razão

Prometeu e Epimeteu: a origem da astúcia

“Houve um tempo em que só havia deuses, sem que ainda existissem criaturas mortais. Quando chegou o momento determinado pelo Destino, para que estas fossem criadas, os deuses as plasmaram nas entranhas da terra, utilizando-se de uma mistura de ferro e de fogo, acrescida dos elementos que ao fogo e à terra se associam. Ao chegar o tempo certo de tirá-los para a luz, incumbiram Prometeu e Epimeteu de provê-los do necessário e de conferir-lhes as qualidades adequadas a cada um. Epimeteu, porém, pediu a Prometeu que deixasse a seu cargo a distribuição. Depois de concluída, disse ele, farás a revisão final. Tendo alcançado o seu assentimento, passou a executar o plano.
 
Nessa tarefa, a alguns ele atribuiu força sem velocidade, dotando de velocidade os mais fracos; a outros deu armas; para os que deixara com natureza desarmada, imaginou diferentes meios de preservação; os que vestiu com pequeno corpo, dotou de asas, para fugirem, ou os proveu de algum refúgio subterrâneo; os corpulentos encontravam salvação nas próprias dimensões. Destarte agiu com todos, aplicando sempre o critério de compensação. Tomou essas precauções, para evitar que alguma espécie viesse a desaparecer.
 
Depois de haver providenciado para que não se destruíssem reciprocamente, excogitou os meios de protegê-los contra as estações de Zeus, dotando-os de pelos abundantes e pele grossa, suficientes para defendê-los do frio ou adequados para tornar mais suportável o calos, ao mesmo tempo que servissem a cada um de cama natural, quando sentissem necessidade de deitar-se. Alguns dotou de cascos nos pés; outros, de garras, e outros, ainda, de peles calosas e desprovidas de sangue. De seguida, determinou para todos eles alimentos variados, de acordo com a constituição de cada um; a estes, erva do solo; a outros, frutos das árvores; a terceiros, raízes, e a alguns, ainda, até mesmo outros animais como alimento, limitando, porém, a capacidade de reprodução daqueles, ao mesmo tempo que deixava prolíficas suas vítimas, para assegurar a conservação da espécie.

Hannah Arendt: razão x desejo

A Vida do Espírito
Hannah Arendt
 
"Na linha dessas reflexões, começaremos por nos perguntar como a filosofia grega lidou com fenômenos e dados da experiência humana que nossas "convenções" pós-clássicas acostumaram-se a atribuir à Vontade como fonte principal da ação. Para tal, voltamo-nos para Aristóteles, e isso por duas razões. Há, em primeiro lugar, o simples fato histórico da influência decisiva que a análise aristotélica da alma exerceu sobre todas as filosofias da Vontade — exceto no caso de São Paulo, que, como veremos, contentava-se com simples descrições e recusava-se a "filosofar" sobre suas experiências. Há, em segundo lugar, o fato não menos indubitável de que nenhum outro filósofo grego chegou tão perto de reconhecer a estranha lacuna de que falamos na língua e no pensamento grego, e pode, portanto, servir como um primeiro exemplo de como certos problemas psicológicos podiam ser resolvidos antes de a Vontade ser descoberta como uma faculdade autônoma do espírito.
 
O ponto de partida das reflexões de Aristóteles sobre o assunto é o insight antiplatônico de que a razão por si só não move coisa alguma. A questão, portanto, que orienta sua investigação é a seguinte: "O que é que, na alma, origina o movimento?" Aristóteles admite a noção platônica de que a razão dá ordens (keleuei) porque sabe o que se deve buscar e o que se deve evitar, mas nega que essas ordens sejam necessariamente obedecidas. O homem incontinente (seu exemplo paradigmático ao longo de toda essa investigação) segue seus desejos independentemente das ordens da razão. Por outro lado, por recomendação da razão, pode-se resistir a esses desejos. Logo, tampouco os desejos têm uma força inerente em si: por si sós, não originam movimento. Aqui Aristóteles está lidando com um fenômeno que, mais tarde, depois da descoberta da Vontade, aparece como a distinção entre vontade e inclinação. A distinção vem a tornar-se a pedra angular da ética kantiana, mas aparece primeiramente na filosofia medieval—por exemplo, na distinção de Mestre Eckhart entre "a inclinação para pecar e a vontade de pecar, não sendo a inclinação um pecado", o que deixa a própria questão dos atos maus completamente sem explicação: "Se nunca fiz o mal, mas apenas tive a vontade do mal... trata-se de um pecado tão grande quanto matar todos os homens, embora eu não tenha feito nada."

