Platão

Platão - os diálogos são mera propaganda de um modo de vida

"Up to now, we have spoken solely of oral dialogue as it must have been practiced within the Academy. We can only imagine what this dialogue must have been like, by means of the examples we find in Plato's written work; and in order to simplify things, we have often quoted them using the phrase "as Plato says." Yet this expression is quite inexact, for Plato, in his written works, never says anything in his own voice. Whereas Xenophanes, Parmenides, Empedocles, the Sophists, and Xenophon had not hesitated to write in the first person, Plato makes fictional characters speak within fictional situations. Only in the Seventh Letter does he allude to his philosophy, and when he does he describes it more as a way of life. Above all, he declares that with regard to the object of his concerns, he has not published any written work, nor will he ever do so, for the knowledge in question cannot under any circumstances be formulated like other bodies of knowledge. Instead, it springs forth within the soul, when one has long been familiar with the activity in which it consists and has devoted one's life to it.
 
We might wonder why Plato wrote dialogues, for, in his view, spoken philosophical discourse is far superior to that which is written. In oral discourse, there is the concrete presence of a living being. There is genuine dialogue, which links two souls together, and an exchange in which, as Plato says, discourse can respond to the questions asked of it and defend itself. Thus, dialogue is personalized: it is addressed to a specific person, and corresponds to his needs and possibilities. Just as, in agriculture, it takes time for a seed to germinate and develop, many conversations are necessary for knowledge to be born in the soul-knowledge which, as we have seen, will be identical to virtue. Dialogue does not transmit ready-made knowledge or information; rather, the interlocutor conquers his knowledge by his own effort. He discovers it by him-self, and thinks for himself. Written discourse, by contrast, cannot respond to questions. It is impersonal, and claims immediately to give a knowledge which is ready-made, but lacks the ethical dimension represented by voluntary assent. There is no real knowledge outside the living dialogue.

A morte de Sócrates - Fédon

Nas palavras de Carlos Alberto Nunes, em sua excelente tradução bilíngue do diálogo de Fédon: "Nessas poucas palavras se resume toda a doutrinação filosófica de Sócrates-Platão, dirigida primeiramente aos atenienses, porém logo depois projetada no âmbito da incipiente cultura da Europa: mostrar aos homens o que importa fazer, na vida como na morte, para que sejam homens." SER-humano! Platão, no seu livro Fédon, assim narrou a morte de seu mestre:
 
"Depois de assim falar, levou a taça aos lábios e com toda a naturalidade, sem vacilar um nada, bebeu até à última gota. Até esse momento, quase todos tínhamos conseguido reter as lágrimas; porém quando o vimos beber, e que havia bebido tudo, ninguém mais aguentou. Eu também não me contive: chorei à lágrima viva. Cobrindo a cabeça, lastimei o meu infortúnio; sim, não era por desgraça que eu chorava, mas a minha própria sorte, por ver de que espécie de amigo me veria privado. Critão levantou-se antes de mim, por não poder reter as lágrimas. Apolodoro, que desde o começo não havia parado de chorar, pôs se a urrar, comovendo seu pranto e lamentações até o íntimo todos os presentes, com exceção do próprio Sócrates.
 
- Que é isso, gente incompreensível? Perguntou. Mandei sair as mulheres, para evitar esses exageros. Sempre soube que só se deve morrer com palavras de bom agouro. Acalmai-vos! Sede homens!
 
Ouvindo-o falar dessa maneira, sentimo-nos envergonhados e paramos de chorar. E ele, sem deixar de andar, ao sentir as pernas pesadas, deitou-se de costas, como recomendara o homem do veneno. Este, a intervalos, apalpava-lhe os pés e as pernas. Depois, apertando com mais força os pés, perguntou se sentia alguma coisa. Respondeu que não. De seguida, sem deixar de comprimir-lhe a perna, do artelho para cima, mostrou-nos que começava a ficar frio e a enrijecer. Apalpando-o mais uma vez, declarou-nos que no momento em que aquilo chegasse ao coração, ele partiria. Já se lhe tinha esfriado quase todo o baixo-ventre, quando, descobrindo o rosto – pois o havia tapado antes – disse, e foram suas últimas palavras:
 
- Critão (exclamou ele), devemos um galo a Asclépio. Não te esqueças de saldar essa dívida!
"Assim farei!", respondeu Critão. Vê se queres dizer mais alguma coisa. A essa pergunta, já não respondeu. Decorrido mais algum tempo, deu um estremeção. O homem o descobriu; tinha o olhar parado. Percebendo isso, Critão fechou-lhe os olhos e a boca.
 
Tal foi o fim do nosso amigo, Equécrates, do homem, podemos afirmá-lo, que entre todos os que nos foi dado conhecer, era o melhor e também o mais sábio e mais justo."
 
