Sócrates

A morte de Sócrates - Fédon

Nas palavras de Carlos Alberto Nunes, em sua excelente tradução bilíngue do diálogo de Fédon: "Nessas poucas palavras se resume toda a doutrinação filosófica de Sócrates-Platão, dirigida primeiramente aos atenienses, porém logo depois projetada no âmbito da incipiente cultura da Europa: mostrar aos homens o que importa fazer, na vida como na morte, para que sejam homens." SER-humano! Platão, no seu livro Fédon, assim narrou a morte de seu mestre:
 
"Depois de assim falar, levou a taça aos lábios e com toda a naturalidade, sem vacilar um nada, bebeu até à última gota. Até esse momento, quase todos tínhamos conseguido reter as lágrimas; porém quando o vimos beber, e que havia bebido tudo, ninguém mais aguentou. Eu também não me contive: chorei à lágrima viva. Cobrindo a cabeça, lastimei o meu infortúnio; sim, não era por desgraça que eu chorava, mas a minha própria sorte, por ver de que espécie de amigo me veria privado. Critão levantou-se antes de mim, por não poder reter as lágrimas. Apolodoro, que desde o começo não havia parado de chorar, pôs se a urrar, comovendo seu pranto e lamentações até o íntimo todos os presentes, com exceção do próprio Sócrates.
 
- Que é isso, gente incompreensível? Perguntou. Mandei sair as mulheres, para evitar esses exageros. Sempre soube que só se deve morrer com palavras de bom agouro. Acalmai-vos! Sede homens!
 
Ouvindo-o falar dessa maneira, sentimo-nos envergonhados e paramos de chorar. E ele, sem deixar de andar, ao sentir as pernas pesadas, deitou-se de costas, como recomendara o homem do veneno. Este, a intervalos, apalpava-lhe os pés e as pernas. Depois, apertando com mais força os pés, perguntou se sentia alguma coisa. Respondeu que não. De seguida, sem deixar de comprimir-lhe a perna, do artelho para cima, mostrou-nos que começava a ficar frio e a enrijecer. Apalpando-o mais uma vez, declarou-nos que no momento em que aquilo chegasse ao coração, ele partiria. Já se lhe tinha esfriado quase todo o baixo-ventre, quando, descobrindo o rosto – pois o havia tapado antes – disse, e foram suas últimas palavras:
 
- Critão (exclamou ele), devemos um galo a Asclépio. Não te esqueças de saldar essa dívida!
"Assim farei!", respondeu Critão. Vê se queres dizer mais alguma coisa. A essa pergunta, já não respondeu. Decorrido mais algum tempo, deu um estremeção. O homem o descobriu; tinha o olhar parado. Percebendo isso, Critão fechou-lhe os olhos e a boca.
 
Tal foi o fim do nosso amigo, Equécrates, do homem, podemos afirmá-lo, que entre todos os que nos foi dado conhecer, era o melhor e também o mais sábio e mais justo."
 
Platão, "Fédon" (117c-118a)
 
 

A contribuição do pensamento grego para a formação moral

Texto de João Cardoso de Castro
 
Muito pode se falar sobre o certo e o errado, e em nosso dia-a-dia julgamos, consciente ou inconscientemente, pessoas a nossa volta, seus hábitos e comportamentos. Quando se trata de filosofia, por sua vez, questiona-se como deveríamos viver, quais os comportamentos ideais e se existe uma disciplina filosófica que poderíamos chamá-la de prática, esta seria, sem dúvida, a Ética. Toda reflexão que pretende identificar a melhor forma de viver e conviver se articula, necessariamente, com o estudo da moral. 
 
