virtude

Aristóteles - por uma vida boa

The selfish, they're all standing in line.. Faithing and hoping to buy themselves time.. Me, I figure as each breath goes by, I only own my mind [...] I know I was born and I know that I'll die.. The in between is mine, I am mine [...] 

The ocean is full 'cause everyone's crying.. 
The full moon is looking for friends at hightide.. The sorrow grows bigger when the sorrow's denied, I only know my mind, I am mine [...]

 
Eddie Vedder, "I Am Mine"

 

"[...] como ele era quando jovem? Não temos documentos privados desse período, mas sabemos de um belo ensaio, a Exortação à Filosofia, que ele publicou aos seus trinta e poucos anos. Esse ensaio revela uma trama bem diferente no tecido do pensamento de Aristóteles e complementa aquilo que seu testamento nos conta sobre ele.

As boas coisas de que gozamos, Aristóteles diz, como a riqueza e a saúde, não têm nenhum valor se nossa alma não for boa. Da mesma maneira como a alma é superior ao corpo, a parte racional da alma é superior à parte irracional. A melhor coisa que podemos fazer é promover o que há de melhor na melhor parte de nós, que é ser tão racional quanto possível e passar a conhecer as coisas mais importantes. Esse estado de conhecimento é uma virtude em si mesmo e traz consigo suas próprias recompensas, já que nós naturalmente gostamos de compreender as coisas. É natural e certo para nós tornarmo-nos animais racionais e, se não o fizermos, então poderemos ser homens vivos, mas não estaremos vivendo como homens; poderemos ter prazer enquanto vivermos, sem ter prazer em viver. A única maneira de realizarmos nossa natureza humana é realizar nossa natureza divina, e a mente é o elemento divino em nós; em virtude de possuirmos razão, podemos aproximar-nos do feliz estado dos deuses. "O homem destituído de percepção e de mente é reduzido à condição de uma planta; destituído tão-somente de mente é tornado um bruto; destituído de irracionalidade, mas conservando a mente, torna-se como Deus.

Sobre encontrar a sua vocação - Aristóteles

"Sendo, pois, de duas espécies a virtude, intelectual e moral, a primeira, por via de regra, gera-se e cresce graças ao ensino — por isso requer experiência e tempo; enquanto a virtude moral é adquirida em resultado do hábito, donde ter-se formado o seu nome por uma pequena modificação da palavra (hábito). Por tudo isso, evidencia-se também que nenhuma das virtudes morais surge em nós por natureza; com efeito, nada do que existe naturalmente pode formar um hábito contrário à sua natureza. Por exemplo, à pedra que por natureza se move para baixo não se pode imprimir o hábito de ir para cima, ainda que tentemos adestrá-la jogando-a dez mil vezes no ar; nem se pode habituar o fogo a dirigir-se para baixo, nem qualquer coisa que por natureza se comporte de certa maneira a comportar-se de outra.
 
Não é, pois, por natureza, nem contrariando a natureza que as virtudes se geram em nós. Diga-se, antes, que somos adaptados por natureza a recebê-las e nos tornamos perfeitos pelo hábito. Por outro lado, de todas as coisas que nos vêm por natureza, primeiro adquirimos a potência e mais tarde exteriorizamos os atos. Isso é evidente no caso dos sentidos, pois não foi por ver ou ouvir freqüentemente que adquirimos a visão e a audição, mas, pelo contrário, nós as possuíamos antes de usá-las, e não entramos na posse delas pelo uso. Com as virtudes dá-se exatamente o oposto: adquirimo-las pelo exercício, como também sucede com as artes. Com efeito, as coisas que temos de aprender antes de poder fazê-las, aprendemo-las fazendo; por exemplo, os homens tornam-se arquitetos construindo e tocadores de lira tangendo esse instrumento. Da mesma forma, tornamo-nos justos praticando atos justos, e assim com a temperança, a bravura, etc.

