dualismo

A negação de um dualismo em Platão - António Pedro Mesquita

Extrato do livro de António Pedro Mesquita, RELER PLATÃO, Imprensa Nacional, Portugal. Neste trecho podemos entender a negação de qualquer dualidade ou dualismo no pensamento platônico. Para o autor, existe, na verdade, uma ilusão de multiplicidade que nosso olhar separador impõe sobre o UM, este sim a única realidade, a «unidade». 
 
"Assim, nesta primeira acepção, não existe verdadeira dualidade na separação platônica, uma vez que só a ideia é, realmente, o ser; o que existe é uma dualidade de «visadas», uma real, porque vê, e outra aparente, porque só vê a aparência, ou, o que é o mesmo, porque só na aparência vê.
 
A irredutibilidade dos «mundos» platônicos funda-se, deste modo, numa paradoxal diferença, qual é a diferença da coisa consigo mesma, e a separação ontológica não é senão a separação interna da coisa relativamente ao seu próprio ser. Nesta medida, nenhum sentido poderia fazer aqui o vocabulário da transcendência e da imanência, pois que as ideias são a um tempo «transcendentes» e «imanentes» — abissalmente outras e infinitesimalmente mesmas, como há pouco dissemos —, ou, melhor ainda, não são nem «transcendentes» nem «imanentes», porque estes termos sobrepõem já uma distinção artificial à única verdadeira diferença, qual é a diferença, onticamente indistinguível, entre o «ente» e o «ser», entre a «aparência» e a «realidade», entre o que «aparece» e o que «é». A relação entre as ideias e os particulares não é, portanto, uma relação de transcendência nem de imanência, porque não é uma relação entre duas entidades; e, pela mesma razão, não é, em sentido literal, uma relação de separação, mas uma relação de «encobrimento/descobrimento», pela qual a ideia se vê ocultada pelo particular que a «imita» e o particular se vê anulado no seu específico carácter ôntico e reposto na sua intrínseca condição fundamental, quando visto através da ideia."