Mas ... o que é filosofia?

Afinal de contas, o que é a filosofia? No texto abaixo, o filósofo John Shand compartilha os momentos de "angústia" que todos os filósofos vivem diante dessa simples pergunta e sugere uma interessante definição.

"A filosofia é uma grande aventura intelectual, ao mesmo tempo que o seu objecto de discussão é uma das coisas mais importantes que podemos fazer com as nossas vidas. Há uma anedota recorrente entre muitos filósofos profissionais, que envolve um deles a ser encurralado durante uma festa por alguém que ao saber que se trata de um filósofo lhe pergunta: "Bom, o que é então a filosofia?" A piada reflete, na verdade, o desconforto de muitos filósofos e a desconfortante consciência de não serem capazes de dar uma resposta direta e clara. Muitos filósofos recorrem ao método de responder por listas, explicando que a filosofia é acerca de "questões fundamentais" como "a verdade", "o que se pode conhecer?", "qual a natureza de uma boa ação?", "qual a natureza da mente e a sua relação com o corpo?". A outra maneira de lidar com a questão é algo evasiva e envolve afirmar o menos possível, algo como: "Bom, a melhor maneira de compreender o que é a filosofia é fazê-la." É provável que ambas as respostas, embora tendo um fundo de verdade, deixem os interlocutores perplexos, e com razão, insatisfeitos e com vontade de se afastarem para ir buscar outra bebida — para grande alívio do filósofo. Penso que cabe aos filósofos lidar frontalmente com esta questão. Afinal, somos pagos para isso. A minha resposta imediata, que mais tarde terá de ser ligeiramente aperfeiçoada, a esta questão é a seguinte:


    A filosofia é o que acontece quando se começa a pensar pela própria cabeça."

John Shand - Open University

Descartes e o cogito

Nesta passagem, o filósofo francês René Descartes (1596-1650), propõe o "cogito" ao percorrer o caminho cético e "destrinchar" o princípio epistemológico fundamental sobre o qual todo o conhecimento é construído.

"I suppose, accordingly, that all the things which I see are false; fictitious. I believe that none of those objects which my fallacious memory represents ever existed; I suppose that I possess no senses; I believe that body, figure, extension, motion, and place are merely fictions of my mind. What is there, then, that can be esteemed true? Perhaps this only, that there is absolutely nothing certain. But how do I know that there is not something different altogether from the objects I have now enumerated, of which it is impossible to entertain the slightest doubt? Is there not a God, or some being, by whatever name I may designate Him, who causes these thoughts to arise in my mind? But why suppose such a Being, for it may be I myself am capable of producing them? Am I, then, at least not something? But I before denied that I possessed senses or a body; I hesitate, however, for what follows from that? Am I so dependent on the body and the senses that without these I cannot exist? But I had the persuasion that there was absolutely nothing in the world, that there was no sky and no earth, neither minds nor bodies; was I not, therefore, at the same time, persuaded that I did not exist? Far from it; I assuredly existed, since I was persuaded. But there is I know not what being, who is possessed at once of the highest power and the deepest cunning, who is constantly employing all his ingenuity in deceiving me. Doubtless, then, I exist, since I am deceived; and, let him deceive me as he may, he can never bring it about that I am nothing, so long as I shall be conscious that I am something. So that it must, in fine, be maintained, all things being maturely and carefully considered, that this proposition: I am, I exist; is necessarily true each time it is expressed by me, or conceived in my mind."

Descartes, "Meditations On First Philosophy"

 

Teoria da Evolução: um ato de fé!

Martin Lings, escritor inglês, nos traz uma perpectiva diferente quando o assunto é "darwinismo". Na citação retirada do livro "Sabedoria Tradicional & Supertições Modernas", o autor faz um contra-ponto à Teoria da Evolução a partir de colocações de renomados cientistas sobre o tema.

"[...] A doutrina religiosa é contrária aos fatos cientificamente conhecidos? Deve a ciência, para ser verdadeira consigo mesma, sustentar a teoria da evolução? Respondendo a esta última questão, citaremos o geólogo francês Paul Lemoine, editor do volume V (sobre "Organismos Vivos") da Encyclopédie Française, o qual chegou ao ponto de escrever, em sua síntese dos artigos dos vários colaboradores:

"Esta exposição mostra que a teoria da evolução é impossível. Na realidade, apesar das aparências, ninguém mais acredita nela... A evolução é uma espécie de dogma cujos sacerdotes não creem mais nele, apesar de o sustentarem em benefício dos interesses de seu rebanho."

Todo amor é amor próprio!


