Uma vida sem pensamento é totalmente possível... - Hannah Arendt

O pensamento, em seu sentido não-cognitivo e não-especializado, como uma necessidade natural da vida humana, como a realização da diferença dada na consciência, não é uma prerrogativa de poucos, mas uma faculdade sempre presente em todo mundo; do mesmo modo, a inabilidade de pensar não é uma imperfeição daqueles muitos a quem falta inteligência, mas uma possibilidade sempre presente para todos — incluindo os cientistas, os eruditos e outros especialistas em tarefas do espírito. Todos podemos vir a nos esquivar daquela interação conosco mesmos, cuja possibilidade concreta e cuja importância Sócrates foi o primeiro a descobrir. O pensamento acompanha a vida e é ele mesmo a quintessência desmaterializada do estar vivo. E uma vez que a vida é um processo, sua quintessência só pode residir no processo real do pensamento, e não em quaisquer resultados sólidos ou pensamentos específicos. Uma vida sem pensamento é totalmente possível, mas ela fracassa em fazer desabrochar a sua própria essência — ela não é apenas sem sentido; ela não é totalmente viva. Homens que não pensam são como sonâmbulos. Para o ego pensante e para sua experiência, a consciência moral que "deixa o homem cheio de embaraços" é um efeito colateral acessório. Não importa em que séries de pensamentos o ego pensante se engage; para o eu que nós todos somos, importa cuidar de não fazer nada que torne impossível para os dois-em-um serem amigos e viverem em harmonia. É isto o que Espinoza entende por "aquiescência do próprio eu" (acquiescentia in seipso): "ela pode brotar da razão [raciocínio], e este contentamento é a maior alegria possível". Seu critério de ação não será o das regras usuais, reconhecidas pelas multidões e acordadas pela sociedade, mas a possibilidade de eu viver ou não em paz comigo mesmo quando chegar a hora de pensar sobre meus atos e palavras. A consciência moral é a antecipação do sujeito que aguarda quando eu voltar para casa.
 
(Hannah Arendt, "A Vida do Espírito")
 

Hannah Arendt: razão x desejo

A Vida do Espírito
Hannah Arendt
 
"Na linha dessas reflexões, começaremos por nos perguntar como a filosofia grega lidou com fenômenos e dados da experiência humana que nossas "convenções" pós-clássicas acostumaram-se a atribuir à Vontade como fonte principal da ação. Para tal, voltamo-nos para Aristóteles, e isso por duas razões. Há, em primeiro lugar, o simples fato histórico da influência decisiva que a análise aristotélica da alma exerceu sobre todas as filosofias da Vontade — exceto no caso de São Paulo, que, como veremos, contentava-se com simples descrições e recusava-se a "filosofar" sobre suas experiências. Há, em segundo lugar, o fato não menos indubitável de que nenhum outro filósofo grego chegou tão perto de reconhecer a estranha lacuna de que falamos na língua e no pensamento grego, e pode, portanto, servir como um primeiro exemplo de como certos problemas psicológicos podiam ser resolvidos antes de a Vontade ser descoberta como uma faculdade autônoma do espírito.
 
O ponto de partida das reflexões de Aristóteles sobre o assunto é o insight antiplatônico de que a razão por si só não move coisa alguma. A questão, portanto, que orienta sua investigação é a seguinte: "O que é que, na alma, origina o movimento?" Aristóteles admite a noção platônica de que a razão dá ordens (keleuei) porque sabe o que se deve buscar e o que se deve evitar, mas nega que essas ordens sejam necessariamente obedecidas. O homem incontinente (seu exemplo paradigmático ao longo de toda essa investigação) segue seus desejos independentemente das ordens da razão. Por outro lado, por recomendação da razão, pode-se resistir a esses desejos. Logo, tampouco os desejos têm uma força inerente em si: por si sós, não originam movimento. Aqui Aristóteles está lidando com um fenômeno que, mais tarde, depois da descoberta da Vontade, aparece como a distinção entre vontade e inclinação. A distinção vem a tornar-se a pedra angular da ética kantiana, mas aparece primeiramente na filosofia medieval—por exemplo, na distinção de Mestre Eckhart entre "a inclinação para pecar e a vontade de pecar, não sendo a inclinação um pecado", o que deixa a própria questão dos atos maus completamente sem explicação: "Se nunca fiz o mal, mas apenas tive a vontade do mal... trata-se de um pecado tão grande quanto matar todos os homens, embora eu não tenha feito nada."

