Para que Filosofia?

Texto de João Cardoso de Castro

Discutir a importância da Filosofia na formação de administradores e contadores nos impõe um dos exercícios mais complexos da atividade filosófica, a saber: definir do que se trata esta disciplina. Inúmeras foram as vezes que me encontrei em situação embaraçosa diante da simples pergunta: o que é a Filosofia? Pois é! Nos corredores de qualquer curso de graduação de Filosofia sempre ouvimos brincadeiras como: “é coisa com a qual e sem a qual o mundo fica tal e qual...”. Nos “corredores da vida" a tal brincadeira toma uma forma mais radical, digamos assim, “não serve pra nada, pronto!”. Já tinha ouvido tanto isso que por vezes “balancei”, quase acreditando. De uns tempos pra cá, minha mente clareou de tal forma que hoje tenho certeza … é … não serve mesmo! Calma, deixe-me explicar melhor o que quero dizer. De fato ler isso em um texto de Filosofia deve soar no mínimo estranho.

Veja, em todos os tempos a Filosofia tem exercido atrativo mais ou menos intenso sobre os homens. Desde seu surgimento, que acredita-se ter acontecido na Grécia por volta do século VI a.C., muitas foram as suas ramificações, tendo algumas ganhado enorme prestígio na história da humanidade. Existem faculdades, cursos e institutos da Filosofia em todas as grandes universidades do mundo e não é exagero dizer que a humanidade jamais persistiria no interesse de uma disciplina que de nada servisse. É fato também, que já não dispõe do mesmo prestígio de sua era de ouro, na Grécia Antiga, mas o que causa imensa estranheza é que sua representatividade varia de lugar para lugar, ou contexto para contexto, dentro de uma mesma sociedade.

Kant e a liberdade

Segundo Reale, em sua História da Filosofia, depois de Platão ("ação livre é aquela que se determina em favor do desejo racional"), Kant deu toda amplitude ao "racionalismo" da liberdade: a ação é livre quando a consciência determina "contra" os desejos sensíveis, em função de um princípio racional (por ex., dar esmola "por piedade" é ceder à tendência; mas dar esmola "por princípio" é agir livremente, segundo um princípio racional); Percebe-se que, no fundo, a liberdade não consiste no que se faz, mas na maneira pela qual se faz. A liberdade é uma atitude, a do homem que se reconhece em sua vida, que aceita a história do mundo e dos acontecimentos. Por isso, a liberdade consiste, freqüentemente, muito mais em "mudar seus desejos que a ordem do mundo", em adaptar-se à evolução e à ordem das coisas."

Michael Sandel também cita este princípio da filosofia kantiana quando relembra um famoso anúncio de uma empresa de refrigerantes, cujo logo sugeria: "obedeça sua sede". Segundo o próprio Sandel, este seria um bom exemplo de um agir "heteronomamente", palavra inventada por Kant, que seria o oposto de agir autônomamente. Agir heteronomamente seria, portanto, agir de acordo com desejos que eu não escolhi. Como bem sugeriu Reale, agir livremente, em seu sentido mais puro e direto, não se resume a esta ou aquela ação, mas dos princípios que a regem enquanto ação.

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