ser

Safranski: o duplo esquecimento do ser

"A obra [Ser e Tempo], de muita eficácia na sua dramaturgia, começa com uma espécie de prólogo no céu. Aparece Platão. Cita-se um trecho do diálogo Sofistas: "Pois obviamente há muito estais familiarizados com o que na verdade eu quis dizer usando a expressão ente (seiend): nós pensávamos um dia tê-la compreendido, agora porém estamos embaraçados".
 
Esse embaraço, diz Heidegger, ainda existe, mas não o admitimos a nós mesmos. Ainda não sabemos o que pensamos ao dizer que algo é ente. O prólogo queixa-se contra um duplo esquecimento do ser. Esquecemos o que é ser e também esquecemos esse esquecer. E assim trata-se de renovar a indagação pelo sentido do ser; mas como esquecemos o esquecer, trata-se sobretudo de despertar de novo a compreensão para o sentido dessa pergunta.
 
Como convém a um prólogo, já no início alude-se ao ponto para onde tudo isso converge: a interpretação do tempo como o horizonte possível de qualquer compreensão do ser. O sentido do ser é tempo. Está revelado o tema, mas para torná-lo compreensível Heidegger não precisará apenas de todo esse livro, e sim do resto de sua vida.
 
A questão do ser. Na verdade Heidegger propõe duas perguntas. Uma é: o que entendemos de verdade quando utilizamos a palavra ente? Pergunta-se pelo sentido da expressão. Nessa pergunta Heidegger liga outra bem diferente, pelo sentido do próprio ser. Heidegger afirma, quanto à pergunta em seu duplo sentido, que não existe nem mesmo uma compreensão do sentido da pergunta. Estranha afirmação.

Pasqua: a questão do ser em Heidegger

"Toda investigação compreende um objeto questionado e um sujeito questionante. Isso quer dizer que pôr uma questão do ser supõe o ser já acessível de certa maneira. Mas investigarias se tu já não tivesses encontrado? perguntava Pascal. Em nos demandando o que o ser "é" não nos encontramos, com efeito, diante de uma compreensão prévia do "é", embora sem saber justamente o que significa? "O que é investigado na questão do ser, não é absolutamente desconhecido, embora seja de prima certamente inapreensível". Tal é o paradoxo de toda investigação e que Platão tinha formulado no Menon: como buscar o que não conhecemos? Nós já os conheceríamos.
 
O que permite a Heidegger de levantar este paradoxo é a distinção entre o ser e o ente: "Na questão que temos a elaborar, o questionado é o ser, o que determina o ente como ente, o em direção de que o ente qualquer que seja a explicação, é cada vez já entendido. O ser do ente não é ele mesmo um ente." Esta distinção nos evitará fazer história em lugar de fazer ontologia. É preciso evitar com efeito de explicar o ente remontando a um outro ente como se o ser tivesse o caráter de um ente. Cabe ao ente responder de seu ser. Nós não demandamos: que sorte de coisa é um ente, mas: que significa ser para ele? Uma investigação sobre o ente é distinta de uma investigação sobre o ser do ente. Esta última deve ter a prioridade.
 
Notemos aqui: Heidegger fala do "ser do ente" não do ser simplesmente: "Na medida que o ser quer dizer o ser do ente, é o ente ele mesmo que aparece como o interrogado da questão do ser". Chamamos "ente" muitas coisas e de muitas maneiras: isto de que falamos, isto que pensamos, isto a respeito de que nos comportamos e isto que somos nós mesmos e a maneira pela qual nós o somos. Quanto ao ser ele reside no "que", não o "quem", nisto que subsiste, nisto que é aí, neste ente particular que é o "Dasein". Este é o único ente capaz de se interrogar sobre seu ser. A questão do ser faz parte disto que ele é. É a partir dele que ela deve portanto se desenvolver. Nós não acederemos ao ser senão através de uma explicação do Dasein."
 
Introdução à leitura de Ser e tempo de Martin Heidegger (vs francesa: 1993, p.14-15)
 
 
 

A questão do sentido do ser - Heidegger

"Ao longo de sua história, a filosofia ocidental preocupou-se sempre com o Ser, de modo que seria razoável esperar que, de há muito, estivéssemos familiarizados com o significado desse termo. Perguntas concernentes aos predicados mais gerais do ser (categorias) ou à distinção entre o ser e o devir, a realidade e a aparência, sempre constituíram o foco de atenção e meditação da filosofia.
 
Como se explicaria, então, que Platão, um dos maiores ícones da filosofia, tenha delegado à voz de um sofista a constatação perplexa de que não estamos familiarizados com aquilo que pensamos quando empregamos a palavra "ser"? Embaraçoso é constatar que até agora acreditávamos sabê-lo, mas, em verdade, carecemos de uma explicação que nos livre da dificuldade de não compreender o que propriamente pensamos quando dizemos "ser".
 