A citação abaixo é, muitas vezes, atribuída ao filósofo Nietzsche, em uma confusão justificada. Na verdade se trata de um trecho do livro de Irvin D. Yalom - "Quando Nietzsche chorou". Em um dado momento da trama, o personagem "Nietzsche" questiona o "Dr. Breuer" sobre suas reais motivações em querer tratá-lo, que lhe explica que ajudar as pessoas a aliviar suas dores é sua atividade. "Breuer" lhe faz a mesma pergunta: “Para quê, então, filosofa?”. E recebe uma baita "tijolada":

“Ah! Existe uma importante distinção entre nós. Eu não alego que filosofo para si, enquanto o senhor, doutor, continua fingindo que sua motivação é servir-me, aliviar minha dor. Tais alegações nada têm a ver com a motivação humana. Elas fazem parte da mentalidade de escravo astutamente engendrada pela propaganda sacerdotal. Disseque suas motivações mais profundamente! Achará que jamais alguém fez algo totalmente para os outros. Todas as ações são autodirigidas, todo serviço é auto-serviço, todo amor é amor-próprio. (...) Parece surpreso com esse comentário? Talvez esteja pensando naqueles que ama. Cave mais profundamente e descobrirá que não ama a eles: ama isso sim as sensações agradáveis que tal amor produz em você! Ama o desejo, não o desejado.”

 

 

Superinterpretação!

Este trecho da obra "Interpretação e Superinterpretação", de Umberto Eco, revela uma interessante discussão sobre os limites da interpretação.

"Algumas teorias da crítica contemporânea afirmam que a única leitura confiável de um texto é uma leitura equivocada, que a existência de um texto só é dada pela cadeia de respostas que evoca e que, como Todorov sugeriu maliciosamente (citando Lichtenberg a propósito de Boehme), um texto é apenas um piquenique onde o autor entra com as palavras e os leitores com o sentido.

Mesmo que isso fosse verdade, as palavras trazidas pelo autor são um conjunto um tanto embaraçoso de evidências materiais que o leitor não pode deixar passar em silêncio, nem em barulho. Se bem me lembro, foi aqui na Inglaterra que alguém sugeriu, anos atrás, que é possível fazer coisas com palavras. Interpretar um texto significa explicar por que essas palavras podem fazer várias coisas (e não outras) através do modo pelo qual são interpretadas. Mas se Jack, o Estripador, nos dissesse que fez o que fez baseado em sua interpretação do Evangelho segundo São Lucas, suspeito que muitos críticos voltados para o leitor se inclinariam a pensar que ele havia lido São Lucas de uma forma despropositada. Os críticos não voltados para o leitor diriam que Jack, o Estripador, estava completamente louco - e confesso que, mesmo sentindo muita simpatia pelo paradigma voltado para o leitor, e mesmo tendo lido Cooper, Laing e Guattari, muito a contragosto eu concordaria com que Jack, o Estripador, precisava de cuidados médicos.


O cientista virou um mito!

Transcrevo, logo abaixo, um trecho do livro de Rubem Alves, Filosofia da Ciência, onde o autor analisa o poder da ciência na modernidade e o nosso comportamento passivo diante das "verdades" produzidas por ela.

"Veja as imagens da ciência e do cientista que aparecem na televisão. Os agentes de propaganda não são bobos. Se eles usam tais imagens é porque eles  sabem que elas são eficientes para desencadear decisões e comportamentos. É o que foi dito antes: cientista tem autoridade, sabe sobre o que está falando e os outros devem ouvi-lo e obedecê-lo. Daí que imagem de ciência e cientista pode e é usada para ajudar a vender cigarro. Veja, por exemplo, os novos tipos de cigarro, produzidos cientificamente. E os laboratórios, microscópios e cientistas de aventais imaculadamente brancos enchem os olhos e a cabeça dos telespectadores. E há cientistas que anunciam pasta de dente, remédios para caspa, varizes, e assim por diante.

O cientista virou um mito. E todo mito é perigoso, porque ele induz o comportamento inibe o pensamento. Este é um dos resultados engraçados (e  trágicos) da ciência. Se existe uma classe especializada em pensar de maneira correta (os cientistas), os outros indivíduos são liberados da obrigação de pensar e podem simplesmente fazer o que os cientistas mandam. Quando o médico lhe dá uma receita você faz perguntas? Sabe como os medicamentos funcionam? Será que você se pergunta se o médico sabe como os medicamentos funcionam? Ele manda, a gente compra e toma. Não pensamos. Obedecemos. Não precisamos pensar, porque acreditamos que há indivíduos especializados e competentes em pensar. Pagamos para que ele pense por nós.
" (Rubem Alves, pag 7 e 8)

 

Kant e o Aufklärung

Face às manifestações que tomaram nossas ruas recentemente, compartilho às reflexões de Kant sobre o conceito de "Esclarecimento".

"Uma revolução poderá talvez realizar a queda do despotismo pessoal ou da opressão ávida de lucros ou de domínios, porém nunca produzirá a verdadeira reforma do modo de pensar. Apenas novos preconceitos, assim como os velhos, servirão como cintas para conduzir a grande massa destituída de pensamento.

Para este esclarecimento, porém, nada mais se exige senão LIBERDADE. E a mais inofensiva entre tudo aquilo que se possa chamar liberdade, a saber: a de fazer um uso público de sua razão em todas as questões.
"

Clique aqui e leia o texto de Kant na íntegra!

