Filosofia da Ciência

A ciência como ameaça

Vera Portocarrero

"Temos assistido nos últimos anos a um debate sobre os diversos aspectos que constituem o que se compreende por ciência. Toma-se como ponto de partida a necessidade de repensar o otimismo cientificista, acirrado no século XIX, com o positivismo, pelo ideal de unidade, objetividade, progresso, e, sobretudo, pela noção de verdade científica como bem social. Supõe-se clara a meta de compreender a ciência, entender sua evolução, sondar suas origens, abordar suas crises, denunciar seu caráter de violência e de dominação da natureza e dos homens. Seu maior desafio agora não é dominar, mas salvaguardar o mundo. A ciência é hoje uma questão que preocupa cientistas e intelectuais, apresentando-se-nos, talvez pela primeira vez, desde Galileu, não mais apenas como adjuvante do trabalho, da saúde e das luzes, mas como risco. Já não se discutem as revoluções científicas restingindo-as a seu caráter metodológico, como se os cientistas fossem os trabalhadores da prova strito sensu, os trabalhadores meticulosos da boa consciência. Considera-se a ciência uma das maiores fontes de patologia e mortalidade do mundo contemporâneo, sobretudo depois da grande guerra. Enfatiza-se sua constituição ética e social, seja para desmitificar sua pretensão à neutralidade, seja para apontar o perigo que representa e a responsabilidade política de que deve estar investida. A ciência é apresentada como uma importante forma de poder, sobretudo em sua relação com a alta tecnologia que hoje conhecemos."

 

"Filosofia, História e Sociologia das Ciências"

 

A ciência moderna procede da idealização

"A ciência moderna procede da idealização, quer dizer da determinação segundo a exatidão matemática, de tudo o que no mundo da vida, a Lebenswelt, permanece irredutivelmente imerso no flou eidético, na indeterminabilidade ao menos relativa mas sempre indefinidamente aberta dos seres e das coisas. Esta idealização que procede de alguma maneira da hipótese do espaço e do tempo como parâmetros imutáveis, passa de pronto pela «geometrização» do mundo natural, para se prolongar na «matematização», em direito integral, da natureza. Tal é, segundo a Krisis, o espírito galileano, ao qual o espírito cartesiano aporta uma espécie de comutador metafísico pela concepção da dualidade do pensamento e da extensão, entendamos, em termos que já não são mais aqueles de Descartes, o dualismo do que é matematizável, logo objetivo, segundo o método matemático da física de inspiração galileana, e do que parece aí escapar, mas sempre sob reserva de investigações científicas mais precisas, sob a forma da alma ou da subjetividade. Assim sendo, é por isto que Husserl denominava por «substrução» o campo idealizado das objetividades matemáticas que tende a se substituir ao mundo natural, quer dizer a esvaziá-lo de seu sentido, este não se encontrando mais senão nas operações lógico-matemáticas e no sujeito operador da ciência, considerado todo poderoso, «mestre e possuidor da natureza». Toda questão do sentido que não será mais regrada pelo método matemático se torna por aí ilegítima, rejeitada na zona flou do não ainda conhecido e do irracional. O dualismo de inspiração cartesiana é tal que a alma ou a subjetividade, espécie de reduto para as questões de senso, se encolhe como uma ameixa."
 
(Marc Richir, "Science et phénoménologie")
 

Entrevista - Isabelle Stengers

A representação de um fenômeno científico é uma invenção política.
Entrevista com Isabelle Stengers
 
A reportagem e a entrevista são de Roberto Ciccarelli e publicadas no jornal Il Manifesto, 23-09-2008. A tradução é de Benno Dischinger.
 
“A ciência – afirma Stengers – tende a eliminar o conflito que a opõe ao real em nome de uma política da lei e da ordem. Para entendê-lo, basta ler A estrutura das revoluções científicas de Thomas Kuhn: o que a ciência moderna ensina aos cientistas é resolver problemas “normais”, quebra-cabeças, para depois passar a outro “paradigma”. O problema é, ao invés, o modo pelo qual os cientistas encaram os fenômenos, o modo pelo qual a ciência declara “real” um fenômeno mais do que outro, o modo pelo qual uma prática é definida como “científica” com respeito a outra prática julgada “não científica”. A representação de um fenômeno científico é uma invenção política. Para mim, esta invenção interessa na medida em que não se coloca num horizonte no qual é preciso garantir uma ordem e uma hierarquia entre a realidade com respeito à imaginação, entre o que é o que deveria ser”.