Assim, já estaria em Platão a suspeita de que a filosofia desconhece o que é pensado sob o termo "ser" - ainda que seja o mais empregado ao longo de sua história. Escândalo e pasmo, portanto, uma pedra de tropeço. Ser e tempo é uma das tentativas mais radicais da filosofia contemporânea para retomar essa pergunta em toda sua envergadura. Saberíamos nós o que Platão confessava desconhecer? A resposta de Heidegger é: não, de modo algum.

O fim da Filosofia - Heidegger

"Em que medida entrou a Filosofia, na época presente, em seu estágio final? Filosofia é Metafísica. Esta pensa o ente em sua totalidade — o mundo, o homem, Deus — sob o ponto de vista do ser, sob o ponto de vista da recíproca imbricação do ente e ser. A Metafísica pensa o ente enquanto ente ao modo da representação fundadora. Pois o ser do ente mostrou-se, desde o começo da Filosofia, e neste próprio começo, como o fundamento (arché, aítion, princípio). Fundamento é aquilo de onde o ente como tal, em seu tornar-se, passar e permanecer, é aquilo que é e como é, enquanto cognoscível, manipulável e transformável. O ser como fundamento leva o ente a seu presentar-se adequado. O fundamento manifesta-se como sendo presença. Seu presente consiste em produzir para a presença cada ente que se presenta a seu modo particular. O fundamento, dependendo do tipo de presença, possui o caráter do fundar como causação ôntica do real, como possibilitação transcendental da objetividade dos objetos, como mediação dialética do movimento do espírito absoluto, do processo histórico de produção, como vontade de poder que põe valores. 
 
O elemento distintivo do pensamento metafísico, elemento que erige o fundamento para o ente, reside no fato de, partindo do que se presenta, representar a este em sua presença e assim o apresentar como fundado desde o seu fundamento.
 
Que dizemos nós quando falamos do fim da Filosofia? Temos a tendência de compreender o fim de algo em sentido negativo como a pura cessação, como a cessação de um processo, quando não como ruína e impotência. Pelo contrário, quando falamos do fim da Filosofia queremos significar o acabamento da Metafísica. Acabamento não quer dizer, no entanto, plenitude no sentido que a Filosofia deveria ter atingido, com seu fim, a suprema perfeição. Falta-nos não apenas qualquer medida que permitisse estimar a perfeição de uma época da Metafísica em comparação a outra. Não há mesmo nada que possa justificar tal maneira de proceder. O pensamento de Platão não é mais perfeito que o de Parménides. A Filosofia hegeliana não é mais perfeita que a de Kant. Cada época da Filosofia possui sua própria necessidade. Que uma Filosofia seja como é, deve ser simplesmente reconhecido. Não nos compete preferir uma a outra, como é possível quando se trata das diversas visões do mundo.

O humanismo de Sartre

"O humanismo sartriano. O homem é o lugar de uma dupla relação entre o Ser e o Nada. Num sentido, o nada não é nada e só pode vir a ser objeto sob a condição de estar inserido no Ser e, neste sentido, o Ser é primeiro; mas, num outro sentido, o Ser não pode ser primeiro, deve referir-se à consideração de um pensamento, à reformulação de um testemunho que, ele sim, é primeiro. O Ser tem necessidade do Nada para vir ao mundo, e reciprocamente. Essa dupla relação define o Ser e ela não é suscetível de trabalho, de fecundidade, de mediação. Seja o que for que advenha das relações do Ser e do Nada, o objeto permanece ser e o testemunho nada. O homem aparece numa situação impossível, ele é paixão vã, "paixão inútil". Paixão, porque ele é obcecado pelo desejo do Ser, porque aquilo que nele é ipseidade tem necessidade de se preencher, porque o Nada desejaria escapar de si mesmo fartando-se de coisas; mas paixão vã, porque nunca um poderá vir a ser o outro. Seja o que for que o homem faça, será sempre um fracasso. Não há diferença entre beber uma xícara de café e ser um condutor de povos. Depois, Sartre colocou sua filosofia sob uma outra luz. Se aquilo a que se chama sucesso é, na realidade, sempre um fracasso, se Rembrandt fracassa sempre, a coisa pode inverter-se. Para além da esperança começa o imenso campo dos empreendimentos, da ação verdadeira, diria Sartre. O sujeito engaja-se totalmente porque, sendo nada, precisa caminhar em direção ao mundo, onde tudo é interessante. Mas esse engajamento é imotivado e nunca é inteiramente efetivo porque, no fundo, não existe uma diferença tão grande assim entre uma filosofia que vincula o homem ao exterior e uma filosofia que o desliga por completo disso."

(Merleau-Ponty, A Natureza)