Platão, "Fédon" (117c-118a)
 
 

A contribuição do pensamento grego para a formação moral

Texto de João Cardoso de Castro
 
Muito pode se falar sobre o certo e o errado, e em nosso dia-a-dia julgamos, consciente ou inconscientemente, pessoas a nossa volta, seus hábitos e comportamentos. Quando se trata de filosofia, por sua vez, questiona-se como deveríamos viver, quais os comportamentos ideais e se existe uma disciplina filosófica que poderíamos chamá-la de prática, esta seria, sem dúvida, a Ética. Toda reflexão que pretende identificar a melhor forma de viver e conviver se articula, necessariamente, com o estudo da moral. 
 
É lugar comum a ideia de que a crise ética que vivemos nos dias de hoje tem sua origem na perda de valores e normas que, de alguma forma, vem à tona no período moderno, com o surgimento de sociedades complexas, com uma pluralidade de crenças, ideologias e comportamentos. O advento da Reforma, por exemplo, (e das inúmeras correntes protestantes oriundas deste processo) cria uma cisão no Cristianismo, que fundamentava-se como principal referência ética desde a Antiguidade. Outros sugerem que esta crise "espiritual", sem precedentes, que atinge a civilização ocidental seja fruto da irrefreável produção de bens materiais e simbólicos que, amarrados a uma visão liberal, é capaz de fazer “brotar” em nós uma ambição quase capilar por toda esta parafernália produzida.

Platão - o uno e o múltiplo

"Assim, nesta primeira acepção, não existe verdadeira dualidade na separação platônica, uma vez que só a ideia é, realmente, o ser; o que existe é uma dualidade de «visadas», uma real, porque vê, e outra aparente, porque só vê a aparência, ou, o que é o mesmo, porque só na aparência vê."
 
António Pedro Mesquita
 
 
"Ora, o ponto de vista platônico tem um nome e pode ser designado: uno e múltiplo. A perspectiva própria do pensamento platônico é, pois, a da relação, ou melhor, de uma certa relação, entre unidade e multiplicidade, que a lógica que tradicionalmente sobre ela incide, de matriz aristotélica, não pode apreender sem imediatamente alterar. É certo que também a perspectiva de toda a tradição filosófica e de algum modo o eixo fundamental da lógica que a serve pode ser caracterizada como uma perspectiva de uno e múltiplo - pelo que se diria não ser deste modo que se afirma a diferença do filosofar platônico. E, como é igualmente certo que é outrossim uma perspectiva de uno e múltiplo a que, com justiça, semelhante tradição tem, desde Aristóteles, encontrado na base do pensamento platônico, dir-se-ia neste ponto que não é decerto também por aqui que se pode afirmar a diferença de qualquer interpretação que repita esse encontro, enquanto justamente o repete. 
 
O problema é, todavia, o de que essa perspectiva de uno e múltiplo não é a mesma nos dois casos - ou, de outro modo, que a lógica do pensamento platônico nunca é uma lógica aristotélica antecipada. E nesta medida, para circunscrever o proprium do filosofar platônico, não basta apontar o uno e o múltiplo como sua perspectiva reitora: é preciso perspectivá-la platonicamente, de tal modo que o próprio ponto de vista platônico seja visto platonicamente e a própria questão do uno e do múltiplo preliminarmente circunscrita no específico sentido que lhe atribui Platão.

Platão e a desvirtuação de sua filosofia

Danielle Montet, pesquisadora e professora de filosofia em Toulouse, especialista em platonismo e neoplatonismo, fez um estudo magistral sobre os termos-chaves em Platão, "Les traits de l'être", tendo como pano de fundo sua compreensão do pensamento de Heidegger. Parte de sua reflexão é justamente a desvirtuação dos intérpretes de Platão que, em sua análise, não foram capazes de combinar filologia com dialética (arte essencial na exposição de Platão) na interpretação de termos relevantes para alcançar a devida compreensão de Platão. Os termos ousia, eidos e idea, geralmente traduzidos, de forma pobre, por essência, forma e ideia, são compreendidos apenas como acepções encerradas nos próprios termos, e não noções significadas também pela dialética platônica e, por isso, acabam reduzidos a uma interpretação equivocada, que dá lugar à dualidade que comumente se atribui ao pensamento platônico, afirmando a existência de dois mundos (mundo inteligível e mundo sensível).
 
