epistéme

A ciência - Heidegger

Excelente colocação sobre a profunda distinção do que se denomina "ciência" hoje em dia, daquilo que se poderia conjecturar como "ciência" na antiguidade grega e na Idade Média.
 
"Na atualidade, quando empregamos a palavra “ciência”, esta significa algo tão essencialmente diferente da doutrina e da scientia da Idade Média como da episteme grega. A ciência grega nunca foi exata, porque segundo a sua essência era impossível que ela o fosse e tampouco necessitava sê-lo. Por isso, carece completamente de sentido dizer que a ciência moderna é mais exata que a da Antigüidade. Do mesmo modo, tampouco se pode dizer que a teoria de Galileu sobre a queda livre dos corpos seja verdadeira e que a de Aristóteles, que diz que os corpos leves tendem a elevar-se, seja falsa, porque a concepção grega da essência dos corpos, do lugar, bem como da relação entre ambos, se baseia em uma interpretação diferente do ente e, em conseqüência, determina outro modo distinto de ver e questionar os fenômenos naturais. Ninguém pretenderia afirmar que a literatura de Shakespeare é um progresso com respeito à de Ésquilo, resulta, porém, que ainda é maior a impossibilidade de afirmar que a concepção moderna do ente é mais correta que a grega. Por isso, se quisermos chegar a captar a essência da ciência moderna devemos começar por nos livrarmos do costume de distinguir a ciência moderna face à antiga unicamente por uma questão de grau desde a perspectiva do progresso.

A história das verdades - Foucault

"Ao considerar a questão da história e da filosofia da ciência do ponto de vista de Foucault, é preciso, primeiramente, levar em consideração que seu interesse não diz respeito à ciência propriamente, mas ao saber; não à sua racionalidade imanente, mas às condições externas de possibilidade de sua existência. 
 
É importante notar que, quando nos referimos a saber, estamos compreendendo que se trata de uma categoria metodológica, um recurso instrumental, que significa o nível do discurso e das formulações teóricas, próprios do saber científico ou com pretensão à cientificidade. Mesmo quando não legitimado como ciência, o saber possui uma positividade e obedece a regras de apareci- mento, organização e transformação que podemos descrever.
 
As pesquisas de Foucault se inserem em uma linha da história da verdade determinada pelo espaço teórico, político e institucional dos campos onde se situam os saberes, sem se restringir à ciência.