Galileu - um mito da Modernidade

"A verdadeira missão de Galileu foi de aportar aos ocidentais a tecnociência da qual eles sonhavam desde muito tempo. A saber uma ciência destacada de toda perspectiva espiritual, puramente operatória, astuciosamente adaptada aos hábitos mentais e às necessidades materiais dos burgueses modernos."
 
Pierre Thuillier, La Grand Implosion
 
 
"Na mitologia da modernidade, o processo de Galileu constitui um dos mitos poderosos. Este processo em sua versão mítica, assinalaria um momento de inflexão na história do mundo, um momento em que um espírito independente se levantou face às forças das trevas. Há tão pouca verdade nesta imagem quanto no relato das experiências de Galileu na Torre de Pisa. Um dos melhores historiadores da atualidade (Pietro Redondi) fala da “proteção espetacular que o Papa Urbano VIII aportou a Galileu” (apud Marejko, 1989).
 
Além do mais, a mais cursiva leitura da mais modesta biografia de Galileu nos mostra ele profundamente ligado à Igreja e ajudado por numerosos eclesiásticos. Embora tenha sido interrogado pela Inquisição, jamais foi torturado e, durante sua confortável estadia em Roma quando deste interrogatório, ele tinha dois servidores, um para a mesa e outro para seu quarto.
 
Assim, apesar da propaganda contrária, a ciência moderna não é tanto o fruto de uma resistência do espírito de livre exame às pressões obscurantistas da tradição mas o fruto desta tradição mesma. É verdade que este fruto, em certo sentido, está envenenado, na medida que a ciência moderna nos põe em um "universo desencantado", não por nos conduzir por um caminho de conhecimento do universo, mas ao contrário, por um caminho de manipulação do universo."
 
Marejko, Jan (1989), Le territoire métaphysique. L'Age d'homme, Paris, pg. 151
 

O que é "fenômeno" - Heidegger

A tarefa que desafia o pensamento atual não tem quaisquer precedentes. E exige uma forma de pensar completamente nova. Esse novo modo de pensar é mais fácil que a filosofia convencional, mas também é mais difícil, porque exige um uso mais cuidadoso da linguagem.
 
Heidegger, "BBC - Human, All Too Human"
 
"A expressão grega, a que remonta o termo "fenômeno", significa: mostrar-se e, por isso, diz o que se mostra, o que se revela. Já em si mesmo, porém, é a forma média de trazer para a luz do dia, pôr no claro, a claridade, isto é, o elemento, o meio, em que alguma coisa pode vir a se revelar e a se tornar visível em si mesma. Deve-se manter, portanto, como significado da expressão "fenômeno" o que se revela, o que se mostra em si mesmo. "Os fenômenos" constituem, pois, a totalidade do que está à luz do dia ou se pode pôr à luz, o que os gregos identificavam, algumas vezes, simplesmente com: (os entes), a totalidade de tudo que é. Ora, o ente pode-se mostrar por si mesmo de várias maneiras, segundo sua via e modo de acesso. Há até a possibilidade de o ente mostrar-se como aquilo que, em si mesmo, ele não é. Neste modo de mostrar-se, o ente "se faz ver assim como..." Chamamos de aparecer, parecer e aparência (Scheinen) a esse modo de mostrar-se. Em grego, a expressão, "fenômeno", possui também o significado do que "se faz ver assim como", da "aparência", do que "parece e aparece"; designa um bem, que se deixa e faz ver como se fosse um bem, mas que "na realidade" não é assim como se dá e apresenta. A compreensão posterior de fenômeno depende de uma visão de como ambos os significados de fenômeno (fenômeno como o que se mostra, e fenômeno como aparecer, parecer e aparência) se interrelacionam em sua estrutura. 

Aristóteles - por uma vida boa

The selfish, they're all standing in line.. Faithing and hoping to buy themselves time.. Me, I figure as each breath goes by, I only own my mind [...] I know I was born and I know that I'll die.. The in between is mine, I am mine [...] 

The ocean is full 'cause everyone's crying.. 
The full moon is looking for friends at hightide.. The sorrow grows bigger when the sorrow's denied, I only know my mind, I am mine [...]

 
Eddie Vedder, "I Am Mine"

 

"[...] como ele era quando jovem? Não temos documentos privados desse período, mas sabemos de um belo ensaio, a Exortação à Filosofia, que ele publicou aos seus trinta e poucos anos. Esse ensaio revela uma trama bem diferente no tecido do pensamento de Aristóteles e complementa aquilo que seu testamento nos conta sobre ele.

