fim de vida

De quem é o corpo? - Heloisa Helena Barboza

“[...] o que está sempre em pauta na biopolítica é o manejo insistente e infinito das fontes da vida para a produção de riqueza material e para a regulação dos laços sociais.”
 
(Joel Birman, "Arquivo da Biopolítica")
 
 
"A medicina de há muito, como se vê, passou a ocupar um lugar de destaque na gestão dos corpos no espaço urbano, quer no plano individual (medicina clínica), quer no coletivo (medicina social). por meio das disciplinas, os corpos são “docilizados”, isto é, “submissos” e “exercitados”4. A disciplina fabrica corpos “dóceis”, ou seja, que têm suas forças aumentadas quanto à economia de utilidade, mas diminuídas quanto à política de obediência (Foucault, 2008, p. 119). Melhor do que reprimir é gerir a vida dos indivíduos, controlá-los em suas ações, diminuir sua capacidade de revolta, de resistência, de luta, de insurreição contra as ordens do poder, neutralização dos efeitos de contra-poder, isto é, tornar os homens dóceis politicamente.
 
A disciplina não é uma instituição ou um aparelho, é um instrumento do poder, do poder disciplinar, que funciona como uma rede que atravessa os corpos sem se limitar a suas fronteiras, que opera mediante “métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que asseguram a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade [...]” (Foucault, 2008, p. 118). O poder não atua do exterior: por meio da disciplina, trabalha o corpo dos homens, manipula seus elementos, produz seu comportamento, enfim fabrica o tipo de homem necessário ao funcionamento e manutenção da sociedade industrial, capitalista.

A ressurreição de Frankenstein

Este trecho foi retirado do artigo "A ressurreição de Frankenstein: uma metáfora das unidades de terapia intensiva contemporâneas", do filósofo Rodrigo Siqueira-Batista. O tema é de extrema relevância para a reflexão da Bioética como ferramenta para a tomada de decisões no manejo de pacientes graves e em situações limítrofes, sobretudo por conta da "insuficiência da ética médica tradicional (hipocrática) para lidar com estas novas questões". 
 
"Neste contexto, caberia a Bioética - como instância da proteção - a indagação, entre outras possíveis sobre o significado mais profundo de se viver e morrer dignamente e a ponderações acerca do momento em que é rompido o tênue limite entre salvar e agredir, entre cuidar e manter a "vida" de forma cega, irresponsável e com sofrimentos terríveis, cujos resultados espúrios convergem para aberrações da interseção biotecnológica tornando os pacientes, muitas vezes, "espécimes" de Frankensteins contemporâneos. [...]
 
[...] Nascer e morrer podem ser considerados os pontos críticos da experiência humana de existir. Tão logo nasça, um ser humano - na verdade qualquer vivente - tem como único e irrefutável caminho o intríseco e inexorável encontro com a própria morte. Entrementes, aqui emerge uma diferença substancial: se o fim é certo para todos, apenas ao homem é dado conhecer sobre este porvir, ou seja, a certeza sobre a brevidade da vida é uma perculiaridade homo sapiens sapiens. Desta forma, o saber-se mortal é um dos esteios da experiência que o ser humano tem de si mesmo (Dastur, 2002).
 
Quais seriam as implicações dete conhecimento? Tantas quantas permitidas no vôo do pensamento, mas uma, especialmente, se dobra e se recoloca nas mais diferentes manifestações de cultura: um mal-estar, bem demarcado e vinculado à ideia de extinção. Morrer, reconhecer-se finito, está quase invariavelmente relacionado, na sociedade ocidental, à tristeza e ao sofrimento (Zaidhaft, 1997). Deixar de fazer parte deste único mundo conhecido, afastar-se do convívio de pessoas queridas e, ainda mais profundamente, deixar de ser, são todas instâncias capazes de mitigar profundamente aquele que se coloca diante da própria efemeridade. Se à vida pode-se atribuir a afirmação do ser, sua positividade e potência, o passamento institui o não-ser, o limite do que não pode ser reconhecido - e do que é cogniscível -, sequer pensado, como disse Françoise Dastur:
 
"de Aristóteles a Hegel, essa negatividade absoluta, essa ruptura radical, esse impensável puro e simples que é a morte se vêem convertidos em 'não-ser relativo' e 'negatividade determinada', em ruptura 'substituível' e em simples limite do que pode ser pensado: o que, no final das contas, testemunha a incapacidade metafísica de enfrentar verdadeiramente a morte" (2002, p. 56). 
 
Tal possibilidade inextinguível de não-ser - ou deixar de ser - é, em si mesma, capaz de gerar angústia quase essencial, um mal-estar típico da própria condição de finitude. Mas esta não é a única questão: se este não-ser está além do que pode ser verdadeiramente pensado (Freud, 1974), o mesmo não se aplicaria ao processo de morrer, o qual está muitas vezes atrelado, no âmbito das inquietações humanas, à ideia do sofrimento - quer imposto por um fim trágico e inesperado, quer relacionado a uma moléstia grave e mitigante. Em ambas as situações, a supressão do bem maior da vida - pelo menos assim considerado -, tanto de forma insidiosa, quanto de forma abrupta, possibilita a adoção de uma postura reflexiva por parte daqueles que experimentam a proximidade da morte - o enfermo, os familiares e os profissionais de saúde."
 
 
Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis
Trata de saborear a vida; e fica sabendo, que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la.