A felicidade inconcebível de Schopenhauer

Neste trecho da obra "The Emptiness of Existence", o mestre do niilismo, o filósofo Arthur Schopenhauer derrama todo o seu pessimismo ao refletir sobre a ideia de felicidade.

"Num mundo como este, onde nada é estável e nada perdura, mas é arremessado em um incansável turbilhão de mudanças, onde tudo se apressa, voa, e mantém-se em equilíbrio avançando e movendo-se continuamente, como um acrobata em uma corda – em tal mundo, a felicidade é inconcebível. Como poderia haver onde, como Platão diz, tornar-se continuamente e nunca ser é a única forma de existência. Primeiramente, nenhum homem é feliz; luta sua vida toda em busca de uma felicidade imaginária, a qual raramente alcança, e, quando alcança, é apenas para sua desilusão; e, via de regra, no fim, é um náufrago, chegando ao porto com mastros e velas faltando. Então dá no mesmo se foi feliz ou infeliz, pois sua vida nunca foi mais que um presente sempre passageiro, que agora já acabou."

 

Sartre e a certeza de si

Nesta apresentação da filosofia de Sartre, o Prof. Luiz Damon Moutinho (UFPR - Universidade Federal do Paraná) faz uma belíssima e esclarecedora reflexão sobre a relação do existencialismo sartriano e o cogito de Descartes.

"Sartre foi um leitor apaixonado de Husserl, o filósofo alemão criador da Fenomenologia, e de Heidegger, aluno de Husserl que, como é de hábito na História da Filosofia, cometera o parricídio e levara a Fenomenologia a uma direção que Sartre vai assimilar em larga medida: na direção de uma analítica da existência, trazendo para a Filosofia um conjunto de questões que vão muito além daquela que mais interessava a Husserl e à tradição, a questão do conhecimento. A analítica do existente humano vai se tornar para Sartre a tarefa mais elevada da Filosofia. Mas de um modo muito peculiar, segundo um método inédito, que é propriamente o que vai torná-la Filosofia e distingui-la de tantas outras abordagens, como a da psicologia, da psicanálise, da sociologia, da antropologia, da fisiologia, da anatomia, da medicina etc.

Pode-se dizer que o núcleo dessa especificidade da Filosofia consiste em partir do homem não como “animal racional”, não como “bípede falante e implume” etc, mas como ser-no-mundo. Esse ponto de partida é filosófico, não científico. Onde está a diferença? É que não se parte aqui de uma definição do que é o homem (se se preferir, não se busca definir o que é o homem). Essa estratégia tem uma pré-condição que a Filosofia rejeita: ela objetiva o homem, ela o torna objeto. Uma vez tornado objeto, o homem se torna um suporte de predicados, e posso dizer então que ele é racional, bípede, falante e uma infinidade de outros predicados. A Filosofia, por sua vez, deve tomar o homem como sujeito. Pode-se tornar isso mais claro pelo exemplo da atividade visual ou tátil: posso ver meus olhos no espelho, posso mesmo imaginar um mecanismo (como câmeras de televisão) que os flagre, às escondidas, em atividade, mas, nesses casos, meus olhos serão para mim objetos, eu não os verei enquanto eles veem, eu não coincidirei com eles enquanto são essa atividade que desvela o mundo, durante a atividade de olhar, isto é, enquanto eles forem sujeitos de visão. Como evitar a objetivação, como apreender-me enquanto sujeito?

 

Mais Platão ... e menos Prozac!

No livro "Mais Platão, Menos Prozac!", Lou Marinoff realiza uma esclarecedora reflexão sobre a divisão FILOSOFIA/PSIQUIATRIA/PSICOLOGIA. Neste trecho retirado do livro, o autor traz uma interessante discussão sobre a credibilidade da psiquiatria no diagnóstico de seus pacientes.

"[...] a filosofia da psiquiatria de Freud era a de que todos os problemas mentais (o que ele chamava de neuroses e psicoses) seriam explicados em termos físicos. Em outras palavras, ele achava que toda doença mental é causada por um distúrbio no cérebro. E isso é exatamente onde chegou a psiquiatria moderna. Qualquer comportamento concebível pode terminar no DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), onde é diagnosticado como sintoma de uma suposta doença mental.

Embora nunca se tenha comprovado que a maioria das chamadas doenças mentais no DSM seja causada por um distúrbio cerebral, a indústria farmacêutica e os psiquiatras que prescrevem drogas se comprometem a identificar o máximo possível de "doenças mentais".
Por quê? Pelas razões de sempre: poder e lucro.

Mas ... o que é filosofia?

Afinal de contas, o que é a filosofia? No texto abaixo, o filósofo John Shand compartilha os momentos de "angústia" que todos os filósofos vivem diante dessa simples pergunta e sugere uma interessante definição.

