Kant

Kant - a regionalidade da abordagem científica

Quando Galileu fez rolar no plano inclinado as esferas, com uma aceleração que ele próprio escolhera, quando Torricelli fez suportar pelo ar um peso, que antecipadamente sabia idêntico ao peso conhecido de uma coluna de água, ou quando, mais recentemente, Stahl transformou metais em cal e esta, por sua vez, em metal, tirando-lhes e restituindo-lhes algo,1 foi uma iluminação para todos os físicos. Compreenderam que a razão só entende aquilo que produz segundo os seus próprios planos; que ela tem que tomar a dianteira com princípios, que determinam os seus juízos segundo leis constantes e deve forçar a natureza a responder às suas interrogações em vez de se deixar guiar por esta; de outro modo, as observações feitas ao acaso, realizadas sem plano prévio, não se ordenam segundo a lei necessária, que a razão procura e de que necessita. A razão, tendo por um lado os seus princípios, únicos a poderem dar aos fenômenos concordantes a autoridade de leis e, por outro, a experimentação, que imaginou segundo esses princípios, deve ir ao encontro da natureza, para ser por esta ensinada, é certo, mas não na qualidade de aluno que aceita tudo o que o mestre afirma, antes na de juiz investido nas suas funções, que obriga as testemunhas a responder aos quesitos que lhes apresenta. Assim, a própria física tem de agradecer a revolução, tão proveitosa,do seu modo de pensar, unicamente à ideia de procurar na natureza (e não imaginar), de acordo com o que a razão nela pôs, o que nela deverá aprender e que por si só não alcançaria saber; só assim a física enveredou pelo trilho certo da ciência, após tantos séculos em que foi apenas simples tateio.

Extrato do Prefácio da segunda edição da Crítica da Razão Pura. Tr. Manuela Pinto dos Santos & Alexandre Fradique Morujão. Lisboa: Calouste, 2001, p.18.

 

Kant e a boa vontade

"Sou por gosto um investigador. Sinto sede de conhecimento e a ávida inquietação de progredir, tanto quanto a satisfação que dá qualquer auisição. Houve um tempo em que acreditava que só isso poderia fazer a honra da humanidade, e desprezava a a plebe que tudo ignora. Este privilégio ilusório desvaneceu-se, aprendo a honrar os homens e considerar-me-ia mais inútil que o comum dos trabalhadores se não estivesse convencido de que a especulação a que me dedico pode conferir a tudo o resto um valor: fazer realçar os direitos da humanidade."
 
Imannuel Kant, "Observations sur le beau et le sublime"
 
 
A missão da filosofia de Kant vai constituir em dar plena terminação ao movimento iniciado pela atitude idealista. Segundo Manuel Garcia Morente (Fudamentos de Filosofia), era preciso que o processo iniciado por Descartes chegasse a seu término e conclusão, ou seja, um pensador capaz de arrematar as possibilidades contidas na atitude idealista. Mas em que consiste este idealismo? A concepção que assinala ao "espírito" (ideias) uma posição dominante no conjunto do ser. De forma muito reduzida e beirando uma deformação de seu sentido, seria a concepção de que existe uma parte de mim que pensa, ou seja, um "pedaço" do homem capaz de deliberar, escolher, autonomamente, dentre as possibilidades que o mundo oferece. Assim, pois, Kant seria o fim (não fosse a retomada sartriniana) de um período que se inicia com Platão (psikhé e sôma). No campo da moral, o problema básico de Kant foi descobrir o significado do que é justo e injusto, do bem e do mal. Para Frost, ao atacar o problema, acatou, como fundamental, o princípio de Rousseau, de que a única coisa absolutamente boa, no mundo, é a vontade humana governada pelo respeito para com as leis morais ou a consciência de dever e, neste sentido, Kant chegou a afirmar que Rousseau era o "Newton do mundo moral". Neste trecho retirado do livro "A Filosofia Explica as Grandes Questões da Humanidade", o Prof. Clóvis de Barros Filho explica, com enorme clareza, a ruptura do pensamento kantiano com a tradição grega. A dignidade moral, para Kant, é uma questão de "trabalho", de esforço, onde qualquer homem é capaz de "escapar" do programa da Natureza (physis!?), libertando-se da lógica das tendências naturais. Nascem aqui os direitos da humanidade.
 