Eu sou o destino!

"Conheço a minha sina. Um dia, meu nome será ligado à lembrança de algo tremendo — de uma crise como jamais houve sobre a Terra, da mais profunda colisão de consciências, de uma decisão conjurada contra tudo o que até então foi acreditado, santificado, requerido. Eu não sou um homem, sou dinamite. E com tudo isso nada tenho de fundador de religião — religiões são assunto da plebe, eu sinto necessidade de lavar as mãos após o contato com pessoas religiosas... Não quero “crentes”, creio ser demasiado malicioso para crer em mim mesmo, nunca me dirijo às massas... Tenho um medo pavoroso de que um dia me declarem santo: perceberão por que publico este livro antes, ele deve evitar que se cometam abusos comigo... Eu não quero ser um santo, seria antes um bufão... Talvez eu seja um bufão... E apesar disso, ou melhor, não apesar disso — pois até o momento nada houve mais mendaz do que os santos —, a verdade fala em mim. — Mas a minha verdade é terrível: pois até agora chamou-se à mentira verdade. — Transvaloração de todos os valores: eis a minha fórmula para um ato de suprema autognose da humanidade, que em mim se fez gênio e carne. Minha sina quer que eu seja o primeiro homem decente, que eu me veja em oposição à mendacidade de milênios... Eu fui o primeiro a descobrir a verdade, ao sentir por primeiro a mentira como mentira — ao cheirar... Meu gênio está nas narinas... Eu contradigo como nunca foi contradito [...]"
 
Nietzsche, "Ecce Homo"
 

Ao homem o ser ... e mais nada!


"PROMETHEUS - And in addition to hope, I gave them fire.
CHORUS - [...] Do they have fire now?
PROMETHEUS - They do. And with it they will soon master many arts."
 
(Aeschylus, "Prometheus Bound")
 
No texto que acompanha esta reflexão, retirado da obra clássica de J. J. Rousseau "Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens", o autor investiga a natureza humana trazendo à tona uma questão antiga no pensamento filosófico e que pode ser sintetizada na simples pergunta "qual a diferença entre o homem e o animal?". Os desdobramentos das considerações de Rousseau são tantos quanto o vôo do pensamento permitir, e aqui aponto para uma: visto que o autor reconhece que ao homem foi dada a qualidade de "agente livre", ou seja, a capacidade de "ser" além da própria natureza, quais as implicações desta constatação para a reflexão moral?
 
Uma das primeiras observações possíveis e evidentes seria a impossibilidade de imputar às ações dos animais, por exemplo, uma valoração moral, ou seja, a filosofia moral não se aplica nestas relações, digamos, da "natureza" e, neste sentido, é impensável julgar o leão que caça sua presa, o João de Barro que faz das árvores sua morada ou o urso Polar, cuja as pequenas focas são sua refeição predileta. É interessante conceber que, em se trantando de animais, seus predicados já estão postos pelo instinto sendo estes a única coisa de que necessitam para viver. É impensável ao animal se abrir às inúmeras possibilidades do real e "deliberar" diante das alternativas que se apresentam pelo simples motivo de que a resposta já estava dada de antemão, ou seja, ele age da única forma que poderia agir e como sugere Rousseau "é assim que um pombo morre de fome perto de uma vasilha cheia das melhores carnes [...]".
 
Ao homem, no entanto, recai este "fardo". Se, por um gracejo de Epimeteu, nossa "natureza" física é acanhada se comparada aos demais seres que nos cercam, à humanidade foi dado o "fogo", uma clara referência à nossa "iluminação" racional. Nosso "presente" Prometéico nos permitiu um aperfeiçoamento constante diante das "circunstâncias" que vivemos, permitindo assim, um afastamento "da regra que nos é prescrita", mesmo que para nosso prejuízo, como afirmou Rousseau. Fato é que, nos reconhecemos livres e capazes de deliberar entre isto ou aquilo, e é exatamente por nossa capacidade de "escolher" que somos fadados à responsabilidade "moral" dos atos e fatos que experienciamos.