A tradição filosófica assimila Platão, na leitura, no comentário e no uso que faz de sua obra, ao instituidor de termos cuja evidência marcou toda a história da filosofia. Seria possível escrever filosoficamente fora dos termos platônicos que a tradição filosófica retoma ou critica? Para sempre a ousia vem confundir a distinção serena da essência e da existência, o eidos assombrar a eidética, a idea legitimar todos os idealismos; tantos termos que se formaram em conceitos que incontestavelmente testificam por sua fortuna a vã nomotética de Platão. Todavia, a disponibilidade dos termos platônicos, a familiaridade que toleram, ocultam a segunda figura em operação no Crátilo, aquela do dialético, sem o qual a produção nomotética perde toda significação. Herdeira do léxico, dos instrumentos, a tradição o foi. Mas que fez ela do dialético? Este, reconhecido como o praticante da “ciência mais elevada”, viveu dias gloriosos e pôs a pedra angular do edifício do platonismo. Mas secundarizando seu papel, esquece-se a lição do Crátilo, segundo a qual só aquele que sabe usar a palavra-instrumento na arte da dialética pode dar conta da palavra ela mesma, arrancá-la da erosão da usura. O texto platônico, tecido tramado segundo uma nomotética e uma dialética, não sai indene de uma leitura que pretenda desjuntá-las e se esquiva a toda apreensão que tente fazer qualquer economia desta articulação.
 
Danielle Montet (1990), Les traits de l'être. Essai sur l'ontologie platonicienne. Jérôme Millon, Paris (pg 5)
 

Nietzsche e o fim da Metafísica - Oswaldo Giacóia

"A partir de muita convivência com o mesmo tema e de uma vida dedicada a isso, subitamente, como a luz nascida do fogo, brota na alma a verdade, para então crescer sozinha."
 
Platão, "Carta VII"
 
 
"Para Nietzsche, pode-se tomar a filosofia de Platão como modelo da metafísica. Esta se fundamenta numa concepção dualista do universo, estabelecendo uma oposição de valores entre duas esferas distintas da realidade ou do ser: de um lado, existe um domínio ideal, considerado como o verdadeiro mundo ou a realidade verdadeira, assim denominado por ser o plano das essências, isto é, aquilo que, em todo e qualquer fenômeno constitui sua pura forma ou conceito. Assim, por exemplo, a humanidade constitui a essência de cada ser humano particular, ou a triangularidade determina a natureza de toda e qualquer figura triangular que vemos ou traçamos. Todos os indivíduos humanos concretos são limitados e finitos, mas a humanidade é uma entidade intelectual, que em nada se altera em virtude da sucessão dos indivíduos singulares.
 
Tais formas puras, denominadas tecnicamente idéias por Platão, teriam sua origem na idéia do Bem — ou de Deus — que é a causa produtora de todas as outras idéias que são as formas gerais do universo.Tais entidades são inacessíveis a nossos órgãos dos sentidos; e imutáveis, uma vez que não estão submetidas às leis do espaço e do tempo. Por serem as responsáveis pela realidade de todo real, foram tradicionalmente denominadas realidade inteligível, em contraposição a uma segunda ordem de realidade, a realidade aparente ou sensível, que é aquela de que temos experiência ordinária. Contraposto às essências inteligíveis, o mundo sensível é tradicionalmente considerado um plano de realidade deficitária, enganosa, mera aparência ou simulacro das formas puras, que são como originais ou modelos dos quais toda realidade empírica, sensível, constitui uma cópia, necessariamente imperfeita e corruptível. E a essa realidade degradada, sujeita às condições do espaço e do tempo, que pertence nossa existência terrena e corporal.

Só sei que nada sei: a frase que Sócrates nunca disse...

No mês de fevereiro do ano de 399, Sócrates morria, condenado por seus concidadãos a tomar cicuta (veneno) aos 71 anos de idade. Diante do tribunal, foi acusado por Meleto (poeta), Anitos (político) e Lição (personagem de pouca expressão), por desvirtuar a juventude de sua época. Não podemos conhecer Sócrates diretamente, pois nada escreveu, mas através de seus discípulos, Platão e Xenofonte, ou uma sátira de sua filosofia, com Aristófanes. De forma muito reduzida, podemos dizer que tudo nele consistia em pôr os homens à prova, sobretudo de seus conceitos e verdades. No trecho abaixo, Sócrates faz sua defesa pública e é exatamente nesta passagem que atribui-se ao ateniense a frase: "só sei que nada sei", sua expressão mais famosa, no entanto, jamais dita. Se Sócrates nunca utilizou tal sentença, o que de fato ele disse? Leiamos com atenção:

"Qual vem a ser a ciência? A que é, talvez, a ciência humana. É provável que eu a possua realmente, os mestres mencionados há pouco possuem, quiçá, uma sobre-humana, ou não sei que diga, porque essa eu não aprendi, e quem disser o contrário me estará caluniando. Por favor, Atenienses, não vos amotineis, mesmo que eu vos pareça dizer uma enormidade; a alegação que vou apresentar nem é minha; citarei o autor, que considerais idôneo. Para testemunhar a minha ciência, se é uma ciência, e qual é ela, vos trarei o deus de Delfos. Conhecestes Querefonte, decerto. Era meu amigo de infância e na também amigo do partido do povo e seu companheiro naquele exílio de que voltou conosco. Sabeis o temperamento de Querefonte, quão tenaz nos seus empreendimentos. Ora, certa vez, indo a Delfos, arriscou esta consulta ao oráculo — repito, senhores; não vos amotineis — ele perguntou se havia alguém mais sábio que eu; respondeu a Pítia que não havia ninguém mais sábio. Para testemunhar isso, tendes aí o irmão dele, porque ele já morreu.