Ciência, Kierkegaard e verdade

"The old scientific ideal of episteme — of absolutely certain, demonstrable knowledge—has proved to be an idol. The demand for scientific objectivity makes it inevitable that every scientific statement must remain tentative for ever. It may indeed be corroborated, but every corroboration is relative to other statements which, again, are tentative."

(K. Popper, The Logic of Scientific Discovery)

Atualmente a ciência permeia nossas vidas como língua franca, como padrão de racionalidade. Se uma simples pasta de dente, conforme sua propaganda, foi desenvolvida após anos de pesquisas científicas, não há qualquer dúvida de sua qualidade, de sua competência para os fins a que se destina. A mise en-scène do comercial, com pessoas de aventais brancos em uma espécie de laboratório, declarando a pasta de dente como resultado de inúmeras pesquisas só serve para legitimar ainda mais a força do científico em nossa sociedade. O pensador brasileiro Rubem Alves (1933-2014) transcreveu a passagem abaixo, do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813 - 1855), em seu livro "Filosofia da Ciência". O objetivo era destacar esta "insinuação" científica de conhecer a realidade em toda a sua plenitude, uma reivindicação incompatível, segundo Rubem Alves, com as possibilidades do método científico cujos propósitos se resumem a busca de fatos que comprovem ou neguem as suas teorias ou, nas palavras do próprio autor uma abordagem sobre a realidade onde o fato "só tem significação na medida em que acrescenta ou diminui a plausibilidade de uma teoria". O discurso científico se pretende verdadeiro na medida em que acredita representar a realidade tal qual ela é. Rubem Alves diria ser impossível reproduzir fidedignamente o "relógio" sem jamais abrí-lo. O que a ciência nos pede aqui, afinal, é um ato de fé...

"Se um dançarino desse saltos muito altos, poderíamos admirá-lo. Mas se ele tentasse dar a impressão de poder voar, o riso seria seu merecido castigo, mesmo se ele fosse capaz, na verdade, de saltar mais alto que qualquer outro dançarino. Saltos são atos de seres essencialmente terrestres, que respeitam a força gravitacional da Terra, pois que  o salto é algo momentâneo. Mas o vôo nos faz lembrar os seres emancipados das condições telúricas, um privilégio reservado para as criaturas aladas..."

(Kierkegaard, "Concluding Unscientific Postscript")

A verdade científica como um ato de fé - Rubem Alves

“O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas, e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas”.
 
(Nietzsche - Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra-Moral)
 
 
"A mesma obsessão dos gregos continua presente em nossa ciência. Que buscam os cientistas? Você poderá responder que, freqüentemente, eles estão à procura de fatos. E isto é correto. Mas quais são os fatos específicos que os preocupam? Por que fatos de um tipo e não de outro? Os cientistas só buscam os fatos que são decisivos para a confirmação ou negação de suas teorias. Fatos são, para a ciência, como testemunhas num tribunal. Em si mesmos não possuem importância alguma. Sua função se resume à confirmar ou negar as alegações da promotoria ou da defesa e isto que importa. E é disto que irá depender o réu. Um fato só tem significação na medida em que acrescenta ou diminui a plausibilidade de uma teoria. Os cientistas que fotografaram as estrelas próximas do Sol, durante um eclipse, não fotografaram pelo prazer de colecionar fotos. O que estava em jogo era a teoria da relatividade, e os fatos obtidos pelas fotografias poderiam corroborá-la ou negá-la.

A Ciência e os quadrinhos sem legenda

O texto que segue foi retirado do livro "A construção das ciências", do físico teórico Gerard Fourez. 
 
"Pode-se comparar o processo científico a um jogo para os jovens que aparece no jornal: o da história em quadrinhos sem legenda. Esse jogo apresenta desenhos para os quais se deve encontrar uma "legenda". 
 