"A filosofia é uma grande aventura intelectual, ao mesmo tempo que o seu objecto de discussão é uma das coisas mais importantes que podemos fazer com as nossas vidas. Há uma anedota recorrente entre muitos filósofos profissionais, que envolve um deles a ser encurralado durante uma festa por alguém que ao saber que se trata de um filósofo lhe pergunta: "Bom, o que é então a filosofia?" A piada reflete, na verdade, o desconforto de muitos filósofos e a desconfortante consciência de não serem capazes de dar uma resposta direta e clara. Muitos filósofos recorrem ao método de responder por listas, explicando que a filosofia é acerca de "questões fundamentais" como "a verdade", "o que se pode conhecer?", "qual a natureza de uma boa ação?", "qual a natureza da mente e a sua relação com o corpo?". A outra maneira de lidar com a questão é algo evasiva e envolve afirmar o menos possível, algo como: "Bom, a melhor maneira de compreender o que é a filosofia é fazê-la." É provável que ambas as respostas, embora tendo um fundo de verdade, deixem os interlocutores perplexos, e com razão, insatisfeitos e com vontade de se afastarem para ir buscar outra bebida — para grande alívio do filósofo. Penso que cabe aos filósofos lidar frontalmente com esta questão. Afinal, somos pagos para isso. A minha resposta imediata, que mais tarde terá de ser ligeiramente aperfeiçoada, a esta questão é a seguinte:


    A filosofia é o que acontece quando se começa a pensar pela própria cabeça."

John Shand - Open University

Descartes e o cogito

Nesta passagem, o filósofo francês René Descartes (1596-1650), propõe o "cogito" ao percorrer o caminho cético e "destrinchar" o princípio epistemológico fundamental sobre o qual todo o conhecimento é construído.

"I suppose, accordingly, that all the things which I see are false; fictitious. I believe that none of those objects which my fallacious memory represents ever existed; I suppose that I possess no senses; I believe that body, figure, extension, motion, and place are merely fictions of my mind. What is there, then, that can be esteemed true? Perhaps this only, that there is absolutely nothing certain. But how do I know that there is not something different altogether from the objects I have now enumerated, of which it is impossible to entertain the slightest doubt? Is there not a God, or some being, by whatever name I may designate Him, who causes these thoughts to arise in my mind? But why suppose such a Being, for it may be I myself am capable of producing them? Am I, then, at least not something? But I before denied that I possessed senses or a body; I hesitate, however, for what follows from that? Am I so dependent on the body and the senses that without these I cannot exist? But I had the persuasion that there was absolutely nothing in the world, that there was no sky and no earth, neither minds nor bodies; was I not, therefore, at the same time, persuaded that I did not exist? Far from it; I assuredly existed, since I was persuaded. But there is I know not what being, who is possessed at once of the highest power and the deepest cunning, who is constantly employing all his ingenuity in deceiving me. Doubtless, then, I exist, since I am deceived; and, let him deceive me as he may, he can never bring it about that I am nothing, so long as I shall be conscious that I am something. So that it must, in fine, be maintained, all things being maturely and carefully considered, that this proposition: I am, I exist; is necessarily true each time it is expressed by me, or conceived in my mind."

Descartes, "Meditations On First Philosophy"

 

Teoria da Evolução: um ato de fé!

Martin Lings, escritor inglês, nos traz uma perpectiva diferente quando o assunto é "darwinismo". Na citação retirada do livro "Sabedoria Tradicional & Supertições Modernas", o autor faz um contra-ponto à Teoria da Evolução a partir de colocações de renomados cientistas sobre o tema.

"[...] A doutrina religiosa é contrária aos fatos cientificamente conhecidos? Deve a ciência, para ser verdadeira consigo mesma, sustentar a teoria da evolução? Respondendo a esta última questão, citaremos o geólogo francês Paul Lemoine, editor do volume V (sobre "Organismos Vivos") da Encyclopédie Française, o qual chegou ao ponto de escrever, em sua síntese dos artigos dos vários colaboradores:

"Esta exposição mostra que a teoria da evolução é impossível. Na realidade, apesar das aparências, ninguém mais acredita nela... A evolução é uma espécie de dogma cujos sacerdotes não creem mais nele, apesar de o sustentarem em benefício dos interesses de seu rebanho."

Todo amor é amor próprio!