As teorias morais como sátiras - Espinosa

"Os filósofos concebem as emoções que se combatem entre si, em nós, como vícios em que os homens caem por erro próprio; é por isso que se habituaram a ridicularizá-los, deplorá-los, reprová-los ou, quando querem parecer mais morais, detestá-los. Julgam assim agir divinamente e elevar-se ao pedestal da sabedoria, prodigalizando toda espécie de louvores a uma natureza humana que em parte alguma existe, e atacando através dos seus discursos a que realmente existe. Concebem os homens, efetivamente, não tais como são, mas como eles próprios gostaria que fossem. Daí, por conseqüência, que quase todos, em vez de uma ética, hajam escrito uma sátira..."
 
(Espinosa, "Tratado Político")
 

Espinosa como precursor de Nietzsche

"Estou totalmente estupefato, maravilhado! Tenho um precursor, e que precursor! Eu não conhecia quase nada de Espinosa: que eu seja agora impelido a ele, foi um ‘ato instintivo’. Não só sua tendência geral é a mesma que a minha – fazer do conhecimento o mais potente dos afetos -, como me reencontro em cinco pontos capitais de sua doutrina; este pensador, o mais fora da norma e solitário, é-me nesses aspectos justamente o mais próximo […] In summa: minha solidão, que, como sobre o cume de elevadas montanhas, tantas e tantas vezes tornou minha respiração difícil e me fez sangrar, é, ao menos agora, uma ‘dualidão'”

Carta de Nietzsche a Overbeck, 30 de julho de 1881

 

A ciência como ameaça

Vera Portocarrero

"Temos assistido nos últimos anos a um debate sobre os diversos aspectos que constituem o que se compreende por ciência. Toma-se como ponto de partida a necessidade de repensar o otimismo cientificista, acirrado no século XIX, com o positivismo, pelo ideal de unidade, objetividade, progresso, e, sobretudo, pela noção de verdade científica como bem social. Supõe-se clara a meta de compreender a ciência, entender sua evolução, sondar suas origens, abordar suas crises, denunciar seu caráter de violência e de dominação da natureza e dos homens. Seu maior desafio agora não é dominar, mas salvaguardar o mundo. A ciência é hoje uma questão que preocupa cientistas e intelectuais, apresentando-se-nos, talvez pela primeira vez, desde Galileu, não mais apenas como adjuvante do trabalho, da saúde e das luzes, mas como risco. Já não se discutem as revoluções científicas restingindo-as a seu caráter metodológico, como se os cientistas fossem os trabalhadores da prova strito sensu, os trabalhadores meticulosos da boa consciência. Considera-se a ciência uma das maiores fontes de patologia e mortalidade do mundo contemporâneo, sobretudo depois da grande guerra. Enfatiza-se sua constituição ética e social, seja para desmitificar sua pretensão à neutralidade, seja para apontar o perigo que representa e a responsabilidade política de que deve estar investida. A ciência é apresentada como uma importante forma de poder, sobretudo em sua relação com a alta tecnologia que hoje conhecemos."

 

"Filosofia, História e Sociologia das Ciências"

 

Eutanásia: emergindo da sombra de Hitler

Peter Singer
 
Texto retirado do site "Crítica". Tradução de Álvaro Nunes e Joana Valente (pequenos ajustes foram realizados por mim...)
 
Durante cinquenta anos, Adolfo Hitler lançou uma longa e escura sombra sobre as discussões acerca da eutanásia. A sua sombra ainda persiste, na medida em que sempre que se debate a eutanásia, o declive ardiloso aparece debaixo dos nossos pés, fazendo-nos cair no Holocausto.
 