"A reflexão sobre a liberdade está no coração do pensamento moral de Kant, cujas contribuições no campo da filosofia são destaque também quando se trata de abordar as condições do conhecimento e os limites da razão. Seus textos são herméticos. Mas não podemos nos acovardar. Tentaremos identificar o que o autor queria dizer de mais fundamental. O que ele destacaria se quisesse facilitar a compreensão do leitor. E, se possível, você poderá abrir a primeira página do texto intitulado Fundamentação da metafísica dos costumes. O que dissermos até aqui facilitará o acesso à informação. Kant não espera muito para dar o tom. Apresenta-se como herdeiro da antropologia de Rousseau. E em ruptura com o pensamento grego. Porque o que pode ser bom, virtuoso e digno não são os talentos naturais.

O homem é condenado a ser livre - Sartre

Influenciado, sobretudo, pela filosofia fenomenológica de Husserl, o pensador francês Jean-Paul Sartre destacou-se por suas formulações sobre o "existencialismo". Uma interpretação possível do pensamento de Sartre é reconhecê-lo como continuação de uma corrente que se inicia, de forma sistemática, no dualismo platônico, ao identificar duas dimensões distintas que compõe o "humano" (psykhé e sôma), onde o lógos/Àóyoç (potência da alma cuja sede é na cabeça e preside a vida intelectual) seria responsável pelas deliberações racionais e, portanto, livres dos afetos do corpo ao mundo sensível. Com Descartes, o conceito de livre-arbítrio ganha contornos modernos e o cogito cartesiano fundamenta a distinção entre a res cogitans e a res extensa, ou seja, há algo que duvida e, portanto, capaz de pensar e deliberar. A contribuição de Kant, que segregou as noções de desejo x vontade, é evidente: o corpo deseja, mas a "justa" decisão deve ser obra de uma razão "afiada" e fundadora de um Imperativo Categórico. Neste resumido "trajeto" que desenhamos, Sartre seria o ápice desta concepção, que desde a Grécia Antiga, nega a causalidade da existência humana e se consagra na famosa expressão: "a existência precede a essência".

“Só pelo fato de que tenho consciência dos motivos que solicitam minha ação, esses motivos já são objetos transcendentes para minha consciência, estão fora; em vão buscaria agarrar-me a eles, escapo disso por minha existência mesma. Estou condenado a existir para sempre além de minha essência, além dos móveis e dos motivos de meu ato: estou condenado a ser livre. Isso significa que não se poderia encontrar para a minha liberdade outros limites senão ela mesma, ou, se prefere, não somos livres de cessar de ser livres. (...) O sentido profundo do determinismo é o de estabelecer em nós uma continuidade sem falha da existência em si. (...) Mas em vez de ver transcendências postas e mantidas no seu ser por minha própria transcendência, supor-se-á que as encontro surgindo no mundo: elas vêm de Deus, da natureza, da ‘minha’ natureza, da sociedade. (...) Essas tentativas abortadas para sufocar a liberdade sob o peso do ser – elas desmoronam quando surge, de repente, a angústia diante da liberdade – mostram bastante que a liberdade coincide no fundo com o nada que está no coração do homem.”

Sartre, L'Êtr et le néant (O ser e o nada), Quarta parte, cap I, Gallimard, pp.515-516

O imperativo categórico kantiano

Ao contrário de sua origem grega, onde a filosofia se confundia com qualquer forma de conhecimento, na modernidade, podemos dizer que a disciplina filosófica se ocupa com três conteúdos básicos, (1) o conhecimento, cuja disciplina é a Epistemologia e se desdobra a partir da questão "como posso conhecer o mundo?"; (2) a estética e a reflexão sobre o belo, "o que é o belo?", seria a beleza um dado objetivo ou estaria fundada no sujeito que à contempla?; (3) e a questão moral, ou seja, "como devo agir?". O pensador alemão Immanuel Kant produziu três grandes obras dirigidas para cada uma destas três investigações fundamentais: a Crítica da Razão Pura (Epistemologia), a Crítica do Juízo (Estética) e a Crítica da Razão Prática (moral). No caso de sua filosofia moral, existe uma outra obra cuja leitura elucida, com mais clareza, suas convicções sobre o comportamento humano cujo título é "Fundamentos da Metafísica dos Costumes". O texto abaixo foi retirado desta obra. 
 