É lugar comum a ideia de que a crise ética que vivemos nos dias de hoje tem sua origem na perda de valores e normas que, de alguma forma, vem à tona no período moderno, com o surgimento de sociedades complexas, com uma pluralidade de crenças, ideologias e comportamentos. O advento da Reforma, por exemplo, (e das inúmeras correntes protestantes oriundas deste processo) cria uma cisão no Cristianismo, que fundamentava-se como principal referência ética desde a Antiguidade. Outros sugerem que esta crise "espiritual", sem precedentes, que atinge a civilização ocidental seja fruto da irrefreável produção de bens materiais e simbólicos que, amarrados a uma visão liberal, é capaz de fazer “brotar” em nós uma ambição quase capilar por toda esta parafernália produzida.

Nietzsche e o fim da Metafísica - Oswaldo Giacóia

"A partir de muita convivência com o mesmo tema e de uma vida dedicada a isso, subitamente, como a luz nascida do fogo, brota na alma a verdade, para então crescer sozinha."
 
Platão, "Carta VII"
 
 
"Para Nietzsche, pode-se tomar a filosofia de Platão como modelo da metafísica. Esta se fundamenta numa concepção dualista do universo, estabelecendo uma oposição de valores entre duas esferas distintas da realidade ou do ser: de um lado, existe um domínio ideal, considerado como o verdadeiro mundo ou a realidade verdadeira, assim denominado por ser o plano das essências, isto é, aquilo que, em todo e qualquer fenômeno constitui sua pura forma ou conceito. Assim, por exemplo, a humanidade constitui a essência de cada ser humano particular, ou a triangularidade determina a natureza de toda e qualquer figura triangular que vemos ou traçamos. Todos os indivíduos humanos concretos são limitados e finitos, mas a humanidade é uma entidade intelectual, que em nada se altera em virtude da sucessão dos indivíduos singulares.
 
Tais formas puras, denominadas tecnicamente idéias por Platão, teriam sua origem na idéia do Bem — ou de Deus — que é a causa produtora de todas as outras idéias que são as formas gerais do universo.Tais entidades são inacessíveis a nossos órgãos dos sentidos; e imutáveis, uma vez que não estão submetidas às leis do espaço e do tempo. Por serem as responsáveis pela realidade de todo real, foram tradicionalmente denominadas realidade inteligível, em contraposição a uma segunda ordem de realidade, a realidade aparente ou sensível, que é aquela de que temos experiência ordinária. Contraposto às essências inteligíveis, o mundo sensível é tradicionalmente considerado um plano de realidade deficitária, enganosa, mera aparência ou simulacro das formas puras, que são como originais ou modelos dos quais toda realidade empírica, sensível, constitui uma cópia, necessariamente imperfeita e corruptível. E a essa realidade degradada, sujeita às condições do espaço e do tempo, que pertence nossa existência terrena e corporal.

Só sei que nada sei: a frase que Sócrates nunca disse...

No mês de fevereiro do ano de 399, Sócrates morria, condenado por seus concidadãos a tomar cicuta (veneno) aos 71 anos de idade. Diante do tribunal, foi acusado por Meleto (poeta), Anitos (político) e Lição (personagem de pouca expressão), por desvirtuar a juventude de sua época. Não podemos conhecer Sócrates diretamente, pois nada escreveu, mas através de seus discípulos, Platão e Xenofonte, ou uma sátira de sua filosofia, com Aristófanes. De forma muito reduzida, podemos dizer que tudo nele consistia em pôr os homens à prova, sobretudo de seus conceitos e verdades. No trecho abaixo, Sócrates faz sua defesa pública e é exatamente nesta passagem que atribui-se ao ateniense a frase: "só sei que nada sei", sua expressão mais famosa, no entanto, jamais dita. Se Sócrates nunca utilizou tal sentença, o que de fato ele disse? Leiamos com atenção:

"Qual vem a ser a ciência? A que é, talvez, a ciência humana. É provável que eu a possua realmente, os mestres mencionados há pouco possuem, quiçá, uma sobre-humana, ou não sei que diga, porque essa eu não aprendi, e quem disser o contrário me estará caluniando. Por favor, Atenienses, não vos amotineis, mesmo que eu vos pareça dizer uma enormidade; a alegação que vou apresentar nem é minha; citarei o autor, que considerais idôneo. Para testemunhar a minha ciência, se é uma ciência, e qual é ela, vos trarei o deus de Delfos. Conhecestes Querefonte, decerto. Era meu amigo de infância e na também amigo do partido do povo e seu companheiro naquele exílio de que voltou conosco. Sabeis o temperamento de Querefonte, quão tenaz nos seus empreendimentos. Ora, certa vez, indo a Delfos, arriscou esta consulta ao oráculo — repito, senhores; não vos amotineis — ele perguntou se havia alguém mais sábio que eu; respondeu a Pítia que não havia ninguém mais sábio. Para testemunhar isso, tendes aí o irmão dele, porque ele já morreu.

O Julgamento de Sócrates

"Não tenho outra ocupação senão a de vos persuadir a todos, tanto velhos como novos, de que cuideis menos de vossos corpos e de vossos bens do que da perfeição de vossas almas, e a vos dizer que a virtude não provém da riqueza, mas sim que é a virtude que traz a riqueza ou qualquer outra coisa útil aos homens, quer na vida pública quer na vida privada. Se, dizendo isso, eu estou a corromper a juventude, tanto pior; mas, se alguém afirmar que digo outra coisa, mente"
 
Platão, "Apologia"
 
 
"Diante do tribunal popular, Sócrates é acusado pelo poeta Meleto, pelo rico curtidor de peles, influente orador e político Anitos, e por Lição, personagem de pouca importância. A acusação era grave: não reconhecer os deuses do Estado, introduzir novas divindades e corromper a juventude. O relato do julgamento feito por Platão (428-348 a.C.) a Apologia de Sócrates, é geralmente tido como bastante fiel aos fatos e apresenta-se dividido em três partes. Na primeira, Sócrates examina e refuta as acusações que pairam sobre ele, retraçando sua própria vida e procurando mostrar o verdadeiro significado de sua "missão". E proclama aos cidadãos que deveriam julgá-lo: "Não tenho outra ocupação senão a de vos persuadir a todos, tanto velhos como novos, de que cuideis menos de vossos corpos e de vossos bens do que da perfeição de vossas almas, e a vos dizer que a virtude não provém da riqueza, mas sim que é a virtude que traz a riqueza ou qualquer outra coisa útil aos homens, quer na vida pública quer na vida privada. Se, dizendo isso, eu estou a corromper a juventude, tanto pior; mas, se alguém afirmar que digo outra coisa, mente". Noutro momento de sua defesa, Sócrates dialoga com um de seus acusadores, Meleto, deixando-o embaraçado quanto ao significado da acusação que lhe imputava — "corromper a juventude". 

Considerações de Céfalo sobre a velhice - Platão

Trecho retirado do livro "A República", de Platão, onde Sócrates conversa com Céflo (o "velho" pai de Polemarco). Em suas considerações, Céfalo percebe que o caráter, e não a velhice, nos libertam das paixões e pulsões tão marcantes em nossa juventude. 
 
"Logo que me viu, Céfalo saudou-me com estas palavras: – Ó Sócrates, tu também não vens lá muitas vezes ao Pireu para nos veres. Mas devias fazê-lo, porque, se eu ainda tivesse forças para ir facilmente até à cidade, não seria preciso tu vires cá, mas nós é que íamos visitar-te. Agora, porém, tu é que deves aparecer cá mais vezes. Fica a sabê-lo bem: na medida em que vão murchando para mim os prazeres físicos, nessa mesma aumentam o desejo e o prazer da conversa. Não deixes de estar na companhia destes jovens, mas vem também aqui a nossa casa, como a casa de amigos, e de amigos muito íntimos.
 
— Com certeza, ó Céfalo – disse eu -, pois é para e mim um prazer conversar com pessoas de idade bastante avançada. Efetivamente, parece-me que devemos informar-nos junto deles, como de pessoas que foram à nossa frente num caminho que talvez tenhamos de percorrer, sobre as suas características, se é áspero e difícil, ou fácil e transitável. Teria até gosto em te perguntar qual o teu parecer sobre este assunto – uma vez que chegaste já a esse período da vida a que os poetas chamam estar «no limiar da velhice» – se é uma parte custosa da existência, ou que declarações tens a fazer.
 