Hume: paixão e razão

"A razão é, e só pode ser, escrava das paixões; só pode pretender ao papel de as servir e obedecer a elas."
(David Hume - Tratado da Natureza Humana)
 
David Hume (1711-1776), filósofo escocês do século XVIII, escreveu sua obra mais contundente quando tinha apenas 28 anos. Embora seja considerado por muitos uma das grandes obras da história do pensamento, o "Tratado da natureza humana" (1739) não ganhou a repercussão esperada pelo próprio autor que, constatando que se tratava de um problema de estilo, e não de conteúdo, decidiu reescrevê-lo com uma linguagem mais adequada ao público em "Enquiry Concerning Human Understanding" (1748). Grande parte de suas investigações estão relacionadas à questão do conhecimento e, neste sentido, Hume é considerado um empirista por conta de suas convicções a respeito das construção do conhecimento humano a partir de sua relação com o mundo que o cerca, ou seja, suas experiências. Não seria exagero compreender o pensamento de Hume como uma contraposição materialista ao dualismo proposto por Descartes, um século antes. Para Hume, a alma como "substância pensante" (res cogitans), tal como proposto pelo cartesianismo, não existe e o que nós chamamos de "alma" seria apenas um conjunto de fenômenos inconscientes criados a partir das percepções e afetos do mundo que nos circunda. A "razão" seria, entrementes, somente a combinação de representações que, por sua vez, "recolho" do mundo.
 
Outra questão pertinente deste grande pensador é debate permanente entre as noções de "desejo" e "razão", profundamente desenvolvida (ainda que em uma nomenclatura diferente, onde "razão" é elaborada sob o conceito de "vontade", a partir de Rousseau) por Kant 46 anos mais tarde, em 1785, em sua obra clássica "Fundamentação da Metafísica dos Costumes". No trecho que separei, retirado do livro "A Treatise of Human Nature" (1739), David Hume formula sua oposição à concepção de supremacia da razão sobre as pulsões carnais, constatando as últimas, como as verdadeiras responsáveis pelo "agir" humano. Em sua perspectiva, é preciso buscar os motivos do "agir" nas paixões, sendo a "razão" sempre incapaz de impedir um impulso passional.

Sobre o ordenamento do pensamento

Neste trecho, retirado do livro "O ensino da filosofia no limiar da contemporaneidade", o Prof. Rodrigo Gelamo disserta sobre a noção de educação para Kant. No texto, fica claro a predisposição do ser-humano, segundo a visão kantiana, ao uso da razão. A necessidade da "educação" e o ordenamento do pensamento, são mais do que prerrogativas para autonomia plena e usufruto da liberdade, pertencendo intimamente a condição de "ser" humano.

"Em Sobre a pedagogia, Kant (1996, p.11) parte da constatação de que “O homem é a única criatura que precisa ser educada”. Nesse preciso momento de sua obra, considera a educação uma forma de atenção à criança no processo da sua formação intelectual e disciplinar. Em princípio, centra a discussão sobre a questão da formação nesses dois elementos (ou funções) formativos: se, por um lado, a formação intelectual tem a intenção de dar condições de autonomia e liberdade ao homem, por outro, a formação disciplinar procura impedir que as forças naturais humanas, ou seja, que o seu estado inicial de selvageria, se tornem um impedimento para o uso da razão. Nesse aspecto, o homem se diferencia dos animais porque estes não precisam do mesmo tipo de cuidado por ele requerido.

Diferentemente do homem, os animais conseguem rapidamente se tornar independentes dos cuidados de seus pais, e alguns não necessitam nem desses cuidados. Diferentemente deles, o homem precisa de cuidados especiais indispensáveis para a sua sobrevivência e formação, uma vez que, para além dos cuidados requeridos para a sobrevivência biológica, ele precisa aprender, dentre outras funções importantes, a conviver em sociedade, a se disciplinar e a entrar no mundo cultural que define o espaço de “humanidade”. Assim, a disciplina tem a função de transformar aquilo que é “animal” ou selvagem no homem em humanidade e, além disso, potencializar aquilo que lhe é natural: a disposição ao pensamento e à aprendizagem. A disciplina teria, então, a função de direcionar a predisposição humana ao uso da razão e afastar o educando das tendências indesejáveis. Assim, nas palavras de Kant, “a disciplina submete o homem às leis da humanidade e começa a fazê-lo sentir a força das próprias leis” (ibidem, p.12-13). Em "Ideia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita", Kant (1986) também afirma que o homem precisa – quando vive entre os seres da sua espécie – de um senhor que submeta a sua vontade natural à vontade geral desde a qual cada um pode ser livre. Poderíamos dizer que a submissão às leis e à cultura não direciona o homem para a autonomia e a liberdade, porque o aprisiona e o condiciona.