Alegoria da Caverna

A alegoria da caverna, por Jean Brun

Muito provavelmente, a formulação filosófica mais conhecida, nos dias de hoje, é a alegoria da caverna, de Platão. A "metáfora" foi escrita no período denominado de "maturidade" da filosofia platônica, ou seja, quando suas reflexões já exprimiam uma filosofia muito própria, mais autônoma em relação ao pensamento de seu grande mestre, Sócrates. Em sua obra denominada "Platão" (1985), o filósofo Jean Brun traz uma interessante interpretação à famosa história.
 
"O livro VII da República inicia-se com um dos textos mais célebres de Platão: a alegoria da caverna. Sócrates pede a Glauco que imagine homens presos numa caverna e de costas para a entrada de onde vem a luz; por trás brilha, ao longe, uma lareira acesa num ponto alto; entre esse lume e os prisioneiros existe uma estrada alta e ao longo dessa estrada corre um murinho. Imaginemos agora que homens vão andando ao longo dessa estrada, levando objetos de todas as formas, assim como figuras de homens e animais que ultrapassam a altura do muro, uns falam, os outros seguem calados. Os prisioneiros da caverna, podendo apenas ver as sombras que se projetam no fundo da sua prisão, tomam-nas pela realidade e atribuem-lhes palavras que ouvem pronunciar. Esses prisioneiros são a nossa imagem: a prisão é o nosso mundo visível, as verdadeiras realidades constituem o mundo inteligível e, no extremo desse mundo inteligível, está a ideia do Bem que só dificilmente se apreende mas que está na origem de toda a luz. Para passar desse mundo visível para esse mundo inteligível, a nossa alma tem de operar um movimento de conversão e de regresso ao seu princípio. Mas a coisa é difícil, pois os nossos olhos estão habituados à penumbra da nossa prisão e a passagem da escuridão para a luz cega-nos; por isso, se se libertar esses prisioneiros, a maioria tentará voltar para o fundo da sua prisão e amaldiçoará aqueles que os quiseram libertar.