A passagem mais frequentemente citada acerca do nazismo e da eutanásia é a do psiquiatra americano, Major Leo Alexander, que foi encarreguado de fazer um relatório sobre a esterilização compulsória nazi e o assim chamado "programa de eutanásia".
 
Segundo Alexander:
 
"Quaisquer que tenham sido as proporções finalmente assumidas pelos crimes [nazis], para todos aqueles que os investigaram tornou-se vidente que, na origem, esses crimes tiveram começos modestos. Inicialmente, estes princípios consistiram apenas numa sutil mudança de ênfase na atitude básica dos médicos. Começou com a aceitação da atitude, básica no movimento a favor da eutanásia, de que há algo como uma vida que não merece ser vivida. Nos seus primeiros estágios, esta atitude respeitava apenas aos que estavam crônica e severamente doentes. Gradualmente, a esfera daqueles a serem incluídos na categoria foi alargada para englobar os socialmente improdutivos, os ideologicamente indesejados, os racialmente indesejados e finalmente todos os não-germânicos. Mas é importante perceber que a infinitamente pequena alavanca a partir da qual toda esta propensão mental recebeu o seu ímpeto foi a atitude para com os doentes não reabilitáveis." [1]

O homem como ser-aí - Peter Sloterdijk (Heidegger)

"O homem é o único ser que, para existir, tem de conquistar sua própria existência, pois o existir humano não se dá num simples viver e morrer. Para o homem, a morte, assim como a vida, é sempre uma conquista. Pobre de mundo, o animal simplesmente morre, não espera pela morte, nem teme a morte, e por isso mesmo não procura superar a morte. Mas o homem é um ser do mundo, e por isso morre determinado pela conquista de sua própria existência, um empenho de superação da morte. A vida humana é mais do que sinais vitais; é sentido. Não há nada no homem que seja puramente animal. A animalidade no homem é absorvida e transformada pela sua humanidade."
 
Denise Quintão, "Ética e Responsabilidade na Vida"
 
 
 
"Heidegger oferece-se para pôr um fim à imensurável omissão do pensamento europeu - a saber, não ter levantado a questão sobre a essência do ser humano da única maneira apropriada, que, para ele, é a maneira existencial-ontológica; pelo menos o autor indica sua disposição, por mais provisórias que sejam as inflexões pelas quais a questão vem à tona, de abordá-la finalmente em sua forma correta. Com esses rodeios aparentemente modestos, Heidegger deixa expostas consequências abaladoras: o humanismo, em suas formas antiga, cristã e iluminista, é declarado responsável por uma interrupção de dois mil anos no pensamento; é censurado por ter obstruído, com suas interpretações apressadas e aparentemente evidentes e indiscutíveis da essência do ser humano, o surgimento da genuína questão sobre essa essência. Heidegger explica que sua obra a partir de Ser e tempo se volta contra o humanismo não porque este tenha sobrevalorizado a humanitas, mas porque não lhe atribuiu um valor suficientemente elevado (Ü. d. H., p. 21). Mas o que significa atribuir um valor suficientemente elevado à essência do ser humano? Significa, em primeiro lugar, renunciar a uma habitual e errônea subestimação. A questão sobre a essência do ser humano não entra no rumo certo até que nos afastemos da mais velha, mais obstinada e mais perniciosa das práticas da metafísica europeia: definir o ser humano como animal rationale. Nessa interpretação da essência do homem, este continua a ser entendido como uma animalitas expandida por adições espirituais. Contra isso revolta-se a análise existencial-ontológica de Heidegger, pois, para ele, a essência do ser humano não pode jamais ser expressa em uma perspectiva zoológica ou biológica, mesmo que a ela se acresça regularmente um fator espiritual ou transcendente.