"Há um imperativo que nos ordena imediatamente uma certa conduta, sem lhe pôr como condição outro fim que essa conduta permita atingir. Esse imperativo é categórico. Não se refere à matéria do ato, ao que pode resultar dele, mas a forma, ao princípio de que resulta, e o que há nesse ato de essencialmente bom está na intenção, qualquer que possa ser o resultado. Este imperativo pode ser denominado o imperativo da moralidade."

Sobre o ordenamento do pensamento

Neste trecho, retirado do livro "O ensino da filosofia no limiar da contemporaneidade", o Prof. Rodrigo Gelamo disserta sobre a noção de educação para Kant. No texto, fica claro a predisposição do ser-humano, segundo a visão kantiana, ao uso da razão. A necessidade da "educação" e o ordenamento do pensamento, são mais do que prerrogativas para autonomia plena e usufruto da liberdade, pertencendo intimamente a condição de "ser" humano.

"Em Sobre a pedagogia, Kant (1996, p.11) parte da constatação de que “O homem é a única criatura que precisa ser educada”. Nesse preciso momento de sua obra, considera a educação uma forma de atenção à criança no processo da sua formação intelectual e disciplinar. Em princípio, centra a discussão sobre a questão da formação nesses dois elementos (ou funções) formativos: se, por um lado, a formação intelectual tem a intenção de dar condições de autonomia e liberdade ao homem, por outro, a formação disciplinar procura impedir que as forças naturais humanas, ou seja, que o seu estado inicial de selvageria, se tornem um impedimento para o uso da razão. Nesse aspecto, o homem se diferencia dos animais porque estes não precisam do mesmo tipo de cuidado por ele requerido.

Diferentemente do homem, os animais conseguem rapidamente se tornar independentes dos cuidados de seus pais, e alguns não necessitam nem desses cuidados. Diferentemente deles, o homem precisa de cuidados especiais indispensáveis para a sua sobrevivência e formação, uma vez que, para além dos cuidados requeridos para a sobrevivência biológica, ele precisa aprender, dentre outras funções importantes, a conviver em sociedade, a se disciplinar e a entrar no mundo cultural que define o espaço de “humanidade”. Assim, a disciplina tem a função de transformar aquilo que é “animal” ou selvagem no homem em humanidade e, além disso, potencializar aquilo que lhe é natural: a disposição ao pensamento e à aprendizagem. A disciplina teria, então, a função de direcionar a predisposição humana ao uso da razão e afastar o educando das tendências indesejáveis. Assim, nas palavras de Kant, “a disciplina submete o homem às leis da humanidade e começa a fazê-lo sentir a força das próprias leis” (ibidem, p.12-13). Em "Ideia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita", Kant (1986) também afirma que o homem precisa – quando vive entre os seres da sua espécie – de um senhor que submeta a sua vontade natural à vontade geral desde a qual cada um pode ser livre. Poderíamos dizer que a submissão às leis e à cultura não direciona o homem para a autonomia e a liberdade, porque o aprisiona e o condiciona. 

A Lei moral em mim!

Excertos de E. Kant, Crítica da Razão Prática, trad. de Barni, pp. 378-393.
 
"Duas coisas enchem a alma de admiração e de respeito sempre renovados e que aumentam à medida que o pensamento mais vezes se concentra nelas: acima de nós, o céu estrelado; no nosso íntimo, a lei moral. Não é necessário buscá-las e adivinhá-las como se estivessem ofuscadas por nuvens ou situadas em região inacessível, para além do meu horizonte; vejo-as ante mim e relaciono-as imediatamente com a consciência da minha existência. A primeira, a partir do lugar que ocupo no mundo exterior, estende a relação do meu ser com as coisas sensíveis a todo esse imenso espaço onde os mundos se sucedem aos mundos e os sistemas aos sistemas e a toda a duração ilimitada dos seus movimentos periódicos. A segunda parte do meu invisível eu, da minha personalidade e do meu posto num mundo que possui a verdadeira infinitude, mas no qual o entendimento mal pode penetrar e ao qual reconheço estar vinculado por uma relação não apenas contingente, mas universal e necessária (relação que também alargo a todos esses mundos visíveis).
 
