finitude

Heidegger - ser-para-a-morte

"Uma interpretação ontológica do ser-aí só pode ser originária se assentar sobre a totalidade desse ente. O ser-aí deve então ser acessível como uma totalidade. Ora, esta empresa parece votada ao fracasso, pois que o ser-aí, enquanto cuidado, está perpetuamente face a ele próprio, e está, portanto, em constante falta de acabamento. Heidegger mostra entretanto que o ser-aí pode tornar-se total, sem deixar, por isso, de ser o ser-aí que ele é, na «antecipação» Vorlaufen) da morte.

A filosofia como uma doutrina de salvação ... por si mesmo! - Luc Ferry

Aprender a viver
Luc Ferry
 
“Por não conseguir acreditar num Deus salvador, o filósofo é antes de tudo aquele que pensa que, se conhecemos o mundo, compreendendo a nós mesmos e compreendendo os outros, tanto quanto nossa inteligência o permite, vamos conseguir, pela lucidez e não por uma fé cega, vencer nossos medos. Em outras palavras, se as religiões se definem como “doutrinas da salvação” por um Outro, pela graça de Deus, as grandes filosofias poderiam ser definidas como “doutrinas da salvação por si mesmo, sem a ajuda de Deus. É assim que Epicuro, por exemplo, define a filosofia como uma “medicina da alma”, cujo objetivo último é o de nos fazer compreender que “a morte não deve amedrontar”. Esse é também todo o programa filosófico que seu mais eminente discípulo, Lucrécio, expõe num poema intitulado Sobre a Natureza das Coisas: "É preciso, antes de tudo, expulsar e destruir esse medo do Aqueronte [o rio dos Infernos] que, penetrando até o fundo de nosso ser, envenena a vida humana, colore todas as coisas do negror da morte e não deixa subsistir nenhum prazer límpido e puro."
 
Isso é válido também para Epicteto, um dos maiores representantes de outra escola filosófica da Grécia antiga, o estoicismo, sobre o qual falarei daqui a pouco, que vai reduzir todas as interrogações filosóficas a uma única e mesma fonte: o medo da morte. Vamos ouvi-lo quando se dirige a seu discípulo durante as conversas que com ele mantém: Tens em mente — diz ele — que para o homem o princípio de todos os males, da baixeza, da covardia, é... o medo da morte? Exercita-te contra ela; que para isso tendam “todas as tuas palavras, todos os teus estudos, todas as tuas leituras e saberás que é o único meio que os homens têm de se tornarem livres.
 
O mesmo tema se encontra em Montaigne, no famoso adágio segundo o qual “filosofar é aprender a morrer”, e em Spinoza, com sua bela reflexão sobre o sábio, “que morre menos que o tolo”; em Kant, quando se pergunta “o que nos é permitido esperar”, e até em Nietzsche, que se aproxima, com seu pensamento sobre a “inocência do devir”, dos mais profundos elementos das doutrinas da salvação elaboradas na Antiguidade. Não se preocupe se essas alusões aos grandes autores ainda não lhe dizem nada. É normal, já que você está começando. Voltaremos a cada um desses exemplos para esclarecê-los e explicitá-los. No momento, o que importa é apenas que você compreenda por que, aos olhos de todos esses filósofos, o medo da morte nos impede de viver bem. Não somente porque ela gera angústia. A bem dizer, na maior parte do tempo, não pensamos nisso, e estou certo de que você não passa os dias meditando sobre o fato de que os homens são mortais! No entanto, isso acontece num nível mais profundo, porque a irreversibilidade do curso das coisas, que é uma forma de morte no interior mesmo da vida, ameaça-nos de sempre nos arrastar para uma dimensão do tempo que corrompe a existência: a do passado, onde se instalam os grandes corruptores da felicidade que são a nostalgia e a culpa, o arrependimento e o remorso. Você me dirá talvez que basta não pensar nela, basta tentar, por exemplo, fixar-se de preferência nas lembranças mais felizes do que remoer maus momentos.

