natureza

O significado espiritual da natureza - Seyyed Nasr

"Hoje todo mundo fala do perigo da guerra, da superpopulação ou da poluição do ar e da água. Mas geralmente essas mesmas pessoas que se apercebem destes problemas óbvios falam da necessidade de um posterior "desenvolvimento", ou da guerra contra a "miséria humana" que nasce das condições impostas pela própria existência terrestre. Em outras palavras, desejam remover os problemas causados pela destruição do equilíbrio entre o homem e a natureza através de uma maior conquista e dominação desta última. Poucos gostariam de admitir que os problemas técnicos e sociais que a humanidade enfrenta nos dias de hoje não vêm do tão falado "subdesenvolvimento", mas sim do "superdesenvolvimento". Poucos desejam olhar de frente a realidade e aceitar o fato de que não há possibilidade de paz na sociedade humana enquanto a atitude para com a natureza e todo o ambiente natural basear-se na agressão e na guerra. Além do mais, talvez nem todos percebam que, a fim de se conseguir esta paz com a natureza, tem de haver paz com a ordem espiritual. Para se estar em paz com a Terra tem-se de estar em paz com o Céu.
 
Não há uma maneira de o homem defender sua qualidade de humano sem ser arrastado por suas próprias invenções e maquinações a uma condição infra-humana, a não ser permanecendo fiel à imagem do homem como um reflexo de algo que transcende o meramente humano. A paz na sociedade do homem e a preservação dos valores humanos são impossíveis sem paz com as ordens natural e espiritual e respeito pelas realidades supra-humanas imutáveis, que são a origem de tudo que se chama "valores humanos"..

Como senhores e possuidores da Natureza - Descartes

"Jamais dei muita atenção às coisas que provinham de meu espírito, e, à medida que não colhi outros frutos do método que emprego, exceto que fiquei satisfeito em relação a algumas dificuldades que dizem respeito às ciências especulativas, ou então que tentei pautar meus hábitos pelas razões que ele me ensinava, não me considerei obrigado a nada escrever acerca dele. Pois, no que se refere aos hábitos, cada qual segue de tal maneira sua própria opinião que se poderia encontrar tantos reformadores quantas são as cabeças, se fosse permitido a outros, além dos que Deus estabeleceu como soberanos dos povos, ou então aos que concedeu suficiente graça e diligência para serem profetas, tentar mudá-los em algo; e, apesar de que minhas especulações me agradassem muito, pensei que os outros também tinham as suas que lhes agradariam talvez mais. Porém, apenas adquiri algumas noções gerais concernentes a física, e, começando a comprová-las em várias dificuldades particulares, percebi até onde podiam conduzir e quanto diferem dos princípios que haviam sido utilizados até o presente, considerei que não podia mantê-las escondidas sem transgredir a lei que nos obriga a procurar, no que depende de nós, o bem geral de todos os homens. 

O homem enquanto recusa - Eudoro de Sousa

"Se, de chofre e à queima-roupa, me desfechassem a mais preocupante, a mais inquietante de todas as questões: «Que é o homem?», creio que responderia com desassombro e sem hesitação: «O homem é o animal que se recusa a aceitar o que gratuitamente lhe deram e gratuitamente lhe dão.» Não me perguntem agora quem dá o que o homem recusa. Só importa a recusa da gratuidade. O homem se lhe recusa; o homem é a própria recusa, antes de ser o asno o que quer que seja ou o que quer que venha a ser. Pelo menos, ao que me parece, é esta a que está antes de qualquer outra determinação do homem, de todas as suas possíveis ou realizadas determinações. Que dela decorrem, uma a uma, todas as demais — as que se nos deparam em todos os livros de antropologia e de história que se leiam da única maneira de ler, as que se nos oferecem através de uma leitura interrogante. A Recusa está no fundo do abismo sem fundo, aonde tentamos descer, em busca do ser-origem do homem, que mora na intimidade de qualquer dos homens. No entanto, se falamos absurdamente do «fundo de um abismo sem fundo», é porque queremos deixar em aberto a questão de averiguar se a tal Recusa está efetivamente no término (ou no início) do pensar o ser do homem. Talvez mais, muito mais e mais além houvesse que perguntar; que perguntar, sobretudo, haveria se este pensar não tem que descer ao limite do pensável, ao liminar do impensável, e que transpô-lo decididamente, ou se não haverá que deter-nos no meio da escarpa, da escarpa que não tem «meio» se o abismo não tem «fundo». Mas para baixo do meio — que o seja ou não seja — há o mito: Adão recusou-se a prosseguir vivendo no Paraíso. Não importa que não seja esta a letra exata do relato mítico: tudo veio a passar-se como se assim fosse. Aqui, a referência ao Primeiro Homem faz-se só modo de apontar para o que do homem parece característica primeira, e semelhante característica mostra-se-nos como ilusão de um orgulhoso triunfo sobre o Exílio. A Recusa do Paraíso é, pois, a versão já humana do próprio acontecer humano, a primeira afirmação do homem, que é um querer firmar-se ele em si mesmo.