As boas coisas de que gozamos, Aristóteles diz, como a riqueza e a saúde, não têm nenhum valor se nossa alma não for boa. Da mesma maneira como a alma é superior ao corpo, a parte racional da alma é superior à parte irracional. A melhor coisa que podemos fazer é promover o que há de melhor na melhor parte de nós, que é ser tão racional quanto possível e passar a conhecer as coisas mais importantes. Esse estado de conhecimento é uma virtude em si mesmo e traz consigo suas próprias recompensas, já que nós naturalmente gostamos de compreender as coisas. É natural e certo para nós tornarmo-nos animais racionais e, se não o fizermos, então poderemos ser homens vivos, mas não estaremos vivendo como homens; poderemos ter prazer enquanto vivermos, sem ter prazer em viver. A única maneira de realizarmos nossa natureza humana é realizar nossa natureza divina, e a mente é o elemento divino em nós; em virtude de possuirmos razão, podemos aproximar-nos do feliz estado dos deuses. "O homem destituído de percepção e de mente é reduzido à condição de uma planta; destituído tão-somente de mente é tornado um bruto; destituído de irracionalidade, mas conservando a mente, torna-se como Deus.

Só sei que nada sei: a frase que Sócrates nunca disse...

No mês de fevereiro do ano de 399, Sócrates morria, condenado por seus concidadãos a tomar cicuta (veneno) aos 71 anos de idade. Diante do tribunal, foi acusado por Meleto (poeta), Anitos (político) e Lição (personagem de pouca expressão), por desvirtuar a juventude de sua época. Não podemos conhecer Sócrates diretamente, pois nada escreveu, mas através de seus discípulos, Platão e Xenofonte, ou uma sátira de sua filosofia, com Aristófanes. De forma muito reduzida, podemos dizer que tudo nele consistia em pôr os homens à prova, sobretudo de seus conceitos e verdades. No trecho abaixo, Sócrates faz sua defesa pública e é exatamente nesta passagem que atribui-se ao ateniense a frase: "só sei que nada sei", sua expressão mais famosa, no entanto, jamais dita. Se Sócrates nunca utilizou tal sentença, o que de fato ele disse? Leiamos com atenção:

"Qual vem a ser a ciência? A que é, talvez, a ciência humana. É provável que eu a possua realmente, os mestres mencionados há pouco possuem, quiçá, uma sobre-humana, ou não sei que diga, porque essa eu não aprendi, e quem disser o contrário me estará caluniando. Por favor, Atenienses, não vos amotineis, mesmo que eu vos pareça dizer uma enormidade; a alegação que vou apresentar nem é minha; citarei o autor, que considerais idôneo. Para testemunhar a minha ciência, se é uma ciência, e qual é ela, vos trarei o deus de Delfos. Conhecestes Querefonte, decerto. Era meu amigo de infância e na também amigo do partido do povo e seu companheiro naquele exílio de que voltou conosco. Sabeis o temperamento de Querefonte, quão tenaz nos seus empreendimentos. Ora, certa vez, indo a Delfos, arriscou esta consulta ao oráculo — repito, senhores; não vos amotineis — ele perguntou se havia alguém mais sábio que eu; respondeu a Pítia que não havia ninguém mais sábio. Para testemunhar isso, tendes aí o irmão dele, porque ele já morreu.

O Julgamento de Sócrates

"Não tenho outra ocupação senão a de vos persuadir a todos, tanto velhos como novos, de que cuideis menos de vossos corpos e de vossos bens do que da perfeição de vossas almas, e a vos dizer que a virtude não provém da riqueza, mas sim que é a virtude que traz a riqueza ou qualquer outra coisa útil aos homens, quer na vida pública quer na vida privada. Se, dizendo isso, eu estou a corromper a juventude, tanto pior; mas, se alguém afirmar que digo outra coisa, mente"
 
Platão, "Apologia"
 
