartre

Influenciado, sobretudo, pela filosofia fenomenológica de Husserl, o pensador francês Jean-Paul Sartre destacou-se por suas formulações sobre o "existencialismo". Uma interpretação possível do pensamento de Sartre é reconhecê-lo como continuação de uma corrente que se inicia, de forma sistemática, no dualismo platônico, ao identificar duas dimensões distintas que compõe o "humano" (psykhé e sôma), onde o lógos/Àóyoç (potência da alma cuja sede é na cabeça e preside a vida intelectual) seria responsável pelas deliberações racionais e, portanto, livres dos afetos do corpo ao mundo sensível. Com Descartes, o conceito de livre-arbítrio ganha contornos modernos e o cogito cartesiano fundamenta a distinção entre a res cogitans e a res extensa, ou seja, há algo que duvida e, portanto, capaz de pensar e deliberar. A contribuição de Kant, que segregou as noções de desejo x vontade, é evidente: o corpo deseja, mas a "justa" decisão deve ser obra de uma razão "afiada" e fundadora de um Imperativo Categórico. Neste resumido "trajeto" que desenhamos, Sartre seria o ápice desta concepção, que desde a Grécia Antiga, nega a causalidade da existência humana e se consagra na famosa expressão: "a existência precede a essência".

“Só pelo fato de que tenho consciência dos motivos que solicitam minha ação, esses motivos já são objetos transcendentes para minha consciência, estão fora; em vão buscaria agarrar-me a eles, escapo disso por minha existência mesma. Estou condenado a existir para sempre além de minha essência, além dos móveis e dos motivos de meu ato: estou condenado a ser livre. Isso significa que não se poderia encontrar para a minha liberdade outros limites senão ela mesma, ou, se prefere, não somos livres de cessar de ser livres. (...) O sentido profundo do determinismo é o de estabelecer em nós uma continuidade sem falha da existência em si. (...) Mas em vez de ver transcendências postas e mantidas no seu ser por minha própria transcendência, supor-se-á que as encontro surgindo no mundo: elas vêm de Deus, da natureza, da ‘minha’ natureza, da sociedade. (...) Essas tentativas abortadas para sufocar a liberdade sob o peso do ser – elas desmoronam quando surge, de repente, a angústia diante da liberdade – mostram bastante que a liberdade coincide no fundo com o nada que está no coração do homem.”

Sartre, L'Êtr et le néant (O ser e o nada), Quarta parte, cap I, Gallimard, pp.515-516

Sartre e a certeza de si

Nesta apresentação da filosofia de Sartre, o Prof. Luiz Damon Moutinho (UFPR - Universidade Federal do Paraná) faz uma belíssima e esclarecedora reflexão sobre a relação do existencialismo sartriano e o cogito de Descartes.

"Sartre foi um leitor apaixonado de Husserl, o filósofo alemão criador da Fenomenologia, e de Heidegger, aluno de Husserl que, como é de hábito na História da Filosofia, cometera o parricídio e levara a Fenomenologia a uma direção que Sartre vai assimilar em larga medida: na direção de uma analítica da existência, trazendo para a Filosofia um conjunto de questões que vão muito além daquela que mais interessava a Husserl e à tradição, a questão do conhecimento. A analítica do existente humano vai se tornar para Sartre a tarefa mais elevada da Filosofia. Mas de um modo muito peculiar, segundo um método inédito, que é propriamente o que vai torná-la Filosofia e distingui-la de tantas outras abordagens, como a da psicologia, da psicanálise, da sociologia, da antropologia, da fisiologia, da anatomia, da medicina etc.

Pode-se dizer que o núcleo dessa especificidade da Filosofia consiste em partir do homem não como “animal racional”, não como “bípede falante e implume” etc, mas como ser-no-mundo. Esse ponto de partida é filosófico, não científico. Onde está a diferença? É que não se parte aqui de uma definição do que é o homem (se se preferir, não se busca definir o que é o homem). Essa estratégia tem uma pré-condição que a Filosofia rejeita: ela objetiva o homem, ela o torna objeto. Uma vez tornado objeto, o homem se torna um suporte de predicados, e posso dizer então que ele é racional, bípede, falante e uma infinidade de outros predicados. A Filosofia, por sua vez, deve tomar o homem como sujeito. Pode-se tornar isso mais claro pelo exemplo da atividade visual ou tátil: posso ver meus olhos no espelho, posso mesmo imaginar um mecanismo (como câmeras de televisão) que os flagre, às escondidas, em atividade, mas, nesses casos, meus olhos serão para mim objetos, eu não os verei enquanto eles veem, eu não coincidirei com eles enquanto são essa atividade que desvela o mundo, durante a atividade de olhar, isto é, enquanto eles forem sujeitos de visão. Como evitar a objetivação, como apreender-me enquanto sujeito?

 

Descartes e o cogito

Nesta passagem, o filósofo francês René Descartes (1596-1650), propõe o "cogito" ao percorrer o caminho cético e "destrinchar" o princípio epistemológico fundamental sobre o qual todo o conhecimento é construído.

"I suppose, accordingly, that all the things which I see are false; fictitious. I believe that none of those objects which my fallacious memory represents ever existed; I suppose that I possess no senses; I believe that body, figure, extension, motion, and place are merely fictions of my mind. What is there, then, that can be esteemed true? Perhaps this only, that there is absolutely nothing certain. But how do I know that there is not something different altogether from the objects I have now enumerated, of which it is impossible to entertain the slightest doubt? Is there not a God, or some being, by whatever name I may designate Him, who causes these thoughts to arise in my mind? But why suppose such a Being, for it may be I myself am capable of producing them? Am I, then, at least not something? But I before denied that I possessed senses or a body; I hesitate, however, for what follows from that? Am I so dependent on the body and the senses that without these I cannot exist? But I had the persuasion that there was absolutely nothing in the world, that there was no sky and no earth, neither minds nor bodies; was I not, therefore, at the same time, persuaded that I did not exist? Far from it; I assuredly existed, since I was persuaded. But there is I know not what being, who is possessed at once of the highest power and the deepest cunning, who is constantly employing all his ingenuity in deceiving me. Doubtless, then, I exist, since I am deceived; and, let him deceive me as he may, he can never bring it about that I am nothing, so long as I shall be conscious that I am something. So that it must, in fine, be maintained, all things being maturely and carefully considered, that this proposition: I am, I exist; is necessarily true each time it is expressed by me, or conceived in my mind."

Descartes, "Meditations On First Philosophy"