A ciência como negação do sujeito

Excerto da obra "Ética e Pensamento Científico"
Jean Ladrière

"Qual o "contexto cultural" da bioética? O termo "contexto" designa o meio ambiente, aquilo que cerca o conjunto dos fatos culturais nos quais se situa a biologia atual. O fato fundamental é "o poder do homem sobre a vida" (Cf. Le pouvoir de l'homme sur la vie. Paris, Desclée de Brouwer, 1976). Ora, se há um poder do homem sobre a vida, é porque o homem dispõe hoje de certo saber sobre a vida. A questão filosófica, que aqui se coloca, é a de determinar a natureza desse poder, de compreender o porque da ligação entre saber e poder. A cultura grega dispunha de um saber de grande alcance. Mas não conduzia a um amplo poder. Ao contrário, o saber moderno, de caráter científico, se faz acompanhar de um extraordinário poder. Devemos examinar por que é assim. Colocar-se essa questão é, ipso facto, colocar-se a questão mesma da natureza e do estatuto da ciência.

Uma primeira observação se impõe: de forma alguma a ciência constitui um fenômeno natural. A atitude científica é muito diferente daquilo que a linguagem filosófica denomina a "atitude natural" ou a "visão do mundo natural", tal como se exprime nos mitos, nas tradições, nos provérbios, nas sabedorias e nas concepções de mundo. A atitude científica é de natureza artificial. Em outras palavras, a ciencia é um fenômeno histórico, situado de modo preciso no tempo e no espaço. Mesmo que o fenômeno científico se torne hoje universal, permanece verdade que nasceu em lugares bem determinados e num momento preciso da história. Claro que, se a ciência pode surgir foi porque houve, no espírito humano, possibilidades fundamentais que ela apenas revelou. Cabe-nos interrogar sobre a natureza dessas possibilidades e compreender o que se passou no momento em que elas se manifestaram e começaram a produzir frutos visíveis. Ora, só podemos perceber corretamente a natureza de um fenômeno com certo recuo. Os fundadores da ciência moderna tinham certa consciencia daquilo que faziam. Mas não dispunham do recuo que temos hoje, após vários séculos de pesquisa e de progresso.

A natureza na perspectiva grega - Aristóteles

No pensamento grego, de um modo geral, podemos perceber uma comunhão entre a natureza (physis) e o homem. O grego percebe o "kosmos" como harmonia, equilíbrio, sábia organização; cabendo ao ser-humano manifestar sua "humanidade" a partir de suas vocações, ou virtudes, neste grande "quebra-cabeça" cosmológico. Segundo o Prof. Olinto (UFRJ), o pensamento estóico é fortemente marcado pela idéia de que devemos nos "reconciliar" com o mundo natural aceitando, conscientemente, uma existência "necessária". A liberdade, nesta perspectiva, consistiria em se submeter às leis da natureza. Embora Aristóteles não compartilhe de uma concepção imutável da "natureza" humana, o estagirita é um dos representantes de uma visão de "physis" como auto-suficiente e em perfeito equilíbro. No texto que segue, a pensadora francesa Anne Cauquelin nos transmite com clareza esta ideia:


"Ele é ecólogo, mas de modo algum ecologista, a natureza se vira muito bem sozinha. Mais do que isso, ela nos governa, e seria bastante pretensioso querer socorrê-la, um erro lógico, uma deturpação dos princípios, até um pecado do coração. 

Ele esta nos antípodas da ecologia moderna, que vê por toda a parte carência, degradação, decadência e catástrofes em série, dizendo: "É preciso sustentar o planeta Terra, acalenta-lo com cuidados atentos”, "cabe a nós, humanos zelar por ele, senão pereceremos com ele, por falta de subsistência”, e disfarçando mal uma angústia milenarista que não ousa dizer seu nome, multiplicando as latas de lixo, enterrando os detritos, sonhando com uma "grande saúde", com uma limpeza levada ao fanatismo. Somos responsáveis pela sobrevivência de Gaia? […] Essas questões que agitam a nossa época, e as quais se mistura uma certa política, não dizem nada a Aristóteles. Ele as julgaria sem fundamento, absolutamente desprovidas de sentido. 

Falta de confiança na força da vida, diria ele. Ataque de febre maligna, que envenena a fonte do sentimento, tão forte em Aristóteles, de uma finalidade natural, essa espécie de maravilhamento diante dos fenômenos, dos mais humildes aos mais estranhos nossa razão, que o biólogo descobre funcionando nos processos da vida.

Ele vê a natureza como um organismo que se auto-reproduz repara-se a si mesmo, jogando com a analogia para adaptar-se, tendendo sempre para a economia. No fundo, a natureza é gramática lógica. Mulher e mãe, avó, seu trabalho é a arrumação: ela guarda aqui, as coisas que combinam; ela guarda os homens na gaveta “animais”, com algumas especificações, assim como arruma seus potes de geléia e suas preciosidades em armários cuidadosamente organizados. O chifre com o chifre, os membros com os membros cada órgão com sua função. As asas dos pássaros são nadadeiras nos peixes, com as quais eles se deslocam no elemento aquoso. Não semelhantes mas análogos. Cumprindo a mesma função. O que o ar é para o pássaro, o mar é para o peixe.