 
"Diante do tribunal popular, Sócrates é acusado pelo poeta Meleto, pelo rico curtidor de peles, influente orador e político Anitos, e por Lição, personagem de pouca importância. A acusação era grave: não reconhecer os deuses do Estado, introduzir novas divindades e corromper a juventude. O relato do julgamento feito por Platão (428-348 a.C.) a Apologia de Sócrates, é geralmente tido como bastante fiel aos fatos e apresenta-se dividido em três partes. Na primeira, Sócrates examina e refuta as acusações que pairam sobre ele, retraçando sua própria vida e procurando mostrar o verdadeiro significado de sua "missão". E proclama aos cidadãos que deveriam julgá-lo: "Não tenho outra ocupação senão a de vos persuadir a todos, tanto velhos como novos, de que cuideis menos de vossos corpos e de vossos bens do que da perfeição de vossas almas, e a vos dizer que a virtude não provém da riqueza, mas sim que é a virtude que traz a riqueza ou qualquer outra coisa útil aos homens, quer na vida pública quer na vida privada. Se, dizendo isso, eu estou a corromper a juventude, tanto pior; mas, se alguém afirmar que digo outra coisa, mente". Noutro momento de sua defesa, Sócrates dialoga com um de seus acusadores, Meleto, deixando-o embaraçado quanto ao significado da acusação que lhe imputava — "corromper a juventude". 

O homem enquanto recusa - Eudoro de Sousa

"Se, de chofre e à queima-roupa, me desfechassem a mais preocupante, a mais inquietante de todas as questões: «Que é o homem?», creio que responderia com desassombro e sem hesitação: «O homem é o animal que se recusa a aceitar o que gratuitamente lhe deram e gratuitamente lhe dão.» Não me perguntem agora quem dá o que o homem recusa. Só importa a recusa da gratuidade. O homem se lhe recusa; o homem é a própria recusa, antes de ser o asno o que quer que seja ou o que quer que venha a ser. Pelo menos, ao que me parece, é esta a que está antes de qualquer outra determinação do homem, de todas as suas possíveis ou realizadas determinações. Que dela decorrem, uma a uma, todas as demais — as que se nos deparam em todos os livros de antropologia e de história que se leiam da única maneira de ler, as que se nos oferecem através de uma leitura interrogante. A Recusa está no fundo do abismo sem fundo, aonde tentamos descer, em busca do ser-origem do homem, que mora na intimidade de qualquer dos homens. No entanto, se falamos absurdamente do «fundo de um abismo sem fundo», é porque queremos deixar em aberto a questão de averiguar se a tal Recusa está efetivamente no término (ou no início) do pensar o ser do homem. Talvez mais, muito mais e mais além houvesse que perguntar; que perguntar, sobretudo, haveria se este pensar não tem que descer ao limite do pensável, ao liminar do impensável, e que transpô-lo decididamente, ou se não haverá que deter-nos no meio da escarpa, da escarpa que não tem «meio» se o abismo não tem «fundo». Mas para baixo do meio — que o seja ou não seja — há o mito: Adão recusou-se a prosseguir vivendo no Paraíso. Não importa que não seja esta a letra exata do relato mítico: tudo veio a passar-se como se assim fosse. Aqui, a referência ao Primeiro Homem faz-se só modo de apontar para o que do homem parece característica primeira, e semelhante característica mostra-se-nos como ilusão de um orgulhoso triunfo sobre o Exílio. A Recusa do Paraíso é, pois, a versão já humana do próprio acontecer humano, a primeira afirmação do homem, que é um querer firmar-se ele em si mesmo.

Ethos (eta inicial) - Heidegger

"O ethos (eta inicial), como postura do modo de ater-se do homem em meio aos homens, só diz respeito ao homem. Só que o ethos vem ao encontro dos homens na propriedade de ser no ethos e pelo ethos que o homem tem em referência à totalidade dos entes. Por isso, o ethos só diz respeito ao homem.
[...]
Como atitude capaz de enunciados, o logos pertence ao ethos. Essa é a postura que vigora em todo comportamento. Por isso, como saber do comportamento das posturas humanas, a ética é o saber mais abrangente, incluindo a lógica. A "lógica" é, por sua vez, uma ética específica, aquela do comportamento de propor enunciados, a ética do logos, da enunciação. Sendo assim, cai por terra o fundamento de que a lógica deve parear-se com, ou preceder, as outras duas, a física e a ética. Pensado em suas remissões universais e modos de comportamento frente à totalidade dos entes e, assim, pensado a partir do todo, o homem se determina pelo êthos. Por isso podemos dizer, com algum direito, que o homem é aquele ente, em meio à totalidade dos entes, cuja essência se distingue pelo ethos."
 
