A filosofia como um exercício de si - Foucault

"Quanto ao motivo que me impulsionou foi muito simples. Para alguns, espero, esse motivo poderá ser suficiente por ele mesmo. É a curiosidade - em todo caso, a única espécie de curiosidade que vale a pena ser praticada com um pouco de obstinação: não aquela que procura assimilar o que convém conhecer, mas a que permite separar-se de si mesmo. De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não, de certa maneira, e tanto quanto possível, o descaminho daquele que conhece? Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensá­vel para continuar a olhar ou a refletir. Talvez me digam que esses jogos consigo mesmo têm que permanecer nos bastidores; e que no má­ximo eles fazem parte desses trabalhos de preparação que desaparecem por si sós a partir do momento em que produzem seus efeitos. Mas o que é filosofar hoje em dia - quero dizer, a atividade filosófica - senão o trabalho crítico do pensamento sobre o próprio pensamento? Se não consistir em tentar saber de que maneira e até onde seria possí­vel pensar diferentemente em vez de legitimar o que já se sabe? Existe sempre algo de irrisório no discurso filosófico quando ele quer, do exterior, fazer a lei para os outros, dizer-lhes onde está a sua verdade e de que maneira encontrá-la, ou quando pretende demonstrar-se por positividade ingênua; mas é seu direito explorar o que pode ser mudado, no seu próprio pensamento, através do exercício de um saber que lhe é estranho. O “ ensaio" - que é necessário entender com o experiência modificadora de si no jogo da verdade, e não com o apropriação simplificadora de outrem para fins de comunicação - é o corpo vivo da filosofia, se, pelo menos, ela for ainda hoje o que era outrora, ou seja, uma “ ascese” , um exercido de si, no pensamento."
 
Foucault, "A História da Sexualidade II"
 

Eu sou o destino!

"Conheço a minha sina. Um dia, meu nome será ligado à lembrança de algo tremendo — de uma crise como jamais houve sobre a Terra, da mais profunda colisão de consciências, de uma decisão conjurada contra tudo o que até então foi acreditado, santificado, requerido. Eu não sou um homem, sou dinamite. E com tudo isso nada tenho de fundador de religião — religiões são assunto da plebe, eu sinto necessidade de lavar as mãos após o contato com pessoas religiosas... Não quero “crentes”, creio ser demasiado malicioso para crer em mim mesmo, nunca me dirijo às massas... Tenho um medo pavoroso de que um dia me declarem santo: perceberão por que publico este livro antes, ele deve evitar que se cometam abusos comigo... Eu não quero ser um santo, seria antes um bufão... Talvez eu seja um bufão... E apesar disso, ou melhor, não apesar disso — pois até o momento nada houve mais mendaz do que os santos —, a verdade fala em mim. — Mas a minha verdade é terrível: pois até agora chamou-se à mentira verdade. — Transvaloração de todos os valores: eis a minha fórmula para um ato de suprema autognose da humanidade, que em mim se fez gênio e carne. Minha sina quer que eu seja o primeiro homem decente, que eu me veja em oposição à mendacidade de milênios... Eu fui o primeiro a descobrir a verdade, ao sentir por primeiro a mentira como mentira — ao cheirar... Meu gênio está nas narinas... Eu contradigo como nunca foi contradito [...]"
 
Nietzsche, "Ecce Homo"
 

Gilles Deleuze - a potência de agir de Spinoza

"Quando Espinoza diz: o surpreendente é o corpo... ainda não sabemos o que pode um corpo... ele não quer fazer do corpo um modelo, e da alma, uma simples dependência do corpo. Sua empreitada é mais sutil. Ele quer abater a pseudo-superioridade da alma sobre o corpo. Há a alma e o corpo, e ambos exprimem uma única e mesma coisa: um atributo do corpo é também um expresso da alma (por exemplo, a velocidade). Do mesmo modo que você não sabe o que pode um corpo, há muitas coisas no corpo que você não conhece, que vão além de seu conhecimento, há na alma muitas coisas que vão além de sua consciência. A questão é a seguinte: o que pode um corpo? De que afetos você é capaz? Experimente, mas é preciso muita prudência para experimentar. Vivemos em um mundo desagradável, onde não apenas as pessoas, mas os poderes estabelecidos têm interesse em nos comunicar afetos tristes. A tristeza, os afetos tristes são todos aqueles que diminuem nossa potência de agir. Os poderes estabelecidos têm necessidade de nossas tristezas para fazer de nós escravos. O tirano, o padre, os tomadores de almas, têm necessidade de nos persuadir que a vida é dura e pesada. Os poderes têm menos necessidade de nos reprimir do que de nos angustiar, ou, como diz Virilio, de administrar e organizar nossos pequenos terrores íntimos. A longa lamentação universal sobre a vida: a falta-de-ser que é a vida... 