Por Zeus que te direi, ó Sócrates, qual é o meu ponto de vista. Na verdade, muitas vezes nos juntamos num grupo de pessoas de idades aproximadas, respeitando o velho ditado ["quem é de idade agrada a quem é da mesma idade"]. Ora, nessas reuniões, a maior parte de nós lamenta-se com saudades do prazer da juventude, ou recordando os gozos do amor, da bebida, da comida e de outros da mesma espécie, e agastam-se, como quem ficou privado de grandes bens, e vivesse bem então, ao passo que agora não é viver. Alguns lamentam-se ainda pelos insultos que um ancião sofre dos seus parentes, e em cima disto entoavam uma litania de quantos males a velhice lhes é causa. A mim afigura-se-me, ó Sócrates, que eles não acusam a verdadeira culpada. Porque, se fosse ela a culpada, também eu havia de experimentar os mesmos sofrimentos devido à velhice, bem todos quantos chegaram a esta fase da existência. Ora eu já encontrei outros anciãos que não sentem dessa maneira, entre outros o poeta Sófocles, com quem deparei quando alguém lhe perguntava: «Como passas, ó Sófocles, em questões de amor? Ainda és capaz de te unires a uma mulher?» «Não digas nada, meu amigo!» – replicou -. «Sinto-me felicíssimo por lhe ter escapado, como quem fugiu a um amo delirante e selvagem.» Pareceu-me que ele disse bem nessa altura, e hoje não me parece menos. Pois grande paz e libertação de todos esses sentimentos é a que sobrevêm na velhice. Quando as paixões cessam de nos repuxar e nos largam, acontece exatamente o que Sófocles disse: somos libertos de uma hoste de déspotas furiosos. Mas, quer quanto a estes sentimentos, quer quanto aos relativos aos parentes, há uma só e única causa: não a velhice, ó Sócrates, mas o caráter das pessoas. Se elas forem sensatas e bem dispostas, também a velhice é moderadamente penosa; caso contrário, ó Sócrates, quer a velhice, quer a juventude, serão pesadas a quem assim não for."

Sócrates e o inconformismo

"How you o athenians have been affected by my accusers I cannot tell but I know that they almost made me forget who I was so persuasively did they speak and yet they have hardly uttered a word of truth."
 
(Plato, Apology)
 
Sócrates (470/469 - 399 a.C), nascido em Atenas, é considerado por muitos o maior filósofo de toda a história do pensamento. Tudo que se sabe deste grande sábio nos foi transmitido, entre outros, por seus discípulos Platão e Xenofonte. Se o segundo, embora sem brilho e nem profundidade, nos legou o aspecto prático (moral) da filosofia socrática, foi Platão quem desenvolveu, em seus conhecidos diálogos, toda a filosofia de seu mestre. Embora seja custoso discernir o fundo socrático das especulações do genial discípulo, é lugar comum a ideia de que as primeiras obras (Lacques, Críton etc) tivessem grande influencia dos ensinamentos socráticos, característica que tende a devanecer à medida que a autonomia especulativa de Platão se desenvolve (A República, Parmênides etc). A característica mais marcante da filosofia socrática é o inconformismo com o estado das coisas, opiniões e conceitos. Ao caminhar pelas ruas de Atenas, Sócrates punha em prática sua formidável ferramenta: o método de análise conceitual. Mas em que consistia tal método? O objeto da "ciência" socrática não era o sensível, o particular, o mutável, mas sim o inteligível, o conceito que se exprime pela definição precisa daquilo que "é". Este conceito vem à tona pela dialética (ligada aos modos de conhecimento da psykhé: doxa > episteme), em um movimento indepedente da atividade do pensamento, neste sentido, Sócrates fundamentou o "inconformismo" ao negar a possibilidade de conhecimento através de "opiniões" ou "paixões".