mito

O nascimento da Filosofia: o milagre grego

"O pensamento racional tem um registro civil: conhece-se a sua data e o seu lugar de nascimento. Foi no século VI antes da nossa era, nas cidades gregas da Ásia Menor, que surgiu uma forma de reflexão nova, inteiramente positiva, sobre a natureza. Burnet exprime a opinião corrente quando observa a este propósito: "Os filósofos jônios abriram o caminho que a ciência não fez depois senão seguir". O nascimento da filosofia, na Grécia, marcaria assim o começo do pensamento científico, — poder-se-ia dizer simplesmente: do pensamento. Na Escola de Mileto, o logos ter-se-ia pela primeira vez libertado do mito como as escaras caem dos olhos do cego. Mais do que uma mudança de atitude intelectual, do que uma mutação mental, tratar-se-ia de uma revelação decisiva e definitiva: a descoberta do espírito. Seria por isso vão procurar no passado as origens do pensamento racional. O pensamento verdadeiro não poderia ter outra origem senão ele próprio. É exterior à história, que só pode, no desenvolvimento do espírito, dar a razão de obstáculos, de erros e de ilusões sucessivas. Tal é o sentido do "milagre" grego: através da filosofia dos jônios, reconhece-se a Razão intemporal encarnada no tempo. O aparecimento do logos introduziria portanto na história uma descontinuidade radical. Viajante sem bagagem, a filosofia viria ao mundo sem passado, sem pais, sem família; seria um começo absoluto.

Do mito à Filosofia - Rodrigo Siqueira-Batista

"Mas, então, como germinou, no húmus mito-poético, a filosofia? Um bom ponto de partida seria a constatação de que, em um momento bastante anterior ao surgimento do pensamento filosófico, torna-se identificável um mito já secularizado, o que gerou diferentes conseqüências como apontado por M. Eliade:
 
Em nenhuma outra parte vemos, como na Grécia, o mito inspirar e guiar não só a poesia épica, a tragédia e a comédia, mas também as artes plásticas; por outro lado, a cultura grega foi a única a submeter o mito a uma longa e penetrante análise, da qual ele saiu radicalmente “desmitizado”. A ascensão do racionalismo jônico coincide com uma crítica cada vez mais corrosiva da mitologia “clássica”, tal qual é expressa nas obras de Homero e Hesíodo. Se em todas as línguas européias a palavra “mito” denota “ficção”, é porque os gregos o proclamaram há vinte e cinco séculos.
 
Estas colocações dão margem à identificação, no curso da filosofia grega, da referida desmitificação que se insinua ainda antes do brotamento desta nova razão, tendo sido igualmente capaz de caminhar em paralelo com o pensamento filosófico. Mas isto, por si só, não foi suficiente. A transição do mito para a filosofia não pode ser compreendida simploriamente como um esmaecimento das narrativas míticas ou como simples dessacralização da religião, mesmo porque o mito permanece presente, de certo modo, nas formulações filosóficas ulteriores:
 
O início da filosofia não coincide, assim, nem com o princípio do pensamento racional nem com o fim do pensamento mítico. Mitogonia autêntica ainda encontramos na filosofia de Platão e na de Aristóteles. São exemplos o mito da alma em Platão, e, em Aristóteles, a idéia do amor das coisas pelo motor imóvel do mundo. (Jaeger, "Paideia: a formação do homem grego")