vontade

Hannah Arendt: razão x desejo

A Vida do Espírito
Hannah Arendt
 
"Na linha dessas reflexões, começaremos por nos perguntar como a filosofia grega lidou com fenômenos e dados da experiência humana que nossas "convenções" pós-clássicas acostumaram-se a atribuir à Vontade como fonte principal da ação. Para tal, voltamo-nos para Aristóteles, e isso por duas razões. Há, em primeiro lugar, o simples fato histórico da influência decisiva que a análise aristotélica da alma exerceu sobre todas as filosofias da Vontade — exceto no caso de São Paulo, que, como veremos, contentava-se com simples descrições e recusava-se a "filosofar" sobre suas experiências. Há, em segundo lugar, o fato não menos indubitável de que nenhum outro filósofo grego chegou tão perto de reconhecer a estranha lacuna de que falamos na língua e no pensamento grego, e pode, portanto, servir como um primeiro exemplo de como certos problemas psicológicos podiam ser resolvidos antes de a Vontade ser descoberta como uma faculdade autônoma do espírito.
 
O ponto de partida das reflexões de Aristóteles sobre o assunto é o insight antiplatônico de que a razão por si só não move coisa alguma. A questão, portanto, que orienta sua investigação é a seguinte: "O que é que, na alma, origina o movimento?" Aristóteles admite a noção platônica de que a razão dá ordens (keleuei) porque sabe o que se deve buscar e o que se deve evitar, mas nega que essas ordens sejam necessariamente obedecidas. O homem incontinente (seu exemplo paradigmático ao longo de toda essa investigação) segue seus desejos independentemente das ordens da razão. Por outro lado, por recomendação da razão, pode-se resistir a esses desejos. Logo, tampouco os desejos têm uma força inerente em si: por si sós, não originam movimento. Aqui Aristóteles está lidando com um fenômeno que, mais tarde, depois da descoberta da Vontade, aparece como a distinção entre vontade e inclinação. A distinção vem a tornar-se a pedra angular da ética kantiana, mas aparece primeiramente na filosofia medieval—por exemplo, na distinção de Mestre Eckhart entre "a inclinação para pecar e a vontade de pecar, não sendo a inclinação um pecado", o que deixa a própria questão dos atos maus completamente sem explicação: "Se nunca fiz o mal, mas apenas tive a vontade do mal... trata-se de um pecado tão grande quanto matar todos os homens, embora eu não tenha feito nada."

Ao homem o ser ... e mais nada!


"PROMETHEUS - And in addition to hope, I gave them fire.
CHORUS - [...] Do they have fire now?
PROMETHEUS - They do. And with it they will soon master many arts."
 
(Aeschylus, "Prometheus Bound")
 
No texto que acompanha esta reflexão, retirado da obra clássica de J. J. Rousseau "Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens", o autor investiga a natureza humana trazendo à tona uma questão antiga no pensamento filosófico e que pode ser sintetizada na simples pergunta "qual a diferença entre o homem e o animal?". Os desdobramentos das considerações de Rousseau são tantos quanto o vôo do pensamento permitir, e aqui aponto para uma: visto que o autor reconhece que ao homem foi dada a qualidade de "agente livre", ou seja, a capacidade de "ser" além da própria natureza, quais as implicações desta constatação para a reflexão moral?
 
Uma das primeiras observações possíveis e evidentes seria a impossibilidade de imputar às ações dos animais, por exemplo, uma valoração moral, ou seja, a filosofia moral não se aplica nestas relações, digamos, da "natureza" e, neste sentido, é impensável julgar o leão que caça sua presa, o João de Barro que faz das árvores sua morada ou o urso Polar, cuja as pequenas focas são sua refeição predileta. É interessante conceber que, em se trantando de animais, seus predicados já estão postos pelo instinto sendo estes a única coisa de que necessitam para viver. É impensável ao animal se abrir às inúmeras possibilidades do real e "deliberar" diante das alternativas que se apresentam pelo simples motivo de que a resposta já estava dada de antemão, ou seja, ele age da única forma que poderia agir e como sugere Rousseau "é assim que um pombo morre de fome perto de uma vasilha cheia das melhores carnes [...]".
 
Ao homem, no entanto, recai este "fardo". Se, por um gracejo de Epimeteu, nossa "natureza" física é acanhada se comparada aos demais seres que nos cercam, à humanidade foi dado o "fogo", uma clara referência à nossa "iluminação" racional. Nosso "presente" Prometéico nos permitiu um aperfeiçoamento constante diante das "circunstâncias" que vivemos, permitindo assim, um afastamento "da regra que nos é prescrita", mesmo que para nosso prejuízo, como afirmou Rousseau. Fato é que, nos reconhecemos livres e capazes de deliberar entre isto ou aquilo, e é exatamente por nossa capacidade de "escolher" que somos fadados à responsabilidade "moral" dos atos e fatos que experienciamos.