A ressurreição de Frankenstein

Este trecho foi retirado do artigo "A ressurreição de Frankenstein: uma metáfora das unidades de terapia intensiva contemporâneas", do filósofo Rodrigo Siqueira-Batista. O tema é de extrema relevância para a reflexão da Bioética como ferramenta para a tomada de decisões no manejo de pacientes graves e em situações limítrofes, sobretudo por conta da "insuficiência da ética médica tradicional (hipocrática) para lidar com estas novas questões". 
 
"Neste contexto, caberia a Bioética - como instância da proteção - a indagação, entre outras possíveis sobre o significado mais profundo de se viver e morrer dignamente e a ponderações acerca do momento em que é rompido o tênue limite entre salvar e agredir, entre cuidar e manter a "vida" de forma cega, irresponsável e com sofrimentos terríveis, cujos resultados espúrios convergem para aberrações da interseção biotecnológica tornando os pacientes, muitas vezes, "espécimes" de Frankensteins contemporâneos. [...]
 
[...] Nascer e morrer podem ser considerados os pontos críticos da experiência humana de existir. Tão logo nasça, um ser humano - na verdade qualquer vivente - tem como único e irrefutável caminho o intríseco e inexorável encontro com a própria morte. Entrementes, aqui emerge uma diferença substancial: se o fim é certo para todos, apenas ao homem é dado conhecer sobre este porvir, ou seja, a certeza sobre a brevidade da vida é uma perculiaridade homo sapiens sapiens. Desta forma, o saber-se mortal é um dos esteios da experiência que o ser humano tem de si mesmo (Dastur, 2002).
 
Quais seriam as implicações dete conhecimento? Tantas quantas permitidas no vôo do pensamento, mas uma, especialmente, se dobra e se recoloca nas mais diferentes manifestações de cultura: um mal-estar, bem demarcado e vinculado à ideia de extinção. Morrer, reconhecer-se finito, está quase invariavelmente relacionado, na sociedade ocidental, à tristeza e ao sofrimento (Zaidhaft, 1997). Deixar de fazer parte deste único mundo conhecido, afastar-se do convívio de pessoas queridas e, ainda mais profundamente, deixar de ser, são todas instâncias capazes de mitigar profundamente aquele que se coloca diante da própria efemeridade. Se à vida pode-se atribuir a afirmação do ser, sua positividade e potência, o passamento institui o não-ser, o limite do que não pode ser reconhecido - e do que é cogniscível -, sequer pensado, como disse Françoise Dastur:
 
"de Aristóteles a Hegel, essa negatividade absoluta, essa ruptura radical, esse impensável puro e simples que é a morte se vêem convertidos em 'não-ser relativo' e 'negatividade determinada', em ruptura 'substituível' e em simples limite do que pode ser pensado: o que, no final das contas, testemunha a incapacidade metafísica de enfrentar verdadeiramente a morte" (2002, p. 56). 
 
Tal possibilidade inextinguível de não-ser - ou deixar de ser - é, em si mesma, capaz de gerar angústia quase essencial, um mal-estar típico da própria condição de finitude. Mas esta não é a única questão: se este não-ser está além do que pode ser verdadeiramente pensado (Freud, 1974), o mesmo não se aplicaria ao processo de morrer, o qual está muitas vezes atrelado, no âmbito das inquietações humanas, à ideia do sofrimento - quer imposto por um fim trágico e inesperado, quer relacionado a uma moléstia grave e mitigante. Em ambas as situações, a supressão do bem maior da vida - pelo menos assim considerado -, tanto de forma insidiosa, quanto de forma abrupta, possibilita a adoção de uma postura reflexiva por parte daqueles que experimentam a proximidade da morte - o enfermo, os familiares e os profissionais de saúde."
 
 
Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis
Trata de saborear a vida; e fica sabendo, que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la.