verdade

A história das verdades - Foucault

"Ao considerar a questão da história e da filosofia da ciência do ponto de vista de Foucault, é preciso, primeiramente, levar em consideração que seu interesse não diz respeito à ciência propriamente, mas ao saber; não à sua racionalidade imanente, mas às condições externas de possibilidade de sua existência. 
 
É importante notar que, quando nos referimos a saber, estamos compreendendo que se trata de uma categoria metodológica, um recurso instrumental, que significa o nível do discurso e das formulações teóricas, próprios do saber científico ou com pretensão à cientificidade. Mesmo quando não legitimado como ciência, o saber possui uma positividade e obedece a regras de apareci- mento, organização e transformação que podemos descrever.
 
As pesquisas de Foucault se inserem em uma linha da história da verdade determinada pelo espaço teórico, político e institucional dos campos onde se situam os saberes, sem se restringir à ciência.

A ciência como ameaça

Vera Portocarrero

"Temos assistido nos últimos anos a um debate sobre os diversos aspectos que constituem o que se compreende por ciência. Toma-se como ponto de partida a necessidade de repensar o otimismo cientificista, acirrado no século XIX, com o positivismo, pelo ideal de unidade, objetividade, progresso, e, sobretudo, pela noção de verdade científica como bem social. Supõe-se clara a meta de compreender a ciência, entender sua evolução, sondar suas origens, abordar suas crises, denunciar seu caráter de violência e de dominação da natureza e dos homens. Seu maior desafio agora não é dominar, mas salvaguardar o mundo. A ciência é hoje uma questão que preocupa cientistas e intelectuais, apresentando-se-nos, talvez pela primeira vez, desde Galileu, não mais apenas como adjuvante do trabalho, da saúde e das luzes, mas como risco. Já não se discutem as revoluções científicas restingindo-as a seu caráter metodológico, como se os cientistas fossem os trabalhadores da prova strito sensu, os trabalhadores meticulosos da boa consciência. Considera-se a ciência uma das maiores fontes de patologia e mortalidade do mundo contemporâneo, sobretudo depois da grande guerra. Enfatiza-se sua constituição ética e social, seja para desmitificar sua pretensão à neutralidade, seja para apontar o perigo que representa e a responsabilidade política de que deve estar investida. A ciência é apresentada como uma importante forma de poder, sobretudo em sua relação com a alta tecnologia que hoje conhecemos."

 

"Filosofia, História e Sociologia das Ciências"

 

A Ciência e os quadrinhos sem legenda

O texto que segue foi retirado do livro "A construção das ciências", do físico teórico Gerard Fourez. 
 
"Pode-se comparar o processo científico a um jogo para os jovens que aparece no jornal: o da história em quadrinhos sem legenda. Esse jogo apresenta desenhos para os quais se deve encontrar uma "legenda". 
 
Um jogo cheio de convenções
 
Esse jogo implica, assim como a ciência, uma atividade cultural determinada por um consenso ligado a certo grupo. Para compreender o jogo, é preciso ter "pré-compreendido" um certo número de elementos de nossa cultura, em especial a maneira pela qual as histórias em quadrinhos são escritas. Essa compreensão implica a eliminação de outras possibilidades: desse modo, quando se compreendeu o jogo e o que é um desenho impresso, eliminam-se automaticamente os elementos que não parecem "pertinentes", por exemplo, a mancha de café que pode-se juntar ao desenho.
 
Da mesma maneira, o "jogo científico" começa por eliminar uma série de elementos, como considerações de acordo com as quais "Deus achou que as margaridas eram bonitas", a cor da mesa da qual se estuda o equilíbrio, e assim por diante. Considera-se desse modo o mundo situando-o de imediato na subcultura científica. Em outras culturas, os elementos religiosos ou poéticos não serão necessariamente eliminados da observação, assim como Newton não eliminava os argumentos teológicos de sua "filosofia natural", que denominamos "física".

"...e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal"

No primeiro trecho, o mote da consagrada MIT (Massachusetts Institute of Technology). No segundo, e a propósito desta "insinuação", que assenta-se na idéia universal de que a ciência moderna e seus infalíveis métodos detém a capacidade de descortinar a realidade, a metáfora do filósofo dinamarquês Kierkegaard pode nos ajudar a melhor compreender e relativizar estas pretensões.
 