O humanismo de Sartre

"O humanismo sartriano. O homem é o lugar de uma dupla relação entre o Ser e o Nada. Num sentido, o nada não é nada e só pode vir a ser objeto sob a condição de estar inserido no Ser e, neste sentido, o Ser é primeiro; mas, num outro sentido, o Ser não pode ser primeiro, deve referir-se à consideração de um pensamento, à reformulação de um testemunho que, ele sim, é primeiro. O Ser tem necessidade do Nada para vir ao mundo, e reciprocamente. Essa dupla relação define o Ser e ela não é suscetível de trabalho, de fecundidade, de mediação. Seja o que for que advenha das relações do Ser e do Nada, o objeto permanece ser e o testemunho nada. O homem aparece numa situação impossível, ele é paixão vã, "paixão inútil". Paixão, porque ele é obcecado pelo desejo do Ser, porque aquilo que nele é ipseidade tem necessidade de se preencher, porque o Nada desejaria escapar de si mesmo fartando-se de coisas; mas paixão vã, porque nunca um poderá vir a ser o outro. Seja o que for que o homem faça, será sempre um fracasso. Não há diferença entre beber uma xícara de café e ser um condutor de povos. Depois, Sartre colocou sua filosofia sob uma outra luz. Se aquilo a que se chama sucesso é, na realidade, sempre um fracasso, se Rembrandt fracassa sempre, a coisa pode inverter-se. Para além da esperança começa o imenso campo dos empreendimentos, da ação verdadeira, diria Sartre. O sujeito engaja-se totalmente porque, sendo nada, precisa caminhar em direção ao mundo, onde tudo é interessante. Mas esse engajamento é imotivado e nunca é inteiramente efetivo porque, no fundo, não existe uma diferença tão grande assim entre uma filosofia que vincula o homem ao exterior e uma filosofia que o desliga por completo disso."

(Merleau-Ponty, A Natureza)

Ao homem o ser ... e mais nada!


"PROMETHEUS - And in addition to hope, I gave them fire.
CHORUS - [...] Do they have fire now?
PROMETHEUS - They do. And with it they will soon master many arts."
 
(Aeschylus, "Prometheus Bound")
 
No texto que acompanha esta reflexão, retirado da obra clássica de J. J. Rousseau "Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens", o autor investiga a natureza humana trazendo à tona uma questão antiga no pensamento filosófico e que pode ser sintetizada na simples pergunta "qual a diferença entre o homem e o animal?". Os desdobramentos das considerações de Rousseau são tantos quanto o vôo do pensamento permitir, e aqui aponto para uma: visto que o autor reconhece que ao homem foi dada a qualidade de "agente livre", ou seja, a capacidade de "ser" além da própria natureza, quais as implicações desta constatação para a reflexão moral?
 
Uma das primeiras observações possíveis e evidentes seria a impossibilidade de imputar às ações dos animais, por exemplo, uma valoração moral, ou seja, a filosofia moral não se aplica nestas relações, digamos, da "natureza" e, neste sentido, é impensável julgar o leão que caça sua presa, o João de Barro que faz das árvores sua morada ou o urso Polar, cuja as pequenas focas são sua refeição predileta. É interessante conceber que, em se trantando de animais, seus predicados já estão postos pelo instinto sendo estes a única coisa de que necessitam para viver. É impensável ao animal se abrir às inúmeras possibilidades do real e "deliberar" diante das alternativas que se apresentam pelo simples motivo de que a resposta já estava dada de antemão, ou seja, ele age da única forma que poderia agir e como sugere Rousseau "é assim que um pombo morre de fome perto de uma vasilha cheia das melhores carnes [...]".
 
