redução galileana

Galileu e o ato arque-fundador do mundo moderno - Michel Henry

"Galileu tenta ter os planos inclinados mais lisos possível, as bolas mais redondas. Ele cria condições de pureza máxima para que sua experiência corresponda o mais fielmente possível à sua hipótese [...]. Nas ciências experimentais o trabalho de criar uma testemunha, de fazer falar um fato, é sempre um trabalho de purificação e de controle. [...] controlar e purificar é tentar eliminar tudo o que pudesse turvar o sentido do testemunho, tudo o que pudesse permitir outras leituras de tal testemunho."
 
(Isabelle Stengers, "Quem tem medo da ciência?")
 
"Galileu realizou o que chamo enquanto fenomenólogo, o ato arque-fundador da ciência moderna e ao mesmo tempo o ato arque-fundador do mundo moderno. Este ato nasceu de uma decisão intelectual. Galileu estimou que é preciso conhecer o universo no qual vivemos, pois deste conhecimento procede a ética, nosso dever-ser e nosso dever-fazer. Mas este conhecimento do universo tem por condição essencial a rejeição de todas as outras formas de conhecimento, em particular aquelas originárias das qualidades sensíveis. Trata-se desde então de substituir o conhecimento sensível pelo conhecimento verdadeiro, a geometria, que é conhecimento das figuras dos corpos estendidos, quer dizer, situados no espaço. Fenomenologicamente estes dois conhecimentos apresentam, do ponto de vista de sua cientificidade e de sua racionalidade, uma oposição completa. O conhecimento sensível é variável de um indivíduo para outro de tal maneira que não pode engendrar a respeito da ciência senão proposições singulares, aleatórias, subjetivas e contingentes. O conhecimento geométrico suscita proposições racionais, verdadeiras. Assim a geometria é o modo exclusivo de conhecimento do universo material que se compõe de corpos estendidos. [...] Estamos em condições de levantar duas questões: o que é a ética e o que é o ser humano? Estas questões são fundamentais. Com efeito, se se concebe a vida como a vida dos indivíduos vivos, ou ao contrário se se considera a vida como um sistema inerte, as consequências não são evidentemente as mesmas de um ponto de vista ético. A maior parte dos pesquisadores que estudam as ciências da matéria e as ciências ditas humanas querem aplicar as metodologias, as normas e os pressupostos do saber galileano. Ora, considero que não existe possibilidade para um fundamento da ética neste campo do saber físico-matemático do universo material. O estudo deste campo é certo, perfeitamente legítimo na medida que ela se limita a este campo, mas é fortemente provável que as partículas microfísicas ou as moléculas não são habitadas de nenhum desejo, de nenhuma vontade de carreira, de reconhecimento social, de sede de poder, etc. Galileu e Descartes tinham razão de precisar que na matéria nada há que se assemelhe à sensibilidade."
 
(Michel Henry, "A Barbárie")
 

A ciência como negação do sujeito

Excerto da obra "Ética e Pensamento Científico"
Jean Ladrière

"Qual o "contexto cultural" da bioética? O termo "contexto" designa o meio ambiente, aquilo que cerca o conjunto dos fatos culturais nos quais se situa a biologia atual. O fato fundamental é "o poder do homem sobre a vida" (Cf. Le pouvoir de l'homme sur la vie. Paris, Desclée de Brouwer, 1976). Ora, se há um poder do homem sobre a vida, é porque o homem dispõe hoje de certo saber sobre a vida. A questão filosófica, que aqui se coloca, é a de determinar a natureza desse poder, de compreender o porque da ligação entre saber e poder. A cultura grega dispunha de um saber de grande alcance. Mas não conduzia a um amplo poder. Ao contrário, o saber moderno, de caráter científico, se faz acompanhar de um extraordinário poder. Devemos examinar por que é assim. Colocar-se essa questão é, ipso facto, colocar-se a questão mesma da natureza e do estatuto da ciência.

Uma primeira observação se impõe: de forma alguma a ciência constitui um fenômeno natural. A atitude científica é muito diferente daquilo que a linguagem filosófica denomina a "atitude natural" ou a "visão do mundo natural", tal como se exprime nos mitos, nas tradições, nos provérbios, nas sabedorias e nas concepções de mundo. A atitude científica é de natureza artificial. Em outras palavras, a ciencia é um fenômeno histórico, situado de modo preciso no tempo e no espaço. Mesmo que o fenômeno científico se torne hoje universal, permanece verdade que nasceu em lugares bem determinados e num momento preciso da história. Claro que, se a ciência pode surgir foi porque houve, no espírito humano, possibilidades fundamentais que ela apenas revelou. Cabe-nos interrogar sobre a natureza dessas possibilidades e compreender o que se passou no momento em que elas se manifestaram e começaram a produzir frutos visíveis. Ora, só podemos perceber corretamente a natureza de um fenômeno com certo recuo. Os fundadores da ciência moderna tinham certa consciencia daquilo que faziam. Mas não dispunham do recuo que temos hoje, após vários séculos de pesquisa e de progresso.