O nascimento da Filosofia: o milagre grego

"O pensamento racional tem um registro civil: conhece-se a sua data e o seu lugar de nascimento. Foi no século VI antes da nossa era, nas cidades gregas da Ásia Menor, que surgiu uma forma de reflexão nova, inteiramente positiva, sobre a natureza. Burnet exprime a opinião corrente quando observa a este propósito: "Os filósofos jônios abriram o caminho que a ciência não fez depois senão seguir". O nascimento da filosofia, na Grécia, marcaria assim o começo do pensamento científico, — poder-se-ia dizer simplesmente: do pensamento. Na Escola de Mileto, o logos ter-se-ia pela primeira vez libertado do mito como as escaras caem dos olhos do cego. Mais do que uma mudança de atitude intelectual, do que uma mutação mental, tratar-se-ia de uma revelação decisiva e definitiva: a descoberta do espírito. Seria por isso vão procurar no passado as origens do pensamento racional. O pensamento verdadeiro não poderia ter outra origem senão ele próprio. É exterior à história, que só pode, no desenvolvimento do espírito, dar a razão de obstáculos, de erros e de ilusões sucessivas. Tal é o sentido do "milagre" grego: através da filosofia dos jônios, reconhece-se a Razão intemporal encarnada no tempo. O aparecimento do logos introduziria portanto na história uma descontinuidade radical. Viajante sem bagagem, a filosofia viria ao mundo sem passado, sem pais, sem família; seria um começo absoluto.

Senso-comum: o despertar do sonho caótico da existência humana

O que é o tão mencionado "senso comum" na história do pensamento ocidental? Onde e quando perdemos o sentido tão rico que Empédocles, notável pré-socrático, lhe atribuía?
 
"Tudo tem seu nome apropriado. E há uma expressão que se encaixa na perfeição ao estado extraordinário de consciência (awareness) que Empédocles tinha em mente. Trata-se de "senso comum", expressão tão casual e alusivamente familiar, que, no entanto, tem um antigo e respeitável pedigree. "Sensus communis" em latim traduz koine aisthesis em grego, que por sua vez tem mais de dois mil anos de uso. A história desta expressão pode resumir em grande parte a história do pensamento ocidental, todo nosso aprendizado, nosso conhecimento e nossos equívocos intelectuais.
 
Para Empédocles a descoberta do "senso comum" — dessa consciência que é capaz de ouvir e ver e tocar e sentir e saborear ao mesmo tempo — era uma questão de experiência direta. E "experienciar" (aisthesis) era dar início ao despertar do sonho caótico da existência humana. Mas esta consciência era e ainda é tão rara, tão exigente sobre o que somos, tão incompreensível para as pessoas em geral porque tão distante do alcance de nossas mentes vagueantes, que o único caminho para se ter acesso a ela é através de um guia que tenha superado a simples condição humana.

Mind your own business - Epicteto

Epicteto foi um escravo nascido em Hierapolis, próximo de Éfeso, que viveu entre os anos 50 e 130 de nossa era, no auge do Império Romano. Atendendo a sua solicitação seu dono, Epaphroditus, em Roma, este permitiu que estudasse filosofia com Musonius Rufus, considerado um dos quatro grande estoicos romanos, juntamente com Sêneca, Marco Aurélio e o próprio Epicteto, que se tornou um mestre estoico renomado, não tendo escrito nada, mas nos sendo legado alguns registros de suas falas com seus discípulos, anotadas por estes. O Imperador Marco Aurélio, que foi um grande filósofo estoico, considera Epicteto como seu mestre, apesar de só tê-lo conhecido por estes escritos.
 
Segue o início de seu manual, que assim se intitulava pois se dizia ser algo que devíamos ter sempre à mão. Embora em uma primeira análise as colocações soem simplórias, notem a semelhança com as colocações modernas do tipo "mind your own business":
 
"1.1. Algumas coisas estão dentro de nosso poder, enquanto outras não estão. Dentro de nosso poder estão opinião, motivação, desejo, aversão, e, em resumo, o que quer que seja de nosso próprio fazer; não estão em nosso poder, nosso corpo, nossa propriedade, reputação, ofício, e, em resumo, o que quer que não seja de nosso próprio fazer.
 
2. As coisas que estão dentro de nosso poder são por natureza livres, e imunes à impedimento e obstrução, enquanto aquelas que não estão dentro de nosso poder são fracas, servis, sujeitas a impedimentos, e não propriamente nossas.