Ao homem, no entanto, recai este "fardo". Se, por um gracejo de Epimeteu, nossa "natureza" física é acanhada se comparada aos demais seres que nos cercam, à humanidade foi dado o "fogo", uma clara referência à nossa "iluminação" racional. Nosso "presente" Prometéico nos permitiu um aperfeiçoamento constante diante das "circunstâncias" que vivemos, permitindo assim, um afastamento "da regra que nos é prescrita", mesmo que para nosso prejuízo, como afirmou Rousseau. Fato é que, nos reconhecemos livres e capazes de deliberar entre isto ou aquilo, e é exatamente por nossa capacidade de "escolher" que somos fadados à responsabilidade "moral" dos atos e fatos que experienciamos.

Penso, logo sou!

"Mais tarde, ao analisar com atenção o que eu era, e vendo que podia presumir que não possuía corpo algum e que não havia mundo algum, ou lugar onde eu existisse, mas que nem por isso podia supor que não existia; e que, ao contrário, pelo fato mesmo de eu pensar em duvidar da verdade das outras coisas, resultava com bastante evidência e certeza que eu existia [...]"
 
(Descartes, Discurso do Método)
 
 
"NÃO ESTOU SEGURO se deva falar-vos a respeito das primeiras meditações que aí realizei; já que por serem tão metafísicas e tão incomuns, é possível que não serão apreciadas por todos. Contudo, para que seja possível julgar se os fundamentos que escolhi são suficientemente firmes, vejo-me, de alguma forma, obrigado a falar-vos delas. Havia bastante tempo observara que, no que concerne aos costumes, é às vezes preciso seguir opiniões, que sabemos serem muito duvidosas, como se não admitissem dúvidas, conforme já foi dito acima; porém, por desejar então dedicar-me apenas a pesquisa da verdade, achei que deveria agir exatamente ao contrário, e rejeitar como totalmente falso tudo aquilo em que pudesse supor a menor dúvida, com o intuito de ver se, depois disso, não restaria algo em meu crédito que fosse completamente incontestável. Ao considerar que os nossos sentidos às vezes nos enganam, quis presumir que não existia nada que fosse tal como eles nos fazem imaginar. E, por existirem homens que se enganam ao raciocinar, mesmo no que se refere às mais simples noções de geometria, e cometem paralogismos, rejeitei como falsas, achando que estava sujeito a me enganar como qualquer outro, todas as razões que eu tomara até então por demonstrações. E, enfim, considerando que quaisquer pensamentos que nos ocorrem quando estamos acordados nos podem também ocorrer enquanto dormimos, sem que exista nenhum, nesse caso, que seja correto, decidi fazer de conta que todas as coisas que até então haviam entrado no meu espírito não eram mais corretas do que as ilusões de meus sonhos. Porém, logo em seguida, percebi que, ao mesmo tempo que eu queria pensar que tudo era falso, faziase necessário que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, ao notar que esta verdade: eu penso, logo existo, era tão sólida e tão correta que as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de lhe causar abalo, julguei que podia considerá-la, sem escrúpulo algum, o primeiro princípio da filosofia que eu procurava.
 
Mais tarde, ao analisar com atenção o que eu era, e vendo que podia presumir que não possuía corpo algum e que não havia mundo algum, ou lugar onde eu existisse, mas que nem por isso podia supor que não existia; e que, ao contrário, pelo fato mesmo de eu pensar em duvidar da verdade das outras coisas, resultava com bastante evidência e certeza que eu existia [...]"
 
Descartes, "Discurso sobre o Método"
 

Alguns nascem postumamente...

“Eu vos digo: é preciso ter ainda caos dentro de si, para poder dar à luz uma estrela dançante.”
 
(Nietzsche, “Assim falava Zaratustra.”)
 
 
"Este livro pertence aos homens mais raros. Talvez nenhum deles sequer esteja vivo. É possível que se encontrem entre aqueles que compreendem o meu “Zaratustra”: como eu poderia misturar-me àqueles aos quais se presta ouvidos atualmente? – Somente os dias vindouros me pertencem. Alguns homens nascem póstumos.
 
