O imperativo categórico kantiano

Ao contrário de sua origem grega, onde a filosofia se confundia com qualquer forma de conhecimento, na modernidade, podemos dizer que a disciplina filosófica se ocupa com três conteúdos básicos, (1) o conhecimento, cuja disciplina é a Epistemologia e se desdobra a partir da questão "como posso conhecer o mundo?"; (2) a estética e a reflexão sobre o belo, "o que é o belo?", seria a beleza um dado objetivo ou estaria fundada no sujeito que à contempla?; (3) e a questão moral, ou seja, "como devo agir?". O pensador alemão Immanuel Kant produziu três grandes obras dirigidas para cada uma destas três investigações fundamentais: a Crítica da Razão Pura (Epistemologia), a Crítica do Juízo (Estética) e a Crítica da Razão Prática (moral). No caso de sua filosofia moral, existe uma outra obra cuja leitura elucida, com mais clareza, suas convicções sobre o comportamento humano cujo título é "Fundamentos da Metafísica dos Costumes". O texto abaixo foi retirado desta obra. 
 
"Há um imperativo que nos ordena imediatamente uma certa conduta, sem lhe pôr como condição outro fim que essa conduta permita atingir. Esse imperativo é categórico. Não se refere à matéria do ato, ao que pode resultar dele, mas a forma, ao princípio de que resulta, e o que há nesse ato de essencialmente bom está na intenção, qualquer que possa ser o resultado. Este imperativo pode ser denominado o imperativo da moralidade."

Sobre o ordenamento do pensamento

Neste trecho, retirado do livro "O ensino da filosofia no limiar da contemporaneidade", o Prof. Rodrigo Gelamo disserta sobre a noção de educação para Kant. No texto, fica claro a predisposição do ser-humano, segundo a visão kantiana, ao uso da razão. A necessidade da "educação" e o ordenamento do pensamento, são mais do que prerrogativas para autonomia plena e usufruto da liberdade, pertencendo intimamente a condição de "ser" humano.

"Em Sobre a pedagogia, Kant (1996, p.11) parte da constatação de que “O homem é a única criatura que precisa ser educada”. Nesse preciso momento de sua obra, considera a educação uma forma de atenção à criança no processo da sua formação intelectual e disciplinar. Em princípio, centra a discussão sobre a questão da formação nesses dois elementos (ou funções) formativos: se, por um lado, a formação intelectual tem a intenção de dar condições de autonomia e liberdade ao homem, por outro, a formação disciplinar procura impedir que as forças naturais humanas, ou seja, que o seu estado inicial de selvageria, se tornem um impedimento para o uso da razão. Nesse aspecto, o homem se diferencia dos animais porque estes não precisam do mesmo tipo de cuidado por ele requerido.

Diferentemente do homem, os animais conseguem rapidamente se tornar independentes dos cuidados de seus pais, e alguns não necessitam nem desses cuidados. Diferentemente deles, o homem precisa de cuidados especiais indispensáveis para a sua sobrevivência e formação, uma vez que, para além dos cuidados requeridos para a sobrevivência biológica, ele precisa aprender, dentre outras funções importantes, a conviver em sociedade, a se disciplinar e a entrar no mundo cultural que define o espaço de “humanidade”. Assim, a disciplina tem a função de transformar aquilo que é “animal” ou selvagem no homem em humanidade e, além disso, potencializar aquilo que lhe é natural: a disposição ao pensamento e à aprendizagem. A disciplina teria, então, a função de direcionar a predisposição humana ao uso da razão e afastar o educando das tendências indesejáveis. Assim, nas palavras de Kant, “a disciplina submete o homem às leis da humanidade e começa a fazê-lo sentir a força das próprias leis” (ibidem, p.12-13). Em "Ideia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita", Kant (1986) também afirma que o homem precisa – quando vive entre os seres da sua espécie – de um senhor que submeta a sua vontade natural à vontade geral desde a qual cada um pode ser livre. Poderíamos dizer que a submissão às leis e à cultura não direciona o homem para a autonomia e a liberdade, porque o aprisiona e o condiciona. 

A vida não é terrível?

“Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém não ensina: o bêco para a liberdade se fazer. Sou um homem ignorante. Mas, me diga o senhor: a vida não é cousa terrível? (…) O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.” (Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”, páginas 280 e 290)

A ressurreição de Frankenstein

Este trecho foi retirado do artigo "A ressurreição de Frankenstein: uma metáfora das unidades de terapia intensiva contemporâneas", do filósofo Rodrigo Siqueira-Batista. O tema é de extrema relevância para a reflexão da Bioética como ferramenta para a tomada de decisões no manejo de pacientes graves e em situações limítrofes, sobretudo por conta da "insuficiência da ética médica tradicional (hipocrática) para lidar com estas novas questões". 
 
