homem

O significado espiritual da natureza - Seyyed Nasr

"Hoje todo mundo fala do perigo da guerra, da superpopulação ou da poluição do ar e da água. Mas geralmente essas mesmas pessoas que se apercebem destes problemas óbvios falam da necessidade de um posterior "desenvolvimento", ou da guerra contra a "miséria humana" que nasce das condições impostas pela própria existência terrestre. Em outras palavras, desejam remover os problemas causados pela destruição do equilíbrio entre o homem e a natureza através de uma maior conquista e dominação desta última. Poucos gostariam de admitir que os problemas técnicos e sociais que a humanidade enfrenta nos dias de hoje não vêm do tão falado "subdesenvolvimento", mas sim do "superdesenvolvimento". Poucos desejam olhar de frente a realidade e aceitar o fato de que não há possibilidade de paz na sociedade humana enquanto a atitude para com a natureza e todo o ambiente natural basear-se na agressão e na guerra. Além do mais, talvez nem todos percebam que, a fim de se conseguir esta paz com a natureza, tem de haver paz com a ordem espiritual. Para se estar em paz com a Terra tem-se de estar em paz com o Céu.
 
Não há uma maneira de o homem defender sua qualidade de humano sem ser arrastado por suas próprias invenções e maquinações a uma condição infra-humana, a não ser permanecendo fiel à imagem do homem como um reflexo de algo que transcende o meramente humano. A paz na sociedade do homem e a preservação dos valores humanos são impossíveis sem paz com as ordens natural e espiritual e respeito pelas realidades supra-humanas imutáveis, que são a origem de tudo que se chama "valores humanos"..

O homem enquanto recusa - Eudoro de Sousa

"Se, de chofre e à queima-roupa, me desfechassem a mais preocupante, a mais inquietante de todas as questões: «Que é o homem?», creio que responderia com desassombro e sem hesitação: «O homem é o animal que se recusa a aceitar o que gratuitamente lhe deram e gratuitamente lhe dão.» Não me perguntem agora quem dá o que o homem recusa. Só importa a recusa da gratuidade. O homem se lhe recusa; o homem é a própria recusa, antes de ser o asno o que quer que seja ou o que quer que venha a ser. Pelo menos, ao que me parece, é esta a que está antes de qualquer outra determinação do homem, de todas as suas possíveis ou realizadas determinações. Que dela decorrem, uma a uma, todas as demais — as que se nos deparam em todos os livros de antropologia e de história que se leiam da única maneira de ler, as que se nos oferecem através de uma leitura interrogante. A Recusa está no fundo do abismo sem fundo, aonde tentamos descer, em busca do ser-origem do homem, que mora na intimidade de qualquer dos homens. No entanto, se falamos absurdamente do «fundo de um abismo sem fundo», é porque queremos deixar em aberto a questão de averiguar se a tal Recusa está efetivamente no término (ou no início) do pensar o ser do homem. Talvez mais, muito mais e mais além houvesse que perguntar; que perguntar, sobretudo, haveria se este pensar não tem que descer ao limite do pensável, ao liminar do impensável, e que transpô-lo decididamente, ou se não haverá que deter-nos no meio da escarpa, da escarpa que não tem «meio» se o abismo não tem «fundo». Mas para baixo do meio — que o seja ou não seja — há o mito: Adão recusou-se a prosseguir vivendo no Paraíso. Não importa que não seja esta a letra exata do relato mítico: tudo veio a passar-se como se assim fosse. Aqui, a referência ao Primeiro Homem faz-se só modo de apontar para o que do homem parece característica primeira, e semelhante característica mostra-se-nos como ilusão de um orgulhoso triunfo sobre o Exílio. A Recusa do Paraíso é, pois, a versão já humana do próprio acontecer humano, a primeira afirmação do homem, que é um querer firmar-se ele em si mesmo.