Um jogo cheio de convenções
 
Esse jogo implica, assim como a ciência, uma atividade cultural determinada por um consenso ligado a certo grupo. Para compreender o jogo, é preciso ter "pré-compreendido" um certo número de elementos de nossa cultura, em especial a maneira pela qual as histórias em quadrinhos são escritas. Essa compreensão implica a eliminação de outras possibilidades: desse modo, quando se compreendeu o jogo e o que é um desenho impresso, eliminam-se automaticamente os elementos que não parecem "pertinentes", por exemplo, a mancha de café que pode-se juntar ao desenho.
 
Da mesma maneira, o "jogo científico" começa por eliminar uma série de elementos, como considerações de acordo com as quais "Deus achou que as margaridas eram bonitas", a cor da mesa da qual se estuda o equilíbrio, e assim por diante. Considera-se desse modo o mundo situando-o de imediato na subcultura científica. Em outras culturas, os elementos religiosos ou poéticos não serão necessariamente eliminados da observação, assim como Newton não eliminava os argumentos teológicos de sua "filosofia natural", que denominamos "física".

"...e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal"

No primeiro trecho, o mote da consagrada MIT (Massachusetts Institute of Technology). No segundo, e a propósito desta "insinuação", que assenta-se na idéia universal de que a ciência moderna e seus infalíveis métodos detém a capacidade de descortinar a realidade, a metáfora do filósofo dinamarquês Kierkegaard pode nos ajudar a melhor compreender e relativizar estas pretensões.
 
“(...) e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal.” 
Moto da comunidade científica, segundo mural do Massachusetts Institute of Technology 
 
“Se um dançarino desse saltos muito altos, poderíamos admirá-lo. Mas se ele tentasse dar a impressão de poder voar, o riso seria seu merecido castigo, mesmo se ele fosse capaz, na verdade, de saltar mais alto que qualquer outro dançarino. Saltos são atos de seres essencialmente terrestres, que respeitam a força gravitacional da Terra, pois que  o salto é algo momentâneo. Mas o vôo nos faz lembrar os seres emancipados das condições telúricas, um privilégio reservado para as criaturas aladas...” (Kierkegaard)
 
O pensador alemão Kant e o "fundador da filosofia moderna", Descartes, também refletiram sobre a dificuldade da razão humana diante dos fenômenos da realidade:
 
"a razão, assim, se aproxima da natureza não como um aluno, que ouve tudo aquilo que o professor se decide a dizer, mas como um juiz que obriga a testemunha a responder questões que ele mesmo formulou." (Kant)
 
"Entre todos os que buscam a verdade nas ciências, apenas os matemáticos encontram algumas demonstrações, isto é, algumas razões certas e evidentes." (Descartes)
 

O cientista virou um mito!

Transcrevo, logo abaixo, um trecho do livro de Rubem Alves, Filosofia da Ciência, onde o autor analisa o poder da ciência na modernidade e o nosso comportamento passivo diante das "verdades" produzidas por ela.

"Veja as imagens da ciência e do cientista que aparecem na televisão. Os agentes de propaganda não são bobos. Se eles usam tais imagens é porque eles  sabem que elas são eficientes para desencadear decisões e comportamentos. É o que foi dito antes: cientista tem autoridade, sabe sobre o que está falando e os outros devem ouvi-lo e obedecê-lo. Daí que imagem de ciência e cientista pode e é usada para ajudar a vender cigarro. Veja, por exemplo, os novos tipos de cigarro, produzidos cientificamente. E os laboratórios, microscópios e cientistas de aventais imaculadamente brancos enchem os olhos e a cabeça dos telespectadores. E há cientistas que anunciam pasta de dente, remédios para caspa, varizes, e assim por diante.

O cientista virou um mito. E todo mito é perigoso, porque ele induz o comportamento inibe o pensamento. Este é um dos resultados engraçados (e  trágicos) da ciência. Se existe uma classe especializada em pensar de maneira correta (os cientistas), os outros indivíduos são liberados da obrigação de pensar e podem simplesmente fazer o que os cientistas mandam. Quando o médico lhe dá uma receita você faz perguntas? Sabe como os medicamentos funcionam? Será que você se pergunta se o médico sabe como os medicamentos funcionam? Ele manda, a gente compra e toma. Não pensamos. Obedecemos. Não precisamos pensar, porque acreditamos que há indivíduos especializados e competentes em pensar. Pagamos para que ele pense por nós.
" (Rubem Alves, pag 7 e 8)