Spinoza

O vazio por trás das ideias de bem e mal - Spinoza

"Depois que a experiência me ensinou que tudo que frequentemente ocorre na vida comum é vão e fútil, como via que tudo que me provocava temor e que eu temia não tinha em si nada de bom nem de mau, a não ser na medida em que o ânimo era comovido por isso, decidi finalmente indagar se existia algo que fosse um bem verdadeiro [...]"

(Spinoza, Tratado da reforma do intelecto)

 

"O que permite a uma pessoa perguntar-se por um bem verdadeiro? Fundamentalmente, a desconfiança de que os bens (e também os males) que lhe foram propostos sejam incertos. Ao ensinar o vazio por trás das ideias de bem e mal, que "não se dizem senão relativamente", a experiência nos leva a supeitar da escala de valores da "vida comum", à qual somos todos apresentados tão logo nos damos por gente. Nesse sentido, deparamos uma experiencia da desconfiança que põe em suspensão as certezas da vida comum. Esse primeiro traço característico da experiência (a desconfiança) nos conduz a outro, talvez até mais primordial: trata-se de uma experiência da decepção. Os bens da vida comum quando nos são apresentados, envolvem uma promessa e nos propõem um trato: se acedermos a eles, eles nos trarão algo. Como sabemos pelo Tratado, porém, a certeza da vanidade e futilidade do que ocorre na vida comum deve-se à experiência de que tal vida não cumpre suas promessas. Ou seja, seus bens tornam-se incertos porque deles desconfiamos, e deles desconfiamos porque se mostraram decepcionantes.

Decepção e desconfiança articulados, esses sentimentos dão forma a um tipo determinado de experiência que, ao abalar o sistema da vida comum em que estamos inseridos, abre um campo de novas possibilidades, em especial a possibilidade de uma nova vida. A despeito do conteúdo dessa experiência, reafirmemos, cabe insistir nos seus efeitos, extremamente próximos dos daquela mencionada no apêndice.