praxis

Não se pode falar de ação sem contemplação (theoria) - Ortega y Gasset

"Parece-me que presentemente podemos representar-nos, ainda que seja em vago esquematismo, qual tem sido a trajetória humana, considerada sob este ângulo. Façamo-lo num texto condensado, que nos sirva a um tempo como resumo e como recordação de tudo anteriormente dito.
 
Acha-se o homem, não menos do que o animal, consignado ao mundo, às coisas em torno, à circunstância. Em princípio, sua existência mal difere da existência zoológica: êle, também, vive governado pelo contorno, inserido entre as coisas do mundo como uma delas. Não obstante, mal os seres em torno lhe deixam um alento, o homem, fazendo um esforço gigantesco, consegue um instante de concentração, mete-se dentro de si, isto é, mantém, a duras penas, sua atenção fixa nas ideias que brotam dentro dele, ideias que as coisas suscitam, e que se referem ao comportamento destas, ao que logo o filósofo chamará "o ser das coisas". Trata-se, de pronto, de uma ideia muito tosca, sobre o mundo, mas que permita esboçar um primeiro plano de defesa, uma conduta preconcebida. Mas, nem essas coisas em torno lhe permitem vagar por muito tempo nessa concentração; tampouco, embora elas o consentissem, esse homem primigênio seria capaz de prolongar mais de uns segundos ou minutos essa torção aten-cional, essa fixação nos impalpáveis fantasmas que são as ideias. Essa atenção para dentro, que é o ensimesmamento, constitui o fato mais antinatural, mais ultrabiológico. O homem tardou milhares de anos para educar um pouco, - nada mais que um pouco, - a sua capacidade de concentração. O que lhe é natural é dispersar-se, distrair-se para fora, como o macaco na selva e na jaula do Jardim Zoológico.
 
O padre Chevesta, explorador e missionário, que foi o primeiro etnógrafo especializado no estudo dos pigmeus, provavelmente a variedade de homens mais antiga que se conhece, que êle foi procurar lá dentro das selvas tropicais mais recônditas, - o padre Chevesta, que desconhece por completo a doutrina agora exposta por mim e se limita a descrever o que vê, diz em sua última obra, de 1932, sobre os anões do Congo (Bambuti, die Zwerge des Congo):
 
"Falta-lhes por completo o poder de concentrar-se. Estão sempre absorvidos pelas impressões exteriores, cuja contínua mutação lhes impede recolher-se a si mesmos, o que constitui condição indispensável a todo aprendizado. Sentá-los no banco de uma escola seria para estes homenzinhos um tormento insuportável. De modo que o trabalho do missionário e do mestre se torna sumamente difícil".
 
Mas, embora instantâneo e tosco, esse primitivo ensimesmamento vai separar radicalmente a vida humana da vida animal. Porque agora o homem, esse homem primigênio vai submergir novamente nas coisas do mundo, resistindo a elas, sem entregar-se de todo a elas. Leva um plano contra elas, um projeto de trato com elas, de manipulação de suas formas, que produz uma transformação mínima em seu redor, suficiente para que o oprimam um pouco menos e, em consequência, lhe permitam mais frequentes e folgados ensimesmamentos. . . e assim sucessivamente.

O conhecimento científico como redução - Ladrière

"A experiência científica repousa numa tomada de partido em favor da abstração e, se recorre à percepção, é apenas depois de tê-la de algum modo encerrado nos estreitos limites que lhe são impostos justamente por seu modo de representação. A questão será preparar o momento propriamente perceptivo, de tal sorte que um ato de atenção simples poderá, em princípio, decidir sobre o que, em última análise, convém atribuir ao real. O que se atinge em tais atos de constatação eletiva é apenas uma região extremamente estreita de realidade e qualidades previamente isoladas, que só vêm receber seu sentido dos dispositivos através dos quais a realidade é interrogada e não, da virtude mesma da percepção e dessa espécie de exuberância com a qual, na abertura que promove, o mundo se revela na densidade mesma de sua substância. No fundo o que se pede à experiência é um veredicto puramente local, uma resposta em termos de "sim" ou de "não" a uma questão estreitamente circunscrita e, não, uma verdadeira contribuição substancial. Não se trata de deixar o real se manifestar tal qual é, de deixar as qualidades sensíveis irradiarem com toda a força de seu brilho, mas pelo contrário, trata-se de esquecer a coloração do universo, seu brilho e sua profusão, para, doravante, fazer dele apenas um farol longínquo que, de tempos em tempos, emite breves sinais luminosos, que deverão ser compreendidos como confirmações ou como refutações, a partir da sábia interpretação que deles se fizer. Mas, depois de ter reduzido o mundo a esse sinal intermitente, local e lacônico, depois de ter colocado entre parênteses as significações vividas e relegado ao esquecimento o movimento da manifestação, é necessário refazer uma imagem plausível, dar ao mundo uma figura, reunir os signos dispersos, restaurar a continuidade, tanto na ordem espácio-temporal quanto na ordem das qualidades."

(Jean Ladrière, "Filosofia e Práxis Científica")

 

Jean Ladrière - Filosofia e Práxis Científica

"Ao fazer da verificação um dos problemas capitais e, em certo sentido, o problema essencial da démarche científica, o neopositivismo recorria, pelo menos implicitamente, a um conceito de verdade que pertencia, na qualidade de pressuposto, ao conjunto das posições epistemológicas comandadas pela metafísica da representação. É verdade que ele o interpretava no quadro prescritivo constituído pelo princípio geral do empirismo. Esse princípio, todavia, é apenas uma modalidade, aliás perfeitamente coerente em sua ordem, da pressuposição geral da representação. A ciência pretende se referir ao que existe e tenta proporcionar-se meios seguros com vistas a discriminar a apreensão do que existe das diversas ilusões que os sentidos, a imaginação, o costume, interesses ou, num nível mais sublime, o vôo audacioso das especulações não cessam de tecer no campo de nossas crenças. Ora, o que existe só se deixa atingir por meio de uma doação. Só podemos atingir o real através da maneira pela qual este nos afeta e nos determina. Só um poder passivo pode ser afetado e, para nós, é a experiência sensível que constitui o lugar e o único lugar da passividade. Portanto, só ela, da maneira como é estimulada, pode dar-nos acesso ao que é. Mas a percepção está muito próxima das coisas, está por demais mergulhada na vida do mundo para constituir um saber a respeito dele. É preciso da linguagem, e da distância com que ela se situa em relação àquilo de que fala, para que advenha essa duplicação na qual e pela qual o que se entrega à percepção pode tornar-se um objeto de conhecimento. A linguagem não é feita de uma acumulação de traços cada qual correspondendo a um dado elementar. Ela constitui um meio próprio de articulação no qual as intenções parciais, a partir das quais destacamos o dado, podem se organizar de acordo com um sistema de remetimentos, de dependências e de subsunções que dá lugar, finalmente, a um verdadeiro corpo de saber. Mais ainda.