Sartre. humanismo

O humanismo de Sartre

"O humanismo sartriano. O homem é o lugar de uma dupla relação entre o Ser e o Nada. Num sentido, o nada não é nada e só pode vir a ser objeto sob a condição de estar inserido no Ser e, neste sentido, o Ser é primeiro; mas, num outro sentido, o Ser não pode ser primeiro, deve referir-se à consideração de um pensamento, à reformulação de um testemunho que, ele sim, é primeiro. O Ser tem necessidade do Nada para vir ao mundo, e reciprocamente. Essa dupla relação define o Ser e ela não é suscetível de trabalho, de fecundidade, de mediação. Seja o que for que advenha das relações do Ser e do Nada, o objeto permanece ser e o testemunho nada. O homem aparece numa situação impossível, ele é paixão vã, "paixão inútil". Paixão, porque ele é obcecado pelo desejo do Ser, porque aquilo que nele é ipseidade tem necessidade de se preencher, porque o Nada desejaria escapar de si mesmo fartando-se de coisas; mas paixão vã, porque nunca um poderá vir a ser o outro. Seja o que for que o homem faça, será sempre um fracasso. Não há diferença entre beber uma xícara de café e ser um condutor de povos. Depois, Sartre colocou sua filosofia sob uma outra luz. Se aquilo a que se chama sucesso é, na realidade, sempre um fracasso, se Rembrandt fracassa sempre, a coisa pode inverter-se. Para além da esperança começa o imenso campo dos empreendimentos, da ação verdadeira, diria Sartre. O sujeito engaja-se totalmente porque, sendo nada, precisa caminhar em direção ao mundo, onde tudo é interessante. Mas esse engajamento é imotivado e nunca é inteiramente efetivo porque, no fundo, não existe uma diferença tão grande assim entre uma filosofia que vincula o homem ao exterior e uma filosofia que o desliga por completo disso."

(Merleau-Ponty, A Natureza)