liberdade

A vida é o que podemos ser - Ortega y Gasset

"[...] de repente a multidão tornou-se visível, instalou-se nos lugares preferenciais da sociedade. Antes, se existia, passava despercebida. Ocupava o fundo do cenário social; agora, antecipou-se às baterias, tornou-se o personagem principal. Já não há protagonistas, só coro."
 
Ortega y Gasset, Rebelião das Massas
 
 
"Este ensaio quisera vislumbrar o diagnóstico de nosso tempo, de nossa vida atual. Vai enunciada a primeira parte dele, que pode resumir-se assim: nossa vida, como repertório de possibilidades, é magnífica, exuberante, superior a todas as historicamente conhecidas. Mas assim como seu formato é maior, transbordou todos os caminhos, princípios, normas e ideais legados pela tradição. É mais vida que todas as vidas, e por isso mesmo mais problemática. Não pode orientar-se no pretérito. Tem de inventar seu próprio destino. Mas agora é preciso completar o diagnóstico.
 
A vida, que é, antes de tudo, o que podemos ser, vida possível, é também, e por isso mesmo, decidir entre as possibilidades o que em efeito vamos ser. Circunstâncias e decisão são os dois elementos radicais de que se compõe a vida. A circunstância - as possibilidades - é o que de nossa vida nos é dado e imposto. Isso constitui o que chamamos o mundo. A vida não elege seu mundo, mas viver é encontrar-se, imediatamente, em um mundo determinado e insubstituível: neste de agora. Nosso mundo é a dimensão de fatalidade que integra nossa vida. Mas esta fatalidade vital não se parece à mecânica. Não somos arremessados para a existência como a bala de um fuzil, cuja trajetória está absolutamente predeterminada. A fatalidade em que caímos ao cair neste mundo - o mundo é sempre este, este de agora - consiste em todo o contrário. Em vez de impor-nos uma trajetória, impõe-nos várias e, consequentemente, nos força... a eleger. Surpreendente condição a de nossa vida! Viver é sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade, a decidir o que vamos ser neste mundo. Nem um só instante se deixa descansar nossa atividade de decisão. Inclusive quando desesperados nos abandonamos ao que queira vir, decidimos não decidir.

Kant e a boa vontade

"Sou por gosto um investigador. Sinto sede de conhecimento e a ávida inquietação de progredir, tanto quanto a satisfação que dá qualquer auisição. Houve um tempo em que acreditava que só isso poderia fazer a honra da humanidade, e desprezava a a plebe que tudo ignora. Este privilégio ilusório desvaneceu-se, aprendo a honrar os homens e considerar-me-ia mais inútil que o comum dos trabalhadores se não estivesse convencido de que a especulação a que me dedico pode conferir a tudo o resto um valor: fazer realçar os direitos da humanidade."
 
Imannuel Kant, "Observations sur le beau et le sublime"
 
 
A missão da filosofia de Kant vai constituir em dar plena terminação ao movimento iniciado pela atitude idealista. Segundo Manuel Garcia Morente (Fudamentos de Filosofia), era preciso que o processo iniciado por Descartes chegasse a seu término e conclusão, ou seja, um pensador capaz de arrematar as possibilidades contidas na atitude idealista. Mas em que consiste este idealismo? A concepção que assinala ao "espírito" (ideias) uma posição dominante no conjunto do ser. De forma muito reduzida e beirando uma deformação de seu sentido, seria a concepção de que existe uma parte de mim que pensa, ou seja, um "pedaço" do homem capaz de deliberar, escolher, autonomamente, dentre as possibilidades que o mundo oferece. Assim, pois, Kant seria o fim (não fosse a retomada sartriniana) de um período que se inicia com Platão (psikhé e sôma). No campo da moral, o problema básico de Kant foi descobrir o significado do que é justo e injusto, do bem e do mal. Para Frost, ao atacar o problema, acatou, como fundamental, o princípio de Rousseau, de que a única coisa absolutamente boa, no mundo, é a vontade humana governada pelo respeito para com as leis morais ou a consciência de dever e, neste sentido, Kant chegou a afirmar que Rousseau era o "Newton do mundo moral". Neste trecho retirado do livro "A Filosofia Explica as Grandes Questões da Humanidade", o Prof. Clóvis de Barros Filho explica, com enorme clareza, a ruptura do pensamento kantiano com a tradição grega. A dignidade moral, para Kant, é uma questão de "trabalho", de esforço, onde qualquer homem é capaz de "escapar" do programa da Natureza (physis!?), libertando-se da lógica das tendências naturais. Nascem aqui os direitos da humanidade.
 
"A reflexão sobre a liberdade está no coração do pensamento moral de Kant, cujas contribuições no campo da filosofia são destaque também quando se trata de abordar as condições do conhecimento e os limites da razão. Seus textos são herméticos. Mas não podemos nos acovardar. Tentaremos identificar o que o autor queria dizer de mais fundamental. O que ele destacaria se quisesse facilitar a compreensão do leitor. E, se possível, você poderá abrir a primeira página do texto intitulado Fundamentação da metafísica dos costumes. O que dissermos até aqui facilitará o acesso à informação. Kant não espera muito para dar o tom. Apresenta-se como herdeiro da antropologia de Rousseau. E em ruptura com o pensamento grego. Porque o que pode ser bom, virtuoso e digno não são os talentos naturais.

Kant e a liberdade

Segundo Reale, em sua História da Filosofia, depois de Platão ("ação livre é aquela que se determina em favor do desejo racional"), Kant deu toda amplitude ao "racionalismo" da liberdade: a ação é livre quando a consciência determina "contra" os desejos sensíveis, em função de um princípio racional (por ex., dar esmola "por piedade" é ceder à tendência; mas dar esmola "por princípio" é agir livremente, segundo um princípio racional); Percebe-se que, no fundo, a liberdade não consiste no que se faz, mas na maneira pela qual se faz. A liberdade é uma atitude, a do homem que se reconhece em sua vida, que aceita a história do mundo e dos acontecimentos. Por isso, a liberdade consiste, freqüentemente, muito mais em "mudar seus desejos que a ordem do mundo", em adaptar-se à evolução e à ordem das coisas."

Michael Sandel também cita este princípio da filosofia kantiana quando relembra um famoso anúncio de uma empresa de refrigerantes, cujo logo sugeria: "obedeça sua sede". Segundo o próprio Sandel, este seria um bom exemplo de um agir "heteronomamente", palavra inventada por Kant, que seria o oposto de agir autônomamente. Agir heteronomamente seria, portanto, agir de acordo com desejos que eu não escolhi. Como bem sugeriu Reale, agir livremente, em seu sentido mais puro e direto, não se resume a esta ou aquela ação, mas dos princípios que a regem enquanto ação.