 

Trecho de "Assim falava Zaratustra", de Nietzsche

O pensador alemão do século XIX, Friedrich Nietzsche (1844-1900), marcou a história da filosofia ao desafiar as verdades estabelecidas, tendo consagrado sua filosofia como a filosofia da “vida", do “agora". Como um “martelo”, pretendeu derrubar o idealismo platônico e o poder da ciência. Se os achados produzidos pela ciência nos ludibriam sobre a possibilidade da verdade, consideradas pelo filósofo como um “batalhão móvel” de metáforas, ou seja, que não passam de ilusões das quais nos esquecemos que o são, as formulações socrático-platonicas nos afastam da vida ao dividir tanto homem quanto mundo em dois. Estas interpretações são, para Nietzsche, um niilismo (cujo significado ganha contornos diferentes no pensamento nietzscheano) na medida em que servem como muletas para a inquietação humana de aceitar a vida como ela é.

Ainda estes dias tive a oportunidade de reler este trecho do livro do Nietzsche, que compartilho com vocês. Apesar da leitura "dura" que o autor nos oferece, afinal Nietzsche nos escreve através de uma linguajem artística (poética), exatamente para confrontar o modelo racional filosófico de seu tempo, acredito que com um pouco de esforço o sentido venha à tona.


"Eu vo-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante. Eu vo-lo digo: tendes ainda um caos dentro de vós outros. Ai! Aproxima-se o tempo em que o homem já não dará a luz às estrelas; aproxima-se o tempo do mais desprezível dos homens, do que já se não pode desprezar a si mesmo. Olhai! Eu vos mostro o último homem. Que vem a ser isso de amor, de criação, de ardente desejo, de estrela? — pergunta o último homem, revirando os olhos. A terra tornar-se-á então mais pequena, e sobre ela andará aos pulos o último homem, que tudo apouca. A sua raça é indestrutível como a da pulga; o último homem é o que vive mais tempo. “Descobrimos a felicidade” — dizem os últimos homens, e piscam os olhos.

Para que Filosofia?

Texto de João Cardoso de Castro

Discutir a importância da Filosofia na formação de administradores e contadores nos impõe um dos exercícios mais complexos da atividade filosófica, a saber: definir do que se trata esta disciplina. Inúmeras foram as vezes que me encontrei em situação embaraçosa diante da simples pergunta: o que é a Filosofia? Pois é! Nos corredores de qualquer curso de graduação de Filosofia sempre ouvimos brincadeiras como: “é coisa com a qual e sem a qual o mundo fica tal e qual...”. Nos “corredores da vida" a tal brincadeira toma uma forma mais radical, digamos assim, “não serve pra nada, pronto!”. Já tinha ouvido tanto isso que por vezes “balancei”, quase acreditando. De uns tempos pra cá, minha mente clareou de tal forma que hoje tenho certeza … é … não serve mesmo! Calma, deixe-me explicar melhor o que quero dizer. De fato ler isso em um texto de Filosofia deve soar no mínimo estranho.

Veja, em todos os tempos a Filosofia tem exercido atrativo mais ou menos intenso sobre os homens. Desde seu surgimento, que acredita-se ter acontecido na Grécia por volta do século VI a.C., muitas foram as suas ramificações, tendo algumas ganhado enorme prestígio na história da humanidade. Existem faculdades, cursos e institutos da Filosofia em todas as grandes universidades do mundo e não é exagero dizer que a humanidade jamais persistiria no interesse de uma disciplina que de nada servisse. É fato também, que já não dispõe do mesmo prestígio de sua era de ouro, na Grécia Antiga, mas o que causa imensa estranheza é que sua representatividade varia de lugar para lugar, ou contexto para contexto, dentro de uma mesma sociedade.

Kant e a liberdade

Segundo Reale, em sua História da Filosofia, depois de Platão ("ação livre é aquela que se determina em favor do desejo racional"), Kant deu toda amplitude ao "racionalismo" da liberdade: a ação é livre quando a consciência determina "contra" os desejos sensíveis, em função de um princípio racional (por ex., dar esmola "por piedade" é ceder à tendência; mas dar esmola "por princípio" é agir livremente, segundo um princípio racional); Percebe-se que, no fundo, a liberdade não consiste no que se faz, mas na maneira pela qual se faz. A liberdade é uma atitude, a do homem que se reconhece em sua vida, que aceita a história do mundo e dos acontecimentos. Por isso, a liberdade consiste, freqüentemente, muito mais em "mudar seus desejos que a ordem do mundo", em adaptar-se à evolução e à ordem das coisas."

Michael Sandel também cita este princípio da filosofia kantiana quando relembra um famoso anúncio de uma empresa de refrigerantes, cujo logo sugeria: "obedeça sua sede". Segundo o próprio Sandel, este seria um bom exemplo de um agir "heteronomamente", palavra inventada por Kant, que seria o oposto de agir autônomamente. Agir heteronomamente seria, portanto, agir de acordo com desejos que eu não escolhi. Como bem sugeriu Reale, agir livremente, em seu sentido mais puro e direto, não se resume a esta ou aquela ação, mas dos princípios que a regem enquanto ação.

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