Prometeu

Prometeu e Epimeteu: a origem da astúcia

“Houve um tempo em que só havia deuses, sem que ainda existissem criaturas mortais. Quando chegou o momento determinado pelo Destino, para que estas fossem criadas, os deuses as plasmaram nas entranhas da terra, utilizando-se de uma mistura de ferro e de fogo, acrescida dos elementos que ao fogo e à terra se associam. Ao chegar o tempo certo de tirá-los para a luz, incumbiram Prometeu e Epimeteu de provê-los do necessário e de conferir-lhes as qualidades adequadas a cada um. Epimeteu, porém, pediu a Prometeu que deixasse a seu cargo a distribuição. Depois de concluída, disse ele, farás a revisão final. Tendo alcançado o seu assentimento, passou a executar o plano.
 
Nessa tarefa, a alguns ele atribuiu força sem velocidade, dotando de velocidade os mais fracos; a outros deu armas; para os que deixara com natureza desarmada, imaginou diferentes meios de preservação; os que vestiu com pequeno corpo, dotou de asas, para fugirem, ou os proveu de algum refúgio subterrâneo; os corpulentos encontravam salvação nas próprias dimensões. Destarte agiu com todos, aplicando sempre o critério de compensação. Tomou essas precauções, para evitar que alguma espécie viesse a desaparecer.
 
Depois de haver providenciado para que não se destruíssem reciprocamente, excogitou os meios de protegê-los contra as estações de Zeus, dotando-os de pelos abundantes e pele grossa, suficientes para defendê-los do frio ou adequados para tornar mais suportável o calos, ao mesmo tempo que servissem a cada um de cama natural, quando sentissem necessidade de deitar-se. Alguns dotou de cascos nos pés; outros, de garras, e outros, ainda, de peles calosas e desprovidas de sangue. De seguida, determinou para todos eles alimentos variados, de acordo com a constituição de cada um; a estes, erva do solo; a outros, frutos das árvores; a terceiros, raízes, e a alguns, ainda, até mesmo outros animais como alimento, limitando, porém, a capacidade de reprodução daqueles, ao mesmo tempo que deixava prolíficas suas vítimas, para assegurar a conservação da espécie.

Ao homem o ser ... e mais nada!


"PROMETHEUS - And in addition to hope, I gave them fire.
CHORUS - [...] Do they have fire now?
PROMETHEUS - They do. And with it they will soon master many arts."
 
(Aeschylus, "Prometheus Bound")
 
No texto que acompanha esta reflexão, retirado da obra clássica de J. J. Rousseau "Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens", o autor investiga a natureza humana trazendo à tona uma questão antiga no pensamento filosófico e que pode ser sintetizada na simples pergunta "qual a diferença entre o homem e o animal?". Os desdobramentos das considerações de Rousseau são tantos quanto o vôo do pensamento permitir, e aqui aponto para uma: visto que o autor reconhece que ao homem foi dada a qualidade de "agente livre", ou seja, a capacidade de "ser" além da própria natureza, quais as implicações desta constatação para a reflexão moral?
 
Uma das primeiras observações possíveis e evidentes seria a impossibilidade de imputar às ações dos animais, por exemplo, uma valoração moral, ou seja, a filosofia moral não se aplica nestas relações, digamos, da "natureza" e, neste sentido, é impensável julgar o leão que caça sua presa, o João de Barro que faz das árvores sua morada ou o urso Polar, cuja as pequenas focas são sua refeição predileta. É interessante conceber que, em se trantando de animais, seus predicados já estão postos pelo instinto sendo estes a única coisa de que necessitam para viver. É impensável ao animal se abrir às inúmeras possibilidades do real e "deliberar" diante das alternativas que se apresentam pelo simples motivo de que a resposta já estava dada de antemão, ou seja, ele age da única forma que poderia agir e como sugere Rousseau "é assim que um pombo morre de fome perto de uma vasilha cheia das melhores carnes [...]".
 
Ao homem, no entanto, recai este "fardo". Se, por um gracejo de Epimeteu, nossa "natureza" física é acanhada se comparada aos demais seres que nos cercam, à humanidade foi dado o "fogo", uma clara referência à nossa "iluminação" racional. Nosso "presente" Prometéico nos permitiu um aperfeiçoamento constante diante das "circunstâncias" que vivemos, permitindo assim, um afastamento "da regra que nos é prescrita", mesmo que para nosso prejuízo, como afirmou Rousseau. Fato é que, nos reconhecemos livres e capazes de deliberar entre isto ou aquilo, e é exatamente por nossa capacidade de "escolher" que somos fadados à responsabilidade "moral" dos atos e fatos que experienciamos.