As condições sob as quais sou compreendido, sob as quais sou necessariamente compreendido – conheço-as muito bem. Para suportar minha seriedade, minha paixão, é necessário possuir uma integridade intelectual levada aos limites extremos. Estar acostumado a viver no cimo das montanhas – e ver a imundície política e o nacionalismo abaixo de si. Ter se tornado indiferente; nunca perguntar se a verdade será útil ou prejudicial... Possuir uma inclinação – nascida da força – para questões que ninguém possui coragem de enfrentar; ousadia para o proibido; predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para música nova. Olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades que até agora permaneceram mudas. E um desejo de economia em grande estilo – acumular sua força, seu entusiasmo... Auto-reverência, amor-próprio, absoluta liberdade para consigo...
 
Muito bem! Apenas esses são meus leitores, meus verdadeiros leitores, meus leitores predestinados: que importância tem o resto? – O resto é somente a humanidade. – É preciso tornar-se superior à humanidade em poder, em grandeza de alma – em desprezo..."
 
 
Friedrich Nietzsche - O Anticristo

Algo pensa em mim!

Texto retirado do livro "Beyond Good and Evil" (Nietzsche):
 
"As far as the superstitions of the logicians are concerned: I will not stop emphasizing a tiny little fact that these superstitious men are loath to admit: that a thought comes when “it” wants, and not when “I” want. It is, therefore, a falsification of the facts to say that the subject “I” is the condition of the predicate “think.” It thinks: but to say the “it” is just that famous old “I” – well that is just an assumption or opinion, to put it mildly, and by no means an “immediate certainty.” In fact, there is already too much packed into the “it thinks”: even the “it” contains an interpretation of the process, and does not belong to the process itself. People are following grammatical habits here in drawing conclusions, reasoning that “thinking is an activity, behind every activity something is active, therefore –.” Following the same basic scheme, the older atomism looked behind every “force” that produces effects for that little lump of matter in which the force resides, and out of which the effects are produced, which is to say: the atom. More rigorous minds finally learned how to make do without that bit of “residual earth,” and perhaps one day even logicians will get used to making do without this little “it” (into which the honest old I has disappeared)."

Entrevista - Isabelle Stengers

A representação de um fenômeno científico é uma invenção política.
Entrevista com Isabelle Stengers
 
A reportagem e a entrevista são de Roberto Ciccarelli e publicadas no jornal Il Manifesto, 23-09-2008. A tradução é de Benno Dischinger.
 
“A ciência – afirma Stengers – tende a eliminar o conflito que a opõe ao real em nome de uma política da lei e da ordem. Para entendê-lo, basta ler A estrutura das revoluções científicas de Thomas Kuhn: o que a ciência moderna ensina aos cientistas é resolver problemas “normais”, quebra-cabeças, para depois passar a outro “paradigma”. O problema é, ao invés, o modo pelo qual os cientistas encaram os fenômenos, o modo pelo qual a ciência declara “real” um fenômeno mais do que outro, o modo pelo qual uma prática é definida como “científica” com respeito a outra prática julgada “não científica”. A representação de um fenômeno científico é uma invenção política. Para mim, esta invenção interessa na medida em que não se coloca num horizonte no qual é preciso garantir uma ordem e uma hierarquia entre a realidade com respeito à imaginação, entre o que é o que deveria ser”.

O que é filosofia?

"O homem, ao que parece, não pode deixar de filosofar. Impossível fazê-lo, e se os detratores entendessem isso, veriam que zombar da filosofia seria ainda uma espécie de filosofia, embora má."
 
(W. Luijpen, "Introdução à Fenomenologia Existencial")
 
 
Texto de A. C. Ewing
 
"Uma definição precisa do termo "filosofia" é impraticável. Tentar formulá-la poderia, ao menos de início, gerar equívocos. Com alguma espirituosidade, alguém poderia defini-la como "tudo e nada, tudo ou nada...". Melhor dizendo, a filosofia difere das ciências especiais na medida em que procura oferecer uma imagem do pensamento humano - ou mesmo da realidade, até onde se admite que isso possa ser feito -- como um todo. Contudo, na prática, o conteúdo de informação real que a filosofia acrescenta às ciências especiais tende a desvanecer-se até parecer não deixar vestígios.

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