A citação abaixo é, muitas vezes, atribuída ao filósofo Nietzsche, em uma confusão justificada. Na verdade se trata de um trecho do livro de Irvin D. Yalom - "Quando Nietzsche chorou". Em um dado momento da trama, o personagem "Nietzsche" questiona o "Dr. Breuer" sobre suas reais motivações em querer tratá-lo, que lhe explica que ajudar as pessoas a aliviar suas dores é sua atividade. "Breuer" lhe faz a mesma pergunta: “Para quê, então, filosofa?”. E recebe uma baita "tijolada":

“Ah! Existe uma importante distinção entre nós. Eu não alego que filosofo para si, enquanto o senhor, doutor, continua fingindo que sua motivação é servir-me, aliviar minha dor. Tais alegações nada têm a ver com a motivação humana. Elas fazem parte da mentalidade de escravo astutamente engendrada pela propaganda sacerdotal. Disseque suas motivações mais profundamente! Achará que jamais alguém fez algo totalmente para os outros. Todas as ações são autodirigidas, todo serviço é auto-serviço, todo amor é amor-próprio. (...) Parece surpreso com esse comentário? Talvez esteja pensando naqueles que ama. Cave mais profundamente e descobrirá que não ama a eles: ama isso sim as sensações agradáveis que tal amor produz em você! Ama o desejo, não o desejado.”

 

 

Superinterpretação!

Este trecho da obra "Interpretação e Superinterpretação", de Umberto Eco, revela uma interessante discussão sobre os limites da interpretação.

"Algumas teorias da crítica contemporânea afirmam que a única leitura confiável de um texto é uma leitura equivocada, que a existência de um texto só é dada pela cadeia de respostas que evoca e que, como Todorov sugeriu maliciosamente (citando Lichtenberg a propósito de Boehme), um texto é apenas um piquenique onde o autor entra com as palavras e os leitores com o sentido.

Mesmo que isso fosse verdade, as palavras trazidas pelo autor são um conjunto um tanto embaraçoso de evidências materiais que o leitor não pode deixar passar em silêncio, nem em barulho. Se bem me lembro, foi aqui na Inglaterra que alguém sugeriu, anos atrás, que é possível fazer coisas com palavras. Interpretar um texto significa explicar por que essas palavras podem fazer várias coisas (e não outras) através do modo pelo qual são interpretadas. Mas se Jack, o Estripador, nos dissesse que fez o que fez baseado em sua interpretação do Evangelho segundo São Lucas, suspeito que muitos críticos voltados para o leitor se inclinariam a pensar que ele havia lido São Lucas de uma forma despropositada. Os críticos não voltados para o leitor diriam que Jack, o Estripador, estava completamente louco - e confesso que, mesmo sentindo muita simpatia pelo paradigma voltado para o leitor, e mesmo tendo lido Cooper, Laing e Guattari, muito a contragosto eu concordaria com que Jack, o Estripador, precisava de cuidados médicos.


O cientista virou um mito!

Transcrevo, logo abaixo, um trecho do livro de Rubem Alves, Filosofia da Ciência, onde o autor analisa o poder da ciência na modernidade e o nosso comportamento passivo diante das "verdades" produzidas por ela.

"Veja as imagens da ciência e do cientista que aparecem na televisão. Os agentes de propaganda não são bobos. Se eles usam tais imagens é porque eles  sabem que elas são eficientes para desencadear decisões e comportamentos. É o que foi dito antes: cientista tem autoridade, sabe sobre o que está falando e os outros devem ouvi-lo e obedecê-lo. Daí que imagem de ciência e cientista pode e é usada para ajudar a vender cigarro. Veja, por exemplo, os novos tipos de cigarro, produzidos cientificamente. E os laboratórios, microscópios e cientistas de aventais imaculadamente brancos enchem os olhos e a cabeça dos telespectadores. E há cientistas que anunciam pasta de dente, remédios para caspa, varizes, e assim por diante.

O cientista virou um mito. E todo mito é perigoso, porque ele induz o comportamento inibe o pensamento. Este é um dos resultados engraçados (e  trágicos) da ciência. Se existe uma classe especializada em pensar de maneira correta (os cientistas), os outros indivíduos são liberados da obrigação de pensar e podem simplesmente fazer o que os cientistas mandam. Quando o médico lhe dá uma receita você faz perguntas? Sabe como os medicamentos funcionam? Será que você se pergunta se o médico sabe como os medicamentos funcionam? Ele manda, a gente compra e toma. Não pensamos. Obedecemos. Não precisamos pensar, porque acreditamos que há indivíduos especializados e competentes em pensar. Pagamos para que ele pense por nós.
" (Rubem Alves, pag 7 e 8)

 

Kant e o Aufklärung

Face às manifestações que tomaram nossas ruas recentemente, compartilho às reflexões de Kant sobre o conceito de "Esclarecimento".

"Uma revolução poderá talvez realizar a queda do despotismo pessoal ou da opressão ávida de lucros ou de domínios, porém nunca produzirá a verdadeira reforma do modo de pensar. Apenas novos preconceitos, assim como os velhos, servirão como cintas para conduzir a grande massa destituída de pensamento.

Para este esclarecimento, porém, nada mais se exige senão LIBERDADE. E a mais inofensiva entre tudo aquilo que se possa chamar liberdade, a saber: a de fazer um uso público de sua razão em todas as questões.
"

Clique aqui e leia o texto de Kant na íntegra!

 

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