percepção

O conhecimento científico como redução - Ladrière

"A experiência científica repousa numa tomada de partido em favor da abstração e, se recorre à percepção, é apenas depois de tê-la de algum modo encerrado nos estreitos limites que lhe são impostos justamente por seu modo de representação. A questão será preparar o momento propriamente perceptivo, de tal sorte que um ato de atenção simples poderá, em princípio, decidir sobre o que, em última análise, convém atribuir ao real. O que se atinge em tais atos de constatação eletiva é apenas uma região extremamente estreita de realidade e qualidades previamente isoladas, que só vêm receber seu sentido dos dispositivos através dos quais a realidade é interrogada e não, da virtude mesma da percepção e dessa espécie de exuberância com a qual, na abertura que promove, o mundo se revela na densidade mesma de sua substância. No fundo o que se pede à experiência é um veredicto puramente local, uma resposta em termos de "sim" ou de "não" a uma questão estreitamente circunscrita e, não, uma verdadeira contribuição substancial. Não se trata de deixar o real se manifestar tal qual é, de deixar as qualidades sensíveis irradiarem com toda a força de seu brilho, mas pelo contrário, trata-se de esquecer a coloração do universo, seu brilho e sua profusão, para, doravante, fazer dele apenas um farol longínquo que, de tempos em tempos, emite breves sinais luminosos, que deverão ser compreendidos como confirmações ou como refutações, a partir da sábia interpretação que deles se fizer. Mas, depois de ter reduzido o mundo a esse sinal intermitente, local e lacônico, depois de ter colocado entre parênteses as significações vividas e relegado ao esquecimento o movimento da manifestação, é necessário refazer uma imagem plausível, dar ao mundo uma figura, reunir os signos dispersos, restaurar a continuidade, tanto na ordem espácio-temporal quanto na ordem das qualidades."

(Jean Ladrière, "Filosofia e Práxis Científica")

 

Jean Ladrière - Filosofia e Práxis Científica

"Ao fazer da verificação um dos problemas capitais e, em certo sentido, o problema essencial da démarche científica, o neopositivismo recorria, pelo menos implicitamente, a um conceito de verdade que pertencia, na qualidade de pressuposto, ao conjunto das posições epistemológicas comandadas pela metafísica da representação. É verdade que ele o interpretava no quadro prescritivo constituído pelo princípio geral do empirismo. Esse princípio, todavia, é apenas uma modalidade, aliás perfeitamente coerente em sua ordem, da pressuposição geral da representação. A ciência pretende se referir ao que existe e tenta proporcionar-se meios seguros com vistas a discriminar a apreensão do que existe das diversas ilusões que os sentidos, a imaginação, o costume, interesses ou, num nível mais sublime, o vôo audacioso das especulações não cessam de tecer no campo de nossas crenças. Ora, o que existe só se deixa atingir por meio de uma doação. Só podemos atingir o real através da maneira pela qual este nos afeta e nos determina. Só um poder passivo pode ser afetado e, para nós, é a experiência sensível que constitui o lugar e o único lugar da passividade. Portanto, só ela, da maneira como é estimulada, pode dar-nos acesso ao que é. Mas a percepção está muito próxima das coisas, está por demais mergulhada na vida do mundo para constituir um saber a respeito dele. É preciso da linguagem, e da distância com que ela se situa em relação àquilo de que fala, para que advenha essa duplicação na qual e pela qual o que se entrega à percepção pode tornar-se um objeto de conhecimento. A linguagem não é feita de uma acumulação de traços cada qual correspondendo a um dado elementar. Ela constitui um meio próprio de articulação no qual as intenções parciais, a partir das quais destacamos o dado, podem se organizar de acordo com um sistema de remetimentos, de dependências e de subsunções que dá lugar, finalmente, a um verdadeiro corpo de saber. Mais ainda.