Do mito à Filosofia - Rodrigo Siqueira-Batista

"Mas, então, como germinou, no húmus mito-poético, a filosofia? Um bom ponto de partida seria a constatação de que, em um momento bastante anterior ao surgimento do pensamento filosófico, torna-se identificável um mito já secularizado, o que gerou diferentes conseqüências como apontado por M. Eliade:
 
Em nenhuma outra parte vemos, como na Grécia, o mito inspirar e guiar não só a poesia épica, a tragédia e a comédia, mas também as artes plásticas; por outro lado, a cultura grega foi a única a submeter o mito a uma longa e penetrante análise, da qual ele saiu radicalmente “desmitizado”. A ascensão do racionalismo jônico coincide com uma crítica cada vez mais corrosiva da mitologia “clássica”, tal qual é expressa nas obras de Homero e Hesíodo. Se em todas as línguas européias a palavra “mito” denota “ficção”, é porque os gregos o proclamaram há vinte e cinco séculos.
 
Estas colocações dão margem à identificação, no curso da filosofia grega, da referida desmitificação que se insinua ainda antes do brotamento desta nova razão, tendo sido igualmente capaz de caminhar em paralelo com o pensamento filosófico. Mas isto, por si só, não foi suficiente. A transição do mito para a filosofia não pode ser compreendida simploriamente como um esmaecimento das narrativas míticas ou como simples dessacralização da religião, mesmo porque o mito permanece presente, de certo modo, nas formulações filosóficas ulteriores:
 
O início da filosofia não coincide, assim, nem com o princípio do pensamento racional nem com o fim do pensamento mítico. Mitogonia autêntica ainda encontramos na filosofia de Platão e na de Aristóteles. São exemplos o mito da alma em Platão, e, em Aristóteles, a idéia do amor das coisas pelo motor imóvel do mundo. (Jaeger, "Paideia: a formação do homem grego")

Ethos: o homem é ético por natureza

"Para se interrogar, é preciso dois, aquele que interroga e aquilo que é interrogado. Confundido com a natureza, o animal não pode se interrogar. Eis aí, me parece, o ponto que procuramos. O animal e a natureza são um só. O homem e a natureza são dois."
 
Vencors, "Os Animais Desnaturados"
 
 
"O ethos (eta inicial) diz essa intensificação comportamental. Essa tendência, em agir sempre da mesma maneira, pertence a todos os seres, inclusive o homem. Ethos (eta inicial), diz, então, a morada de cada ser, o padrão que normalmente um ser vivo realiza. Todo ser vivo tem seu ethos (eta inicial). Na Grécia, em geral, principalmente no período clássico, criou-se o costume de usar a palavra ethos (eta inicial), neste sentido, como referência ao modo de ser humano. O homem marca o ambiente, o espaço, as constâncias, as coordenadas em que ele se realiza, como mundo. O homem é ser do mundo. Ser-no-mundo é o ethos (eta inicial) de um ser errante, de um ser em constante transformação de si mesmo, pelo pensamento.

Cada língua pode dizer tudo - Gadamer

"Talvez êste livro somente seja compreendido por quem já tenha cogitado por si próprio os pensamentos aqui expressos, ou ao menos cogitado pensamentos semelhantes. Não é, pois, um manual. Terá alcançado seu objetivo se agradar a quem o ler com atenção.Trata de problemas filosóficos e mostra, creio eu, que o questionar dêsses problemas repousa na má compreensão da lógica de nossa linguagem. Poder-se-ia apanhar todo o sentido do livro com estas palavras: em geral o que pode ser dito, o pode ser claramente, mas o que não se pode falar deve-se calar. Pretende, portanto, estabelecer um limite ao pensar, ou melhor, não ao pensar mas à expressão do pensamento, porquanto para traçar um limite ao pensar deveríamos poder pensar ambos os lados dêsse limite (de sorte que deveríamos pensar o que não pode ser pensado). O limite será, pois, traçado úricamente no interior da língua; tudo o que fica além dêle será simplesmente absurdo."

Ludwig Wittgenstein, "Tractatus Logico-Philosophicus"

 

"Como se faz a experiência do mundo? Não é sempre através da linguagem que nos aproximamos dos fatos e não é a linguagem que preforma todas as possibilidades de interpretar os resultados de nossas observações? Se é verdade que a linguagem é tão decisiva em nossa abordagem das coisas, talvez se ache que isso coloca em perigo o valor de nosso conhecimento do mundo. Mas eu acho que se subestimam nesse caso as possibilidades da linguagem; o relativismo de que se suspeita ao se considerar a variedade e a multiplicidade das línguas parece algo muito fictício. Existe o fenômeno da tradução, sabe-se aprender uma língua estrangeira, utilizá-la e empregar vários esquematismos lingüísticos, e não se pensa de forma alguma em perder algo ao se mergulhar numa nova língua. Ao contrário, percebe-se que tudo se torna mais vasto, mais amplo, que tudo é novo e é por isso que é interessante e instrutivo. A teoria que permite descrever esse resultado é a teoria da hermenêutica. Isso significa que cada língua oferece a possibilidade de dizer tudo. E é por isso que cada língua não é absolutamente uma limitação de nossa experiência e é apenas um intermediário que nos aproxima das coisas. Decerto é sempre uma aproximação um tanto limitada, mas é possível mudar de perspectiva, é possivel nos aproximarmos de um outro ponto de vista numa outra língua etc. Por isso o caso da hermenêutica é fundamental e não se limita a uma questão de metodologia das ciências. Pois aproximar-se do mundo pela linguagem não é típico das ciências humanas, mas da situação humana em geral. Para explicar essa situação, deve-se naturalmente examinar todas essas formas, todas essas possibilidades da linguagem e acho que existe aqui uma aproximação muito fértil, que ainda não é utilizada suficiente, entre a língua cotidiana na Inglaterra e nossa análise da tradição continental."

