René Guenon

O racionalismo como filosofia profana - René Guenon

"Mais tarde, ao analisar com atenção o que eu era, e vendo que podia presumir que não possuía corpo algum e que não havia mundo algum, ou lugar onde eu existisse, mas que nem por isso podia supor que não existia; e que, ao contrário, pelo fato mesmo de eu pensar em duvidar da verdade das outras coisas, resultava com bastante evidência e certeza que eu existia [...]"
 
Descartes, "Discurso sobre o Método"
 
 
"A palavra “filosofia”, em si mesma, pode seguramente ser tomada num sentido muito legítimo, que foi sem dúvida o seu sentido primitivo, sobretudo se é verdade, como se pretende, que foi Pitágoras o primeiro a utilizá-la. Etimologicamente, significa “amor à sabedoria”; designa portanto, primeiramente, uma disposição prévia requerida para alcançar a sabedoria, e pode designar também, por uma natural extensão, a procura que, nascendo dessa disposição, deve conduzir ao conhecimento. É então apenas um estágio preliminar e preparatório, um caminhar para a sabedoria, um grau correspondente a um estado inferior a esta. O desvio que se produziu depois consistiu em tomar este grau transitório pelo próprio fim, em pretender substituir a sabedoria pela “filosofia”, o que implica o esquecimento ou o desconhecimento da verdadeira natureza desta última.
 
Foi assim que nasceu o que nós podemos chamar de Filosofia “profana”, ou seja, uma pretensa sabedoria puramente humana, portanto de ordem simplesmente racional, tomando o lugar da verdadeira sabedoria tradicional, supra-racional e “não humana”. No entanto, subsistiu ainda alguma coisa desta através de toda a Antiguidade; o que o prova é primeiramente a persistência dos “mistérios”, cujo caráter essencialmente “iniciático” não pode ser contestado, e também o fato de que o ensino dos próprios filósofos tinha simultaneamente, na maior parte dos casos, um lado “exotérico” e um lado “esotérico”, este último permitindo a ligação a um ponto de vista superior, que se manifesta de maneira muito nítida, embora talvez incompleta em certos aspectos, alguns séculos mais tarde, entre os Alexandrinos. Para que a Filosofia “profana” fosse definitivamente constituída como tal, foi preciso que só o “exoterismo” permanecesse e que se fosse até à negação pura e simples de todo o “esoterismo”; foi precisamente a isso que conduziu, entre os modernos, o movimento começado pelos gregos. As tendências que se tinham afirmado entre estes foram levadas até às suas conseqüências mais extremas, e a importância excessiva que eles tinham atribuído ao pensamento racional acentuou-se ainda, para chegar ao “racionalismo”, atitude especialmente moderna que consiste não apenas em ignorar, mas em negar expressamente tudo o que é de ordem supra-racional. Mas não anteciparei demasiado, porque devo voltar a falar destas conseqüências e a ver o desenvolvimento delas numa ou outra parte da minha exposição.