Trecho de "Assim falava Zaratustra", de Nietzsche

O pensador alemão do século XIX, Friedrich Nietzsche (1844-1900), marcou a história da filosofia ao desafiar as verdades estabelecidas, tendo consagrado sua filosofia como a filosofia da “vida", do “agora". Como um “martelo”, pretendeu derrubar o idealismo platônico e o poder da ciência. Se os achados produzidos pela ciência nos ludibriam sobre a possibilidade da verdade, consideradas pelo filósofo como um “batalhão móvel” de metáforas, ou seja, que não passam de ilusões das quais nos esquecemos que o são, as formulações socrático-platonicas nos afastam da vida ao dividir tanto homem quanto mundo em dois. Estas interpretações são, para Nietzsche, um niilismo (cujo significado ganha contornos diferentes no pensamento nietzscheano) na medida em que servem como muletas para a inquietação humana de aceitar a vida como ela é.

Ainda estes dias tive a oportunidade de reler este trecho do livro do Nietzsche, que compartilho com vocês. Apesar da leitura "dura" que o autor nos oferece, afinal Nietzsche nos escreve através de uma linguajem artística (poética), exatamente para confrontar o modelo racional filosófico de seu tempo, acredito que com um pouco de esforço o sentido venha à tona.


"Eu vo-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante. Eu vo-lo digo: tendes ainda um caos dentro de vós outros. Ai! Aproxima-se o tempo em que o homem já não dará a luz às estrelas; aproxima-se o tempo do mais desprezível dos homens, do que já se não pode desprezar a si mesmo. Olhai! Eu vos mostro o último homem. Que vem a ser isso de amor, de criação, de ardente desejo, de estrela? — pergunta o último homem, revirando os olhos. A terra tornar-se-á então mais pequena, e sobre ela andará aos pulos o último homem, que tudo apouca. A sua raça é indestrutível como a da pulga; o último homem é o que vive mais tempo. “Descobrimos a felicidade” — dizem os últimos homens, e piscam os olhos.

Para que Filosofia?

Texto de João Cardoso de Castro

Discutir a importância da Filosofia na formação de administradores e contadores nos impõe um dos exercícios mais complexos da atividade filosófica, a saber: definir do que se trata esta disciplina. Inúmeras foram as vezes que me encontrei em situação embaraçosa diante da simples pergunta: o que é a Filosofia? Pois é! Nos corredores de qualquer curso de graduação de Filosofia sempre ouvimos brincadeiras como: “é coisa com a qual e sem a qual o mundo fica tal e qual...”. Nos “corredores da vida" a tal brincadeira toma uma forma mais radical, digamos assim, “não serve pra nada, pronto!”. Já tinha ouvido tanto isso que por vezes “balancei”, quase acreditando. De uns tempos pra cá, minha mente clareou de tal forma que hoje tenho certeza … é … não serve mesmo! Calma, deixe-me explicar melhor o que quero dizer. De fato ler isso em um texto de Filosofia deve soar no mínimo estranho.

Veja, em todos os tempos a Filosofia tem exercido atrativo mais ou menos intenso sobre os homens. Desde seu surgimento, que acredita-se ter acontecido na Grécia por volta do século VI a.C., muitas foram as suas ramificações, tendo algumas ganhado enorme prestígio na história da humanidade. Existem faculdades, cursos e institutos da Filosofia em todas as grandes universidades do mundo e não é exagero dizer que a humanidade jamais persistiria no interesse de uma disciplina que de nada servisse. É fato também, que já não dispõe do mesmo prestígio de sua era de ouro, na Grécia Antiga, mas o que causa imensa estranheza é que sua representatividade varia de lugar para lugar, ou contexto para contexto, dentro de uma mesma sociedade.

Kant e a liberdade

Segundo Reale, em sua História da Filosofia, depois de Platão ("ação livre é aquela que se determina em favor do desejo racional"), Kant deu toda amplitude ao "racionalismo" da liberdade: a ação é livre quando a consciência determina "contra" os desejos sensíveis, em função de um princípio racional (por ex., dar esmola "por piedade" é ceder à tendência; mas dar esmola "por princípio" é agir livremente, segundo um princípio racional); Percebe-se que, no fundo, a liberdade não consiste no que se faz, mas na maneira pela qual se faz. A liberdade é uma atitude, a do homem que se reconhece em sua vida, que aceita a história do mundo e dos acontecimentos. Por isso, a liberdade consiste, freqüentemente, muito mais em "mudar seus desejos que a ordem do mundo", em adaptar-se à evolução e à ordem das coisas."

Michael Sandel também cita este princípio da filosofia kantiana quando relembra um famoso anúncio de uma empresa de refrigerantes, cujo logo sugeria: "obedeça sua sede". Segundo o próprio Sandel, este seria um bom exemplo de um agir "heteronomamente", palavra inventada por Kant, que seria o oposto de agir autônomamente. Agir heteronomamente seria, portanto, agir de acordo com desejos que eu não escolhi. Como bem sugeriu Reale, agir livremente, em seu sentido mais puro e direto, não se resume a esta ou aquela ação, mas dos princípios que a regem enquanto ação.

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