(Gadamer, "A arte de compreender")

 

Kant e a boa vontade

"Sou por gosto um investigador. Sinto sede de conhecimento e a ávida inquietação de progredir, tanto quanto a satisfação que dá qualquer auisição. Houve um tempo em que acreditava que só isso poderia fazer a honra da humanidade, e desprezava a a plebe que tudo ignora. Este privilégio ilusório desvaneceu-se, aprendo a honrar os homens e considerar-me-ia mais inútil que o comum dos trabalhadores se não estivesse convencido de que a especulação a que me dedico pode conferir a tudo o resto um valor: fazer realçar os direitos da humanidade."
 
Imannuel Kant, "Observations sur le beau et le sublime"
 
 
A missão da filosofia de Kant vai constituir em dar plena terminação ao movimento iniciado pela atitude idealista. Segundo Manuel Garcia Morente (Fudamentos de Filosofia), era preciso que o processo iniciado por Descartes chegasse a seu término e conclusão, ou seja, um pensador capaz de arrematar as possibilidades contidas na atitude idealista. Mas em que consiste este idealismo? A concepção que assinala ao "espírito" (ideias) uma posição dominante no conjunto do ser. De forma muito reduzida e beirando uma deformação de seu sentido, seria a concepção de que existe uma parte de mim que pensa, ou seja, um "pedaço" do homem capaz de deliberar, escolher, autonomamente, dentre as possibilidades que o mundo oferece. Assim, pois, Kant seria o fim (não fosse a retomada sartriniana) de um período que se inicia com Platão (psikhé e sôma). No campo da moral, o problema básico de Kant foi descobrir o significado do que é justo e injusto, do bem e do mal. Para Frost, ao atacar o problema, acatou, como fundamental, o princípio de Rousseau, de que a única coisa absolutamente boa, no mundo, é a vontade humana governada pelo respeito para com as leis morais ou a consciência de dever e, neste sentido, Kant chegou a afirmar que Rousseau era o "Newton do mundo moral". Neste trecho retirado do livro "A Filosofia Explica as Grandes Questões da Humanidade", o Prof. Clóvis de Barros Filho explica, com enorme clareza, a ruptura do pensamento kantiano com a tradição grega. A dignidade moral, para Kant, é uma questão de "trabalho", de esforço, onde qualquer homem é capaz de "escapar" do programa da Natureza (physis!?), libertando-se da lógica das tendências naturais. Nascem aqui os direitos da humanidade.
 
"A reflexão sobre a liberdade está no coração do pensamento moral de Kant, cujas contribuições no campo da filosofia são destaque também quando se trata de abordar as condições do conhecimento e os limites da razão. Seus textos são herméticos. Mas não podemos nos acovardar. Tentaremos identificar o que o autor queria dizer de mais fundamental. O que ele destacaria se quisesse facilitar a compreensão do leitor. E, se possível, você poderá abrir a primeira página do texto intitulado Fundamentação da metafísica dos costumes. O que dissermos até aqui facilitará o acesso à informação. Kant não espera muito para dar o tom. Apresenta-se como herdeiro da antropologia de Rousseau. E em ruptura com o pensamento grego. Porque o que pode ser bom, virtuoso e digno não são os talentos naturais.

Sobre a educação das crianças - Montaigne

“It is not so very important for a person to learn facts. For that he does not really need a college. He can learn them from books.  The value of an education in a liberal arts college is not the learning of many facts, but the training of the mind to think something that cannot be learned from textbooks.”
 
Albert Einstein
 
 
"Mas na realidade disso [educação das crianças] só entendo que a maior e mais importante dificuldade da ciência humana parece residir no que concerne à instrução e à educação da criança. O mesmo acontece na agricultura: o que precede à semeadura é certo e fácil; e também plantar. Mas depois de brotar o que se plantou, difíceis e variadas são as maneiras de tratá-lo. Assim os homens: pouco custa semeá-los, mas depois de nascidos, educá-los e instruí-los é tarefa complexa, trabalhosa e temível. O que se revela de suas tendências é tão tênue e obscuro nos primeiros anos, e as promessas tão incertas e enganadoras que se faz difícil assentar um juízo seguro. [...] Tudo se submeterá ao exame da criança e nada se lhe enfiará na cabeça por simples autoridade e crédito. Que nenhum princípio, de Aristóteles, dos estoicos ou dos epicuristas, seja seu princípio. Apresentem-se-lhe todos em sua diversidade e que ele escolha se puder. E se não o puder fique na dúvida, pois só os loucos têm certeza absoluta em sua opinião.
 