Heidegger, "Heráclito"
 

Sobre a história da Filosofia - Leonel Franca

"A história da filosofia é a exposição crítica metódica dos principais sistemas e das mais importantes escolas. Seguir o pensamento humano nas diferentes fases de seu desenvolvimento através das idades, inventariar os esforços e as tentativas feitas nas diversas épocas pelas mais poderosas inteligências para dar uma solução racional e científica às mais altas questões acerca de Deus, do homem e do universo, tal é o seu objeto. Como a história de tôdas as ciências, também a da filosofia deve ser crítica e metódica. [...] Sem crítica, a história pensamento não passaria de um repositório morto de idéias, de um estudo sem vida, estéril e até prejudicial.

Ante o desfilar vertiginoso de tantas opiniões contraditórias, inteligências novas ou pouco afeitas à reflexão poderiam levianamente inclinar-se a um ecletismo fácil ou deixar-se entrar dos esmorecimentos do ceticismo. Incumbe, por isso, ao historiador o dever de julgar os sistemas, joeirando-lhes o verdadeiro do falso, o certo do duvidoso, o inconcusso do controvertível, e assinando a cada filósofo a sua contribuição para o progresso ou atraso do saber. Assim se procede na história de todas as ciências. Assim se deverá proceder também na história da filosofia.

Mas com que critério se hão de apreciar as doutrinas filosóficas? Certamente, não com os preconceitos de sistema. O kantismo e o positivismo, o materialismo e o panteísmo ou outro qualquer sistema preconcebido não podem servir de craveira, por onde há de aferir o progresso do pensamento. Julgar assim fôra expor-se a falsear a história e a desnaturar os fatos. O critério único que em semelhantes apreciações deve servir de norma ao historiador é o critério da evidência, é a conformidade das doutrinas com os primeiros princípios da razão. Julgada aos reflexos desta luz, a verdade ressairá sempre mais brilhante e o êrro, cedo ou tarde, se manifestará no absurdo de suas contradições.

O nascimento da Filosofia: o milagre grego

"O pensamento racional tem um registro civil: conhece-se a sua data e o seu lugar de nascimento. Foi no século VI antes da nossa era, nas cidades gregas da Ásia Menor, que surgiu uma forma de reflexão nova, inteiramente positiva, sobre a natureza. Burnet exprime a opinião corrente quando observa a este propósito: "Os filósofos jônios abriram o caminho que a ciência não fez depois senão seguir". O nascimento da filosofia, na Grécia, marcaria assim o começo do pensamento científico, — poder-se-ia dizer simplesmente: do pensamento. Na Escola de Mileto, o logos ter-se-ia pela primeira vez libertado do mito como as escaras caem dos olhos do cego. Mais do que uma mudança de atitude intelectual, do que uma mutação mental, tratar-se-ia de uma revelação decisiva e definitiva: a descoberta do espírito. Seria por isso vão procurar no passado as origens do pensamento racional. O pensamento verdadeiro não poderia ter outra origem senão ele próprio. É exterior à história, que só pode, no desenvolvimento do espírito, dar a razão de obstáculos, de erros e de ilusões sucessivas. Tal é o sentido do "milagre" grego: através da filosofia dos jônios, reconhece-se a Razão intemporal encarnada no tempo. O aparecimento do logos introduziria portanto na história uma descontinuidade radical. Viajante sem bagagem, a filosofia viria ao mundo sem passado, sem pais, sem família; seria um começo absoluto.

Senso-comum: o despertar do sonho caótico da existência humana

O que é o tão mencionado "senso comum" na história do pensamento ocidental? Onde e quando perdemos o sentido tão rico que Empédocles, notável pré-socrático, lhe atribuía?
 
"Tudo tem seu nome apropriado. E há uma expressão que se encaixa na perfeição ao estado extraordinário de consciência (awareness) que Empédocles tinha em mente. Trata-se de "senso comum", expressão tão casual e alusivamente familiar, que, no entanto, tem um antigo e respeitável pedigree. "Sensus communis" em latim traduz koine aisthesis em grego, que por sua vez tem mais de dois mil anos de uso. A história desta expressão pode resumir em grande parte a história do pensamento ocidental, todo nosso aprendizado, nosso conhecimento e nossos equívocos intelectuais.
 
Para Empédocles a descoberta do "senso comum" — dessa consciência que é capaz de ouvir e ver e tocar e sentir e saborear ao mesmo tempo — era uma questão de experiência direta. E "experienciar" (aisthesis) era dar início ao despertar do sonho caótico da existência humana. Mas esta consciência era e ainda é tão rara, tão exigente sobre o que somos, tão incompreensível para as pessoas em geral porque tão distante do alcance de nossas mentes vagueantes, que o único caminho para se ter acesso a ela é através de um guia que tenha superado a simples condição humana.

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