A retórica não é arte - Platão

Em debate com o mestre da retórica, Górgias, Sócrates afirma o que pensa de sua "arte", a começar por não vê-la como uma arte, mas como uma "atividade", ou como nesta tradução, uma "prática", uma "rotina" (Górgias 462e-465d):
 
"Sócrates — Contanto que não seja falta de educação dizer a verdade! Vacilo em declará-lo só por causa de Górgias, para que ele não pense que estou zombando de sua profissão. Se a retórica praticada por Górgias é realmente desse tipo, não saberei dizê-lo, pois em nossa recente conversação não ficou bem clara a sua maneira de pensar. O que denomino retórica é apenas uma parte de certa coisa que está longe de ser bela.
 
Górgias — Que coisa, Sócrates? Fala sem receio de melindrar-me.
 
Sócrates — O que me parece, Górgias, é que se trata de uma prática que nada tem de arte, e que só exige um espírito sagaz e corajoso e com a disposição natural de saber lidar com os homens. Em conjunto, dou-lhe o nome de adulação. A meu ver, essa prática compreende várias modalidades, uma das quais é a culinária, que passa, realmente, por ser arte, mas que eu não considero tal, pois nada mais é do que empirismo e rotina. Como partes da mesma, incluo também a retórica, o gosto da indumentária e a sofística: quatro partes com quatro campos diferentes de atividade. No caso de Polo querer, agora, interrogar-me, pode fazê-lo, pois ainda não ficou sabendo que parte da adulação em julgo ser a retórica; sem ter percebido que eu não lhe havia ainda respondido, passou a perguntar se não a considerava bela. Porém não lhe direi se acho bela ou feia a retórica antes de lhe haver respondido o que ela seja. Não ficaria bem, Polo. Caso queiras, pergunta-me agora que parte da adulação eu digo que é a retórica. [...]

A democracia como degeneração política - Platão

A palavra "democracia" não se impôs senão muito dificilmente e muito recentemente. Certamente, durante a antiguidade grega, a palavra se tornou corrente e importante mas desapareceu em seguida. Não ressurgiu senão no curso do século XX e se fez objeto de um consenso universal somente depois de 1945. A formação da palavra "demokratia" é original. Frequentemente, os gregos designavam um regime político em especificando o número daqueles que exerciam o poder. Assim, criaram a palavra "monarquia" que significa um só (mon) à cabeça (arche). Do mesmo modo, a "oligarquia" significa alguns (olig) à cabeça (arche). Logicamente, se os gregos quisessem evocar a ideia de que todos governam, ou "o povo exerce o poder", teriam falado de "demarquia". Não foi, no entanto, a palavra que escolheram e isso não poderia ser um acidente.

É preciso portanto se questionar sobre as razões desta associação original entre povo (demos) e poder (kratein). De pronto, a democracia não é o equivalente da "demarquia" o que significa que, na democracia, o povo não é necessariamente governante. Em outros termos, a democracia, não é o governo do povo posto que ele não está à cabeça. Por conseguinte, os críticos da democracia, entre os quais a escola de Platão, sublinharam constantemente a ausência real de governante neste regime. Para eles, a democracia deixa planar uma incerteza sobre "quem governa"; ela não designa ninguém claramente como sendo o governante (à cabeça); ela é portanto denunciada como um regime que não tem cabeça, ordem, quer dizer como uma anarquia. Em seguida, se a democracia não é poder do povo, ela pode em revanche designar o poder pelo povo e mesmo o poder para o povo. Em outros termos, o povo é a noção ou a instância que pode legitimar a ação do poder. Dois casos de figura se apresentam a nós: a ação do poder é legítima porque ela visa o interesse de todos, quer dizer o interesse coletivo da cidade; aqui, o povo é a finalidade ou; a ação do poder é legítima porque o povo participa sob uma forma ou outra no processo de decisão. Em resumo, o povo é a condição do poder ou a finalidade, mas em nenhum dos casos, o poder propriamente dito.

Platão - a vida moral

"O que é a vida moral? É procura da Virtude mas devendo-se observar que, para Platão como para os Antigos, esta palavra tem ressonâncias diferentes daquelas que lhe conhecemos atualmente. A «Virtude», a arete, é ao mesmo tempo a excelência, a perfeição, mas também, areskei o que agrada, o que se aparenta, portanto, com o agradável e o útil.

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