Numa, a visão de uma infinidade de mundos quase aniquila a minha importância, na medida em que me considero uma criatura animal que, depois de ter (não se sabe como) gozado a vida durante um breve lapso de tempo, deve devolver a matéria de que é formada ao planeta em que vive e que não é mais do que um ponto no universo. Pelo contrário, a outra ergue infinitamente o meu valor como inteligência, mediante a minha personalidade, na qual a lei moral me revela uma vida independente da animalidade e até de todo o mundo sensível, pelo menos na medida em que podemos julgá-lo pelo destino que esta lei consigna à minha existência, e que, em vez de ser limitada às condições e aos limites desta vida, se alarga até o infinito."
 
 

"...e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal"

No primeiro trecho, o mote da consagrada MIT (Massachusetts Institute of Technology). No segundo, e a propósito desta "insinuação", que assenta-se na idéia universal de que a ciência moderna e seus infalíveis métodos detém a capacidade de descortinar a realidade, a metáfora do filósofo dinamarquês Kierkegaard pode nos ajudar a melhor compreender e relativizar estas pretensões.
 
“(...) e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal.” 
Moto da comunidade científica, segundo mural do Massachusetts Institute of Technology 
 
“Se um dançarino desse saltos muito altos, poderíamos admirá-lo. Mas se ele tentasse dar a impressão de poder voar, o riso seria seu merecido castigo, mesmo se ele fosse capaz, na verdade, de saltar mais alto que qualquer outro dançarino. Saltos são atos de seres essencialmente terrestres, que respeitam a força gravitacional da Terra, pois que  o salto é algo momentâneo. Mas o vôo nos faz lembrar os seres emancipados das condições telúricas, um privilégio reservado para as criaturas aladas...” (Kierkegaard)
 
O pensador alemão Kant e o "fundador da filosofia moderna", Descartes, também refletiram sobre a dificuldade da razão humana diante dos fenômenos da realidade:
 
"a razão, assim, se aproxima da natureza não como um aluno, que ouve tudo aquilo que o professor se decide a dizer, mas como um juiz que obriga a testemunha a responder questões que ele mesmo formulou." (Kant)
 
"Entre todos os que buscam a verdade nas ciências, apenas os matemáticos encontram algumas demonstrações, isto é, algumas razões certas e evidentes." (Descartes)
 

Kant e o Aufklärung

Face às manifestações que tomaram nossas ruas recentemente, compartilho às reflexões de Kant sobre o conceito de "Esclarecimento".

"Uma revolução poderá talvez realizar a queda do despotismo pessoal ou da opressão ávida de lucros ou de domínios, porém nunca produzirá a verdadeira reforma do modo de pensar. Apenas novos preconceitos, assim como os velhos, servirão como cintas para conduzir a grande massa destituída de pensamento.

Para este esclarecimento, porém, nada mais se exige senão LIBERDADE. E a mais inofensiva entre tudo aquilo que se possa chamar liberdade, a saber: a de fazer um uso público de sua razão em todas as questões.
"

Clique aqui e leia o texto de Kant na íntegra!

 

Kant e a liberdade

Segundo Reale, em sua História da Filosofia, depois de Platão ("ação livre é aquela que se determina em favor do desejo racional"), Kant deu toda amplitude ao "racionalismo" da liberdade: a ação é livre quando a consciência determina "contra" os desejos sensíveis, em função de um princípio racional (por ex., dar esmola "por piedade" é ceder à tendência; mas dar esmola "por princípio" é agir livremente, segundo um princípio racional); Percebe-se que, no fundo, a liberdade não consiste no que se faz, mas na maneira pela qual se faz. A liberdade é uma atitude, a do homem que se reconhece em sua vida, que aceita a história do mundo e dos acontecimentos. Por isso, a liberdade consiste, freqüentemente, muito mais em "mudar seus desejos que a ordem do mundo", em adaptar-se à evolução e à ordem das coisas."

Michael Sandel também cita este princípio da filosofia kantiana quando relembra um famoso anúncio de uma empresa de refrigerantes, cujo logo sugeria: "obedeça sua sede". Segundo o próprio Sandel, este seria um bom exemplo de um agir "heteronomamente", palavra inventada por Kant, que seria o oposto de agir autônomamente. Agir heteronomamente seria, portanto, agir de acordo com desejos que eu não escolhi. Como bem sugeriu Reale, agir livremente, em seu sentido mais puro e direto, não se resume a esta ou aquela ação, mas dos princípios que a regem enquanto ação.