esquecimento do ser

Safranski: o duplo esquecimento do ser

"A obra [Ser e Tempo], de muita eficácia na sua dramaturgia, começa com uma espécie de prólogo no céu. Aparece Platão. Cita-se um trecho do diálogo Sofistas: "Pois obviamente há muito estais familiarizados com o que na verdade eu quis dizer usando a expressão ente (seiend): nós pensávamos um dia tê-la compreendido, agora porém estamos embaraçados".
 
Esse embaraço, diz Heidegger, ainda existe, mas não o admitimos a nós mesmos. Ainda não sabemos o que pensamos ao dizer que algo é ente. O prólogo queixa-se contra um duplo esquecimento do ser. Esquecemos o que é ser e também esquecemos esse esquecer. E assim trata-se de renovar a indagação pelo sentido do ser; mas como esquecemos o esquecer, trata-se sobretudo de despertar de novo a compreensão para o sentido dessa pergunta.
 
Como convém a um prólogo, já no início alude-se ao ponto para onde tudo isso converge: a interpretação do tempo como o horizonte possível de qualquer compreensão do ser. O sentido do ser é tempo. Está revelado o tema, mas para torná-lo compreensível Heidegger não precisará apenas de todo esse livro, e sim do resto de sua vida.
 
A questão do ser. Na verdade Heidegger propõe duas perguntas. Uma é: o que entendemos de verdade quando utilizamos a palavra ente? Pergunta-se pelo sentido da expressão. Nessa pergunta Heidegger liga outra bem diferente, pelo sentido do próprio ser. Heidegger afirma, quanto à pergunta em seu duplo sentido, que não existe nem mesmo uma compreensão do sentido da pergunta. Estranha afirmação.

A ciência - Heidegger

Excelente colocação sobre a profunda distinção do que se denomina "ciência" hoje em dia, daquilo que se poderia conjecturar como "ciência" na antiguidade grega e na Idade Média.
 
"Na atualidade, quando empregamos a palavra “ciência”, esta significa algo tão essencialmente diferente da doutrina e da scientia da Idade Média como da episteme grega. A ciência grega nunca foi exata, porque segundo a sua essência era impossível que ela o fosse e tampouco necessitava sê-lo. Por isso, carece completamente de sentido dizer que a ciência moderna é mais exata que a da Antigüidade. Do mesmo modo, tampouco se pode dizer que a teoria de Galileu sobre a queda livre dos corpos seja verdadeira e que a de Aristóteles, que diz que os corpos leves tendem a elevar-se, seja falsa, porque a concepção grega da essência dos corpos, do lugar, bem como da relação entre ambos, se baseia em uma interpretação diferente do ente e, em conseqüência, determina outro modo distinto de ver e questionar os fenômenos naturais. Ninguém pretenderia afirmar que a literatura de Shakespeare é um progresso com respeito à de Ésquilo, resulta, porém, que ainda é maior a impossibilidade de afirmar que a concepção moderna do ente é mais correta que a grega. Por isso, se quisermos chegar a captar a essência da ciência moderna devemos começar por nos livrarmos do costume de distinguir a ciência moderna face à antiga unicamente por uma questão de grau desde a perspectiva do progresso.