Epicteto

Mind your own business - Epicteto

Epicteto foi um escravo nascido em Hierapolis, próximo de Éfeso, que viveu entre os anos 50 e 130 de nossa era, no auge do Império Romano. Atendendo a sua solicitação seu dono, Epaphroditus, em Roma, este permitiu que estudasse filosofia com Musonius Rufus, considerado um dos quatro grande estoicos romanos, juntamente com Sêneca, Marco Aurélio e o próprio Epicteto, que se tornou um mestre estoico renomado, não tendo escrito nada, mas nos sendo legado alguns registros de suas falas com seus discípulos, anotadas por estes. O Imperador Marco Aurélio, que foi um grande filósofo estoico, considera Epicteto como seu mestre, apesar de só tê-lo conhecido por estes escritos.
 
Segue o início de seu manual, que assim se intitulava pois se dizia ser algo que devíamos ter sempre à mão. Embora em uma primeira análise as colocações soem simplórias, notem a semelhança com as colocações modernas do tipo "mind your own business":
 
"1.1. Algumas coisas estão dentro de nosso poder, enquanto outras não estão. Dentro de nosso poder estão opinião, motivação, desejo, aversão, e, em resumo, o que quer que seja de nosso próprio fazer; não estão em nosso poder, nosso corpo, nossa propriedade, reputação, ofício, e, em resumo, o que quer que não seja de nosso próprio fazer.
 
2. As coisas que estão dentro de nosso poder são por natureza livres, e imunes à impedimento e obstrução, enquanto aquelas que não estão dentro de nosso poder são fracas, servis, sujeitas a impedimentos, e não propriamente nossas.

A filosofia como uma doutrina de salvação ... por si mesmo! - Luc Ferry

Aprender a viver
Luc Ferry
 
“Por não conseguir acreditar num Deus salvador, o filósofo é antes de tudo aquele que pensa que, se conhecemos o mundo, compreendendo a nós mesmos e compreendendo os outros, tanto quanto nossa inteligência o permite, vamos conseguir, pela lucidez e não por uma fé cega, vencer nossos medos. Em outras palavras, se as religiões se definem como “doutrinas da salvação” por um Outro, pela graça de Deus, as grandes filosofias poderiam ser definidas como “doutrinas da salvação por si mesmo, sem a ajuda de Deus. É assim que Epicuro, por exemplo, define a filosofia como uma “medicina da alma”, cujo objetivo último é o de nos fazer compreender que “a morte não deve amedrontar”. Esse é também todo o programa filosófico que seu mais eminente discípulo, Lucrécio, expõe num poema intitulado Sobre a Natureza das Coisas: "É preciso, antes de tudo, expulsar e destruir esse medo do Aqueronte [o rio dos Infernos] que, penetrando até o fundo de nosso ser, envenena a vida humana, colore todas as coisas do negror da morte e não deixa subsistir nenhum prazer límpido e puro."
 
Isso é válido também para Epicteto, um dos maiores representantes de outra escola filosófica da Grécia antiga, o estoicismo, sobre o qual falarei daqui a pouco, que vai reduzir todas as interrogações filosóficas a uma única e mesma fonte: o medo da morte. Vamos ouvi-lo quando se dirige a seu discípulo durante as conversas que com ele mantém: Tens em mente — diz ele — que para o homem o princípio de todos os males, da baixeza, da covardia, é... o medo da morte? Exercita-te contra ela; que para isso tendam “todas as tuas palavras, todos os teus estudos, todas as tuas leituras e saberás que é o único meio que os homens têm de se tornarem livres.
 
O mesmo tema se encontra em Montaigne, no famoso adágio segundo o qual “filosofar é aprender a morrer”, e em Spinoza, com sua bela reflexão sobre o sábio, “que morre menos que o tolo”; em Kant, quando se pergunta “o que nos é permitido esperar”, e até em Nietzsche, que se aproxima, com seu pensamento sobre a “inocência do devir”, dos mais profundos elementos das doutrinas da salvação elaboradas na Antiguidade. Não se preocupe se essas alusões aos grandes autores ainda não lhe dizem nada. É normal, já que você está começando. Voltaremos a cada um desses exemplos para esclarecê-los e explicitá-los. No momento, o que importa é apenas que você compreenda por que, aos olhos de todos esses filósofos, o medo da morte nos impede de viver bem. Não somente porque ela gera angústia. A bem dizer, na maior parte do tempo, não pensamos nisso, e estou certo de que você não passa os dias meditando sobre o fato de que os homens são mortais! No entanto, isso acontece num nível mais profundo, porque a irreversibilidade do curso das coisas, que é uma forma de morte no interior mesmo da vida, ameaça-nos de sempre nos arrastar para uma dimensão do tempo que corrompe a existência: a do passado, onde se instalam os grandes corruptores da felicidade que são a nostalgia e a culpa, o arrependimento e o remorso. Você me dirá talvez que basta não pensar nela, basta tentar, por exemplo, fixar-se de preferência nas lembranças mais felizes do que remoer maus momentos.