A ciência moderna procede da idealização

"A ciência moderna procede da idealização, quer dizer da determinação segundo a exatidão matemática, de tudo o que no mundo da vida, a Lebenswelt, permanece irredutivelmente imerso no flou eidético, na indeterminabilidade ao menos relativa mas sempre indefinidamente aberta dos seres e das coisas. Esta idealização que procede de alguma maneira da hipótese do espaço e do tempo como parâmetros imutáveis, passa de pronto pela «geometrização» do mundo natural, para se prolongar na «matematização», em direito integral, da natureza. Tal é, segundo a Krisis, o espírito galileano, ao qual o espírito cartesiano aporta uma espécie de comutador metafísico pela concepção da dualidade do pensamento e da extensão, entendamos, em termos que já não são mais aqueles de Descartes, o dualismo do que é matematizável, logo objetivo, segundo o método matemático da física de inspiração galileana, e do que parece aí escapar, mas sempre sob reserva de investigações científicas mais precisas, sob a forma da alma ou da subjetividade. Assim sendo, é por isto que Husserl denominava por «substrução» o campo idealizado das objetividades matemáticas que tende a se substituir ao mundo natural, quer dizer a esvaziá-lo de seu sentido, este não se encontrando mais senão nas operações lógico-matemáticas e no sujeito operador da ciência, considerado todo poderoso, «mestre e possuidor da natureza». Toda questão do sentido que não será mais regrada pelo método matemático se torna por aí ilegítima, rejeitada na zona flou do não ainda conhecido e do irracional. O dualismo de inspiração cartesiana é tal que a alma ou a subjetividade, espécie de reduto para as questões de senso, se encolhe como uma ameixa."
 
(Marc Richir, "Science et phénoménologie")
 

O que é uma coisa? - Heidegger

"Colocamos, neste curso, uma questão de entre as que pertencem ao domínio das questões fundamentais da metafísica. Ela tem o seguinte teor: «Que é uma coisa?». A questão é já antiga. O que nela é sempre novo é o fato de ter de ser continuamente posta. 
 
Poderia iniciar-se, imediatamente, uma vasta discussão acerca desta questão, antes mesmo de ela ter sido, em geral, corretamente colocada. Num certo sentido, isso seria legítimo, porque a filosofia, quando se inicia, encontra-se numa situação desfavorável. O mesmo não acontece com as ciências, pois a estas as representações, opiniões e maneiras de pensar quotidianas atribuem sempre uma entrada e um acesso imediatos. Se o modo habitual de representar for tomado como a única medida de todas as coisas, a filosofia, então, será sempre algo de deslocado. Este deslocamento, que é próprio da atitude pensante, apenas se pode consumar por meio de um afastamento violento. Os cursos científicos pelo contrário, podem começar imediatamente pela exposição do seu objeto. Os níveis assim escolhidos para o questionar não tornarão a ser abandonados, mesmo que as questões se tornem mais complicadas e mais difíceis. 
 
Pelo contrário, a filosofia efetua uma deslocação permanente das posições e dos níveis. Com ela, muitas vezes, não se sabe qual é a parte de cima e a parte de baixo. Mas, para não tornar excessiva esta desorientação inevitável e quase sempre salutar, é necessário um esclarecimento provisório acerca do que vai ser questionado. Por outro lado, este esclarecimento traz consigo o perigo de se falar pormenorizadamente de filosofia sem pensar no seu sentido. Dedicaremos a primeira lição, e apenas ela, ao esclarecimento do nosso projeto.

O desejo de uma só moral: por que e pra quem? - Nietzsche

"Considerando que as paixões e os instintos fundamentais exprimem, em toda raça e em toda classe, algo das condições de existência destas (— ao menos das condições em que vivem há longo tempo), exigir que sejam “virtuosas” seria pedir: que transformassem seu caráter, que mudassem de pêlo e desfizessem seu passado; que cessassem de se diferenciarem; que se aproximassem pela semelhança de suas necessidades e de suas aspirações, — mais exatamente: que perecessem... 
 
A vontade de uma só moral consiste, portanto, em ser a tirania de uma espécie, a qual serviu de medida para a moral única, em detrimento das outras espécies: é a destruição ou a uniformização em favor da moral reinante (ou para não mais lhe ser perigosa, ou para ser explorada por ela). “Supressão da escravidão” — na aparência um tributo trazido à “dignidade humana”, na realidade a destruição de uma espécie fundamentalmente diferente."
 
Nietzsche, "Vontade de Potência / Parte II"
 

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