“(...) e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal.” 
Moto da comunidade científica, segundo mural do Massachusetts Institute of Technology 
 
“Se um dançarino desse saltos muito altos, poderíamos admirá-lo. Mas se ele tentasse dar a impressão de poder voar, o riso seria seu merecido castigo, mesmo se ele fosse capaz, na verdade, de saltar mais alto que qualquer outro dançarino. Saltos são atos de seres essencialmente terrestres, que respeitam a força gravitacional da Terra, pois que  o salto é algo momentâneo. Mas o vôo nos faz lembrar os seres emancipados das condições telúricas, um privilégio reservado para as criaturas aladas...” (Kierkegaard)
 
O pensador alemão Kant e o "fundador da filosofia moderna", Descartes, também refletiram sobre a dificuldade da razão humana diante dos fenômenos da realidade:
 
"a razão, assim, se aproxima da natureza não como um aluno, que ouve tudo aquilo que o professor se decide a dizer, mas como um juiz que obriga a testemunha a responder questões que ele mesmo formulou." (Kant)
 
"Entre todos os que buscam a verdade nas ciências, apenas os matemáticos encontram algumas demonstrações, isto é, algumas razões certas e evidentes." (Descartes)
 

Teoria da Evolução: um ato de fé!

Martin Lings, escritor inglês, nos traz uma perpectiva diferente quando o assunto é "darwinismo". Na citação retirada do livro "Sabedoria Tradicional & Supertições Modernas", o autor faz um contra-ponto à Teoria da Evolução a partir de colocações de renomados cientistas sobre o tema.

"[...] A doutrina religiosa é contrária aos fatos cientificamente conhecidos? Deve a ciência, para ser verdadeira consigo mesma, sustentar a teoria da evolução? Respondendo a esta última questão, citaremos o geólogo francês Paul Lemoine, editor do volume V (sobre "Organismos Vivos") da Encyclopédie Française, o qual chegou ao ponto de escrever, em sua síntese dos artigos dos vários colaboradores:

"Esta exposição mostra que a teoria da evolução é impossível. Na realidade, apesar das aparências, ninguém mais acredita nela... A evolução é uma espécie de dogma cujos sacerdotes não creem mais nele, apesar de o sustentarem em benefício dos interesses de seu rebanho."

O cientista virou um mito!

Transcrevo, logo abaixo, um trecho do livro de Rubem Alves, Filosofia da Ciência, onde o autor analisa o poder da ciência na modernidade e o nosso comportamento passivo diante das "verdades" produzidas por ela.

"Veja as imagens da ciência e do cientista que aparecem na televisão. Os agentes de propaganda não são bobos. Se eles usam tais imagens é porque eles  sabem que elas são eficientes para desencadear decisões e comportamentos. É o que foi dito antes: cientista tem autoridade, sabe sobre o que está falando e os outros devem ouvi-lo e obedecê-lo. Daí que imagem de ciência e cientista pode e é usada para ajudar a vender cigarro. Veja, por exemplo, os novos tipos de cigarro, produzidos cientificamente. E os laboratórios, microscópios e cientistas de aventais imaculadamente brancos enchem os olhos e a cabeça dos telespectadores. E há cientistas que anunciam pasta de dente, remédios para caspa, varizes, e assim por diante.

O cientista virou um mito. E todo mito é perigoso, porque ele induz o comportamento inibe o pensamento. Este é um dos resultados engraçados (e  trágicos) da ciência. Se existe uma classe especializada em pensar de maneira correta (os cientistas), os outros indivíduos são liberados da obrigação de pensar e podem simplesmente fazer o que os cientistas mandam. Quando o médico lhe dá uma receita você faz perguntas? Sabe como os medicamentos funcionam? Será que você se pergunta se o médico sabe como os medicamentos funcionam? Ele manda, a gente compra e toma. Não pensamos. Obedecemos. Não precisamos pensar, porque acreditamos que há indivíduos especializados e competentes em pensar. Pagamos para que ele pense por nós.
" (Rubem Alves, pag 7 e 8)