cartesiano

Penso, logo sou!

"Mais tarde, ao analisar com atenção o que eu era, e vendo que podia presumir que não possuía corpo algum e que não havia mundo algum, ou lugar onde eu existisse, mas que nem por isso podia supor que não existia; e que, ao contrário, pelo fato mesmo de eu pensar em duvidar da verdade das outras coisas, resultava com bastante evidência e certeza que eu existia [...]"
 
(Descartes, Discurso do Método)
 
 
"NÃO ESTOU SEGURO se deva falar-vos a respeito das primeiras meditações que aí realizei; já que por serem tão metafísicas e tão incomuns, é possível que não serão apreciadas por todos. Contudo, para que seja possível julgar se os fundamentos que escolhi são suficientemente firmes, vejo-me, de alguma forma, obrigado a falar-vos delas. Havia bastante tempo observara que, no que concerne aos costumes, é às vezes preciso seguir opiniões, que sabemos serem muito duvidosas, como se não admitissem dúvidas, conforme já foi dito acima; porém, por desejar então dedicar-me apenas a pesquisa da verdade, achei que deveria agir exatamente ao contrário, e rejeitar como totalmente falso tudo aquilo em que pudesse supor a menor dúvida, com o intuito de ver se, depois disso, não restaria algo em meu crédito que fosse completamente incontestável. Ao considerar que os nossos sentidos às vezes nos enganam, quis presumir que não existia nada que fosse tal como eles nos fazem imaginar. E, por existirem homens que se enganam ao raciocinar, mesmo no que se refere às mais simples noções de geometria, e cometem paralogismos, rejeitei como falsas, achando que estava sujeito a me enganar como qualquer outro, todas as razões que eu tomara até então por demonstrações. E, enfim, considerando que quaisquer pensamentos que nos ocorrem quando estamos acordados nos podem também ocorrer enquanto dormimos, sem que exista nenhum, nesse caso, que seja correto, decidi fazer de conta que todas as coisas que até então haviam entrado no meu espírito não eram mais corretas do que as ilusões de meus sonhos. Porém, logo em seguida, percebi que, ao mesmo tempo que eu queria pensar que tudo era falso, faziase necessário que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, ao notar que esta verdade: eu penso, logo existo, era tão sólida e tão correta que as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de lhe causar abalo, julguei que podia considerá-la, sem escrúpulo algum, o primeiro princípio da filosofia que eu procurava.
 
Mais tarde, ao analisar com atenção o que eu era, e vendo que podia presumir que não possuía corpo algum e que não havia mundo algum, ou lugar onde eu existisse, mas que nem por isso podia supor que não existia; e que, ao contrário, pelo fato mesmo de eu pensar em duvidar da verdade das outras coisas, resultava com bastante evidência e certeza que eu existia [...]"
 
Descartes, "Discurso sobre o Método"
 

Algo pensa em mim!

Texto retirado do livro "Beyond Good and Evil" (Nietzsche):
 
"As far as the superstitions of the logicians are concerned: I will not stop emphasizing a tiny little fact that these superstitious men are loath to admit: that a thought comes when “it” wants, and not when “I” want. It is, therefore, a falsification of the facts to say that the subject “I” is the condition of the predicate “think.” It thinks: but to say the “it” is just that famous old “I” – well that is just an assumption or opinion, to put it mildly, and by no means an “immediate certainty.” In fact, there is already too much packed into the “it thinks”: even the “it” contains an interpretation of the process, and does not belong to the process itself. People are following grammatical habits here in drawing conclusions, reasoning that “thinking is an activity, behind every activity something is active, therefore –.” Following the same basic scheme, the older atomism looked behind every “force” that produces effects for that little lump of matter in which the force resides, and out of which the effects are produced, which is to say: the atom. More rigorous minds finally learned how to make do without that bit of “residual earth,” and perhaps one day even logicians will get used to making do without this little “it” (into which the honest old I has disappeared)."