dualidade

Platão - o uno e o múltiplo

"Assim, nesta primeira acepção, não existe verdadeira dualidade na separação platônica, uma vez que só a ideia é, realmente, o ser; o que existe é uma dualidade de «visadas», uma real, porque vê, e outra aparente, porque só vê a aparência, ou, o que é o mesmo, porque só na aparência vê."
 
António Pedro Mesquita
 
 
"Ora, o ponto de vista platônico tem um nome e pode ser designado: uno e múltiplo. A perspectiva própria do pensamento platônico é, pois, a da relação, ou melhor, de uma certa relação, entre unidade e multiplicidade, que a lógica que tradicionalmente sobre ela incide, de matriz aristotélica, não pode apreender sem imediatamente alterar. É certo que também a perspectiva de toda a tradição filosófica e de algum modo o eixo fundamental da lógica que a serve pode ser caracterizada como uma perspectiva de uno e múltiplo - pelo que se diria não ser deste modo que se afirma a diferença do filosofar platônico. E, como é igualmente certo que é outrossim uma perspectiva de uno e múltiplo a que, com justiça, semelhante tradição tem, desde Aristóteles, encontrado na base do pensamento platônico, dir-se-ia neste ponto que não é decerto também por aqui que se pode afirmar a diferença de qualquer interpretação que repita esse encontro, enquanto justamente o repete. 
 
O problema é, todavia, o de que essa perspectiva de uno e múltiplo não é a mesma nos dois casos - ou, de outro modo, que a lógica do pensamento platônico nunca é uma lógica aristotélica antecipada. E nesta medida, para circunscrever o proprium do filosofar platônico, não basta apontar o uno e o múltiplo como sua perspectiva reitora: é preciso perspectivá-la platonicamente, de tal modo que o próprio ponto de vista platônico seja visto platonicamente e a própria questão do uno e do múltiplo preliminarmente circunscrita no específico sentido que lhe atribui Platão.

Platão e a desvirtuação de sua filosofia

Danielle Montet, pesquisadora e professora de filosofia em Toulouse, especialista em platonismo e neoplatonismo, fez um estudo magistral sobre os termos-chaves em Platão, "Les traits de l'être", tendo como pano de fundo sua compreensão do pensamento de Heidegger. Parte de sua reflexão é justamente a desvirtuação dos intérpretes de Platão que, em sua análise, não foram capazes de combinar filologia com dialética (arte essencial na exposição de Platão) na interpretação de termos relevantes para alcançar a devida compreensão de Platão. Os termos ousia, eidos e idea, geralmente traduzidos, de forma pobre, por essência, forma e ideia, são compreendidos apenas como acepções encerradas nos próprios termos, e não noções significadas também pela dialética platônica e, por isso, acabam reduzidos a uma interpretação equivocada, que dá lugar à dualidade que comumente se atribui ao pensamento platônico, afirmando a existência de dois mundos (mundo inteligível e mundo sensível).
 
A tradição filosófica assimila Platão, na leitura, no comentário e no uso que faz de sua obra, ao instituidor de termos cuja evidência marcou toda a história da filosofia. Seria possível escrever filosoficamente fora dos termos platônicos que a tradição filosófica retoma ou critica? Para sempre a ousia vem confundir a distinção serena da essência e da existência, o eidos assombrar a eidética, a idea legitimar todos os idealismos; tantos termos que se formaram em conceitos que incontestavelmente testificam por sua fortuna a vã nomotética de Platão. Todavia, a disponibilidade dos termos platônicos, a familiaridade que toleram, ocultam a segunda figura em operação no Crátilo, aquela do dialético, sem o qual a produção nomotética perde toda significação. Herdeira do léxico, dos instrumentos, a tradição o foi. Mas que fez ela do dialético? Este, reconhecido como o praticante da “ciência mais elevada”, viveu dias gloriosos e pôs a pedra angular do edifício do platonismo. Mas secundarizando seu papel, esquece-se a lição do Crátilo, segundo a qual só aquele que sabe usar a palavra-instrumento na arte da dialética pode dar conta da palavra ela mesma, arrancá-la da erosão da usura. O texto platônico, tecido tramado segundo uma nomotética e uma dialética, não sai indene de uma leitura que pretenda desjuntá-las e se esquiva a toda apreensão que tente fazer qualquer economia desta articulação.
 
Danielle Montet (1990), Les traits de l'être. Essai sur l'ontologie platonicienne. Jérôme Millon, Paris (pg 5)