A virtude como uma condição imanente - Aristóteles

"Se estes assuntos, assim como a virtude e também a amizade e o prazer, foram suficientemente discutidos em linhas gerais, devemos dar por terminado o nosso programa? Sem dúvida, como se costuma dizer, onde há coisas que realizar não alcançamos o fim depois de examinar e reconhecer cada uma delas, mas é preciso fazê-las. No tocante à virtude, pois, não basta saber, devemos tentar possuí-la e usá-la ou experimentar qualquer outro meio que se nos antepare de nos tornarmos bons. Ora, se os argumentos bastassem em si mesmos para tornar os homens bons, eles teriam feito jus a grandes recompensas, como diz Teógnis, e as recompensas não faltariam. Mas a verdade é que, embora pareçam ter o poder de encorajar e estimular os jovens de espírito generoso, e preparar um caráter bem-nascido e genuinamente amigo de tudo o que é nobre para receber a virtude, eles não conseguem incutir nobreza e bondade na multidão. Porquanto o homem comum não obedece por natureza ao sentimento de pudor, mas unicamente ao medo, e não se abstém de praticar más ações porque elas são vis, mas pelo temor ao castigo. Vivendo pela paixão, andam no encalço de seus prazeres e dos meios de alcançá-los, evitando as dores que lhes são contrárias, e nem sequer fazem idéia do que é nobre e verdadeiramente agradável, visto que nunca lhe sentiram o gosto.

Que argumento poderia remodelar essa sorte de gente? É difícil, senão impossível, erradicar pelo raciocínio os traços de caráter que se inveteraram na sua natureza; e talvez nos devamos contentar se, estando presentes todas as influências capazes de nos melhorar, adquirimos alguns laivos de virtude. Ora, alguns pensam que nos tornamos bons por natureza, outros pelo hábito e outros ainda pelo ensino. A contribuição da natureza evidentemente não depende de nós, mas, em resultado de certas causas divinas, está presente naqueles que são verdadeiramente afortunados. Quanto à argumentação e ao ensino, suspeitamos de que não tenham uma influência poderosa em todos os homens, mas é preciso cultivar primeiro a alma do estudioso por meio de hábitos, tornando-a capaz de nobres alegrias e nobres aversões, como se prepara a terra que deve nutrir a semente. Com efeito, o que se deixa dirigir pela paixão não ouvirá o argumento que o dissuade; e, se o ouvir, não o compreenderá. E como persuadir a mudar de vida uma pessoa com tal disposição? Em geral, a paixão não parece ceder ao argumento, mas à força. É, portanto, uma condição prévia indispensável a existência de um caráter que tenha certa afinidade com a virtude, amando o que é nobre e detestando o que é vil."

(Aristóteles, "Ética à Nicômaco")

Sócrates e o inconformismo

"How you o athenians have been affected by my accusers I cannot tell but I know that they almost made me forget who I was so persuasively did they speak and yet they have hardly uttered a word of truth."
 
(Plato, Apology)
 
Sócrates (470/469 - 399 a.C), nascido em Atenas, é considerado por muitos o maior filósofo de toda a história do pensamento. Tudo que se sabe deste grande sábio nos foi transmitido, entre outros, por seus discípulos Platão e Xenofonte. Se o segundo, embora sem brilho e nem profundidade, nos legou o aspecto prático (moral) da filosofia socrática, foi Platão quem desenvolveu, em seus conhecidos diálogos, toda a filosofia de seu mestre. Embora seja custoso discernir o fundo socrático das especulações do genial discípulo, é lugar comum a ideia de que as primeiras obras (Lacques, Críton etc) tivessem grande influencia dos ensinamentos socráticos, característica que tende a devanecer à medida que a autonomia especulativa de Platão se desenvolve (A República, Parmênides etc). A característica mais marcante da filosofia socrática é o inconformismo com o estado das coisas, opiniões e conceitos. Ao caminhar pelas ruas de Atenas, Sócrates punha em prática sua formidável ferramenta: o método de análise conceitual. Mas em que consistia tal método? O objeto da "ciência" socrática não era o sensível, o particular, o mutável, mas sim o inteligível, o conceito que se exprime pela definição precisa daquilo que "é". Este conceito vem à tona pela dialética (ligada aos modos de conhecimento da psykhé: doxa > episteme), em um movimento indepedente da atividade do pensamento, neste sentido, Sócrates fundamentou o "inconformismo" ao negar a possibilidade de conhecimento através de "opiniões" ou "paixões".