mitologia

Do mito à Filosofia - Rodrigo Siqueira-Batista

"Mas, então, como germinou, no húmus mito-poético, a filosofia? Um bom ponto de partida seria a constatação de que, em um momento bastante anterior ao surgimento do pensamento filosófico, torna-se identificável um mito já secularizado, o que gerou diferentes conseqüências como apontado por M. Eliade:
 
Em nenhuma outra parte vemos, como na Grécia, o mito inspirar e guiar não só a poesia épica, a tragédia e a comédia, mas também as artes plásticas; por outro lado, a cultura grega foi a única a submeter o mito a uma longa e penetrante análise, da qual ele saiu radicalmente “desmitizado”. A ascensão do racionalismo jônico coincide com uma crítica cada vez mais corrosiva da mitologia “clássica”, tal qual é expressa nas obras de Homero e Hesíodo. Se em todas as línguas européias a palavra “mito” denota “ficção”, é porque os gregos o proclamaram há vinte e cinco séculos.
 
Estas colocações dão margem à identificação, no curso da filosofia grega, da referida desmitificação que se insinua ainda antes do brotamento desta nova razão, tendo sido igualmente capaz de caminhar em paralelo com o pensamento filosófico. Mas isto, por si só, não foi suficiente. A transição do mito para a filosofia não pode ser compreendida simploriamente como um esmaecimento das narrativas míticas ou como simples dessacralização da religião, mesmo porque o mito permanece presente, de certo modo, nas formulações filosóficas ulteriores:
 
O início da filosofia não coincide, assim, nem com o princípio do pensamento racional nem com o fim do pensamento mítico. Mitogonia autêntica ainda encontramos na filosofia de Platão e na de Aristóteles. São exemplos o mito da alma em Platão, e, em Aristóteles, a idéia do amor das coisas pelo motor imóvel do mundo. (Jaeger, "Paideia: a formação do homem grego")