Porque se por reflexão própria abraçar as opiniões de Xenofonte e Platão, elas deixarão de ser deles e se tornarão suas. Quem segue outrem não segue coisa nenhuma; nem nada encontra, mesmo porque não procura.

Prometeu e Epimeteu: a origem da astúcia

“Houve um tempo em que só havia deuses, sem que ainda existissem criaturas mortais. Quando chegou o momento determinado pelo Destino, para que estas fossem criadas, os deuses as plasmaram nas entranhas da terra, utilizando-se de uma mistura de ferro e de fogo, acrescida dos elementos que ao fogo e à terra se associam. Ao chegar o tempo certo de tirá-los para a luz, incumbiram Prometeu e Epimeteu de provê-los do necessário e de conferir-lhes as qualidades adequadas a cada um. Epimeteu, porém, pediu a Prometeu que deixasse a seu cargo a distribuição. Depois de concluída, disse ele, farás a revisão final. Tendo alcançado o seu assentimento, passou a executar o plano.
 
Nessa tarefa, a alguns ele atribuiu força sem velocidade, dotando de velocidade os mais fracos; a outros deu armas; para os que deixara com natureza desarmada, imaginou diferentes meios de preservação; os que vestiu com pequeno corpo, dotou de asas, para fugirem, ou os proveu de algum refúgio subterrâneo; os corpulentos encontravam salvação nas próprias dimensões. Destarte agiu com todos, aplicando sempre o critério de compensação. Tomou essas precauções, para evitar que alguma espécie viesse a desaparecer.
 
Depois de haver providenciado para que não se destruíssem reciprocamente, excogitou os meios de protegê-los contra as estações de Zeus, dotando-os de pelos abundantes e pele grossa, suficientes para defendê-los do frio ou adequados para tornar mais suportável o calos, ao mesmo tempo que servissem a cada um de cama natural, quando sentissem necessidade de deitar-se. Alguns dotou de cascos nos pés; outros, de garras, e outros, ainda, de peles calosas e desprovidas de sangue. De seguida, determinou para todos eles alimentos variados, de acordo com a constituição de cada um; a estes, erva do solo; a outros, frutos das árvores; a terceiros, raízes, e a alguns, ainda, até mesmo outros animais como alimento, limitando, porém, a capacidade de reprodução daqueles, ao mesmo tempo que deixava prolíficas suas vítimas, para assegurar a conservação da espécie.

O vazio por trás das ideias de bem e mal - Spinoza

"Depois que a experiência me ensinou que tudo que frequentemente ocorre na vida comum é vão e fútil, como via que tudo que me provocava temor e que eu temia não tinha em si nada de bom nem de mau, a não ser na medida em que o ânimo era comovido por isso, decidi finalmente indagar se existia algo que fosse um bem verdadeiro [...]"

(Spinoza, Tratado da reforma do intelecto)

 

"O que permite a uma pessoa perguntar-se por um bem verdadeiro? Fundamentalmente, a desconfiança de que os bens (e também os males) que lhe foram propostos sejam incertos. Ao ensinar o vazio por trás das ideias de bem e mal, que "não se dizem senão relativamente", a experiência nos leva a supeitar da escala de valores da "vida comum", à qual somos todos apresentados tão logo nos damos por gente. Nesse sentido, deparamos uma experiencia da desconfiança que põe em suspensão as certezas da vida comum. Esse primeiro traço característico da experiência (a desconfiança) nos conduz a outro, talvez até mais primordial: trata-se de uma experiência da decepção. Os bens da vida comum quando nos são apresentados, envolvem uma promessa e nos propõem um trato: se acedermos a eles, eles nos trarão algo. Como sabemos pelo Tratado, porém, a certeza da vanidade e futilidade do que ocorre na vida comum deve-se à experiência de que tal vida não cumpre suas promessas. Ou seja, seus bens tornam-se incertos porque deles desconfiamos, e deles desconfiamos porque se mostraram decepcionantes.

Decepção e desconfiança articulados, esses sentimentos dão forma a um tipo determinado de experiência que, ao abalar o sistema da vida comum em que estamos inseridos, abre um campo de novas possibilidades, em especial a possibilidade de uma nova vida. A despeito do conteúdo dessa experiência, reafirmemos, cabe insistir nos seus efeitos, extremamente próximos dos daquela mencionada no apêndice.

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