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Safranski: o duplo esquecimento do ser

"A obra [Ser e Tempo], de muita eficácia na sua dramaturgia, começa com uma espécie de prólogo no céu. Aparece Platão. Cita-se um trecho do diálogo Sofistas: "Pois obviamente há muito estais familiarizados com o que na verdade eu quis dizer usando a expressão ente (seiend): nós pensávamos um dia tê-la compreendido, agora porém estamos embaraçados".
 
Esse embaraço, diz Heidegger, ainda existe, mas não o admitimos a nós mesmos. Ainda não sabemos o que pensamos ao dizer que algo é ente. O prólogo queixa-se contra um duplo esquecimento do ser. Esquecemos o que é ser e também esquecemos esse esquecer. E assim trata-se de renovar a indagação pelo sentido do ser; mas como esquecemos o esquecer, trata-se sobretudo de despertar de novo a compreensão para o sentido dessa pergunta.
 
Como convém a um prólogo, já no início alude-se ao ponto para onde tudo isso converge: a interpretação do tempo como o horizonte possível de qualquer compreensão do ser. O sentido do ser é tempo. Está revelado o tema, mas para torná-lo compreensível Heidegger não precisará apenas de todo esse livro, e sim do resto de sua vida.
 
A questão do ser. Na verdade Heidegger propõe duas perguntas. Uma é: o que entendemos de verdade quando utilizamos a palavra ente? Pergunta-se pelo sentido da expressão. Nessa pergunta Heidegger liga outra bem diferente, pelo sentido do próprio ser. Heidegger afirma, quanto à pergunta em seu duplo sentido, que não existe nem mesmo uma compreensão do sentido da pergunta. Estranha afirmação.

O que é "fenômeno" - Heidegger

A tarefa que desafia o pensamento atual não tem quaisquer precedentes. E exige uma forma de pensar completamente nova. Esse novo modo de pensar é mais fácil que a filosofia convencional, mas também é mais difícil, porque exige um uso mais cuidadoso da linguagem.
 
Heidegger, "BBC - Human, All Too Human"
 
"A expressão grega, a que remonta o termo "fenômeno", significa: mostrar-se e, por isso, diz o que se mostra, o que se revela. Já em si mesmo, porém, é a forma média de trazer para a luz do dia, pôr no claro, a claridade, isto é, o elemento, o meio, em que alguma coisa pode vir a se revelar e a se tornar visível em si mesma. Deve-se manter, portanto, como significado da expressão "fenômeno" o que se revela, o que se mostra em si mesmo. "Os fenômenos" constituem, pois, a totalidade do que está à luz do dia ou se pode pôr à luz, o que os gregos identificavam, algumas vezes, simplesmente com: (os entes), a totalidade de tudo que é. Ora, o ente pode-se mostrar por si mesmo de várias maneiras, segundo sua via e modo de acesso. Há até a possibilidade de o ente mostrar-se como aquilo que, em si mesmo, ele não é. Neste modo de mostrar-se, o ente "se faz ver assim como..." Chamamos de aparecer, parecer e aparência (Scheinen) a esse modo de mostrar-se. Em grego, a expressão, "fenômeno", possui também o significado do que "se faz ver assim como", da "aparência", do que "parece e aparece"; designa um bem, que se deixa e faz ver como se fosse um bem, mas que "na realidade" não é assim como se dá e apresenta. A compreensão posterior de fenômeno depende de uma visão de como ambos os significados de fenômeno (fenômeno como o que se mostra, e fenômeno como aparecer, parecer e aparência) se interrelacionam em sua estrutura. 

O homem como ser-aí - Peter Sloterdijk (Heidegger)

"O homem é o único ser que, para existir, tem de conquistar sua própria existência, pois o existir humano não se dá num simples viver e morrer. Para o homem, a morte, assim como a vida, é sempre uma conquista. Pobre de mundo, o animal simplesmente morre, não espera pela morte, nem teme a morte, e por isso mesmo não procura superar a morte. Mas o homem é um ser do mundo, e por isso morre determinado pela conquista de sua própria existência, um empenho de superação da morte. A vida humana é mais do que sinais vitais; é sentido. Não há nada no homem que seja puramente animal. A animalidade no homem é absorvida e transformada pela sua humanidade."
 
Denise Quintão, "Ética e Responsabilidade na Vida"
 
 
 
"Heidegger oferece-se para pôr um fim à imensurável omissão do pensamento europeu - a saber, não ter levantado a questão sobre a essência do ser humano da única maneira apropriada, que, para ele, é a maneira existencial-ontológica; pelo menos o autor indica sua disposição, por mais provisórias que sejam as inflexões pelas quais a questão vem à tona, de abordá-la finalmente em sua forma correta. Com esses rodeios aparentemente modestos, Heidegger deixa expostas consequências abaladoras: o humanismo, em suas formas antiga, cristã e iluminista, é declarado responsável por uma interrupção de dois mil anos no pensamento; é censurado por ter obstruído, com suas interpretações apressadas e aparentemente evidentes e indiscutíveis da essência do ser humano, o surgimento da genuína questão sobre essa essência. Heidegger explica que sua obra a partir de Ser e tempo se volta contra o humanismo não porque este tenha sobrevalorizado a humanitas, mas porque não lhe atribuiu um valor suficientemente elevado (Ü. d. H., p. 21). Mas o que significa atribuir um valor suficientemente elevado à essência do ser humano? Significa, em primeiro lugar, renunciar a uma habitual e errônea subestimação. A questão sobre a essência do ser humano não entra no rumo certo até que nos afastemos da mais velha, mais obstinada e mais perniciosa das práticas da metafísica europeia: definir o ser humano como animal rationale. Nessa interpretação da essência do homem, este continua a ser entendido como uma animalitas expandida por adições espirituais. Contra isso revolta-se a análise existencial-ontológica de Heidegger, pois, para ele, a essência do ser humano não pode jamais ser expressa em uma perspectiva zoológica ou biológica, mesmo que a ela se acresça regularmente um fator espiritual ou transcendente.