"Neste contexto, caberia a Bioética - como instância da proteção - a indagação, entre outras possíveis sobre o significado mais profundo de se viver e morrer dignamente e a ponderações acerca do momento em que é rompido o tênue limite entre salvar e agredir, entre cuidar e manter a "vida" de forma cega, irresponsável e com sofrimentos terríveis, cujos resultados espúrios convergem para aberrações da interseção biotecnológica tornando os pacientes, muitas vezes, "espécimes" de Frankensteins contemporâneos. [...]
 
[...] Nascer e morrer podem ser considerados os pontos críticos da experiência humana de existir. Tão logo nasça, um ser humano - na verdade qualquer vivente - tem como único e irrefutável caminho o intríseco e inexorável encontro com a própria morte. Entrementes, aqui emerge uma diferença substancial: se o fim é certo para todos, apenas ao homem é dado conhecer sobre este porvir, ou seja, a certeza sobre a brevidade da vida é uma perculiaridade homo sapiens sapiens. Desta forma, o saber-se mortal é um dos esteios da experiência que o ser humano tem de si mesmo (Dastur, 2002).
 
Quais seriam as implicações dete conhecimento? Tantas quantas permitidas no vôo do pensamento, mas uma, especialmente, se dobra e se recoloca nas mais diferentes manifestações de cultura: um mal-estar, bem demarcado e vinculado à ideia de extinção. Morrer, reconhecer-se finito, está quase invariavelmente relacionado, na sociedade ocidental, à tristeza e ao sofrimento (Zaidhaft, 1997). Deixar de fazer parte deste único mundo conhecido, afastar-se do convívio de pessoas queridas e, ainda mais profundamente, deixar de ser, são todas instâncias capazes de mitigar profundamente aquele que se coloca diante da própria efemeridade. Se à vida pode-se atribuir a afirmação do ser, sua positividade e potência, o passamento institui o não-ser, o limite do que não pode ser reconhecido - e do que é cogniscível -, sequer pensado, como disse Françoise Dastur:
 
"de Aristóteles a Hegel, essa negatividade absoluta, essa ruptura radical, esse impensável puro e simples que é a morte se vêem convertidos em 'não-ser relativo' e 'negatividade determinada', em ruptura 'substituível' e em simples limite do que pode ser pensado: o que, no final das contas, testemunha a incapacidade metafísica de enfrentar verdadeiramente a morte" (2002, p. 56). 
 
Tal possibilidade inextinguível de não-ser - ou deixar de ser - é, em si mesma, capaz de gerar angústia quase essencial, um mal-estar típico da própria condição de finitude. Mas esta não é a única questão: se este não-ser está além do que pode ser verdadeiramente pensado (Freud, 1974), o mesmo não se aplicaria ao processo de morrer, o qual está muitas vezes atrelado, no âmbito das inquietações humanas, à ideia do sofrimento - quer imposto por um fim trágico e inesperado, quer relacionado a uma moléstia grave e mitigante. Em ambas as situações, a supressão do bem maior da vida - pelo menos assim considerado -, tanto de forma insidiosa, quanto de forma abrupta, possibilita a adoção de uma postura reflexiva por parte daqueles que experimentam a proximidade da morte - o enfermo, os familiares e os profissionais de saúde."
 
 
Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis
Trata de saborear a vida; e fica sabendo, que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la.

A Lei moral em mim!

Excertos de E. Kant, Crítica da Razão Prática, trad. de Barni, pp. 378-393.
 
"Duas coisas enchem a alma de admiração e de respeito sempre renovados e que aumentam à medida que o pensamento mais vezes se concentra nelas: acima de nós, o céu estrelado; no nosso íntimo, a lei moral. Não é necessário buscá-las e adivinhá-las como se estivessem ofuscadas por nuvens ou situadas em região inacessível, para além do meu horizonte; vejo-as ante mim e relaciono-as imediatamente com a consciência da minha existência. A primeira, a partir do lugar que ocupo no mundo exterior, estende a relação do meu ser com as coisas sensíveis a todo esse imenso espaço onde os mundos se sucedem aos mundos e os sistemas aos sistemas e a toda a duração ilimitada dos seus movimentos periódicos. A segunda parte do meu invisível eu, da minha personalidade e do meu posto num mundo que possui a verdadeira infinitude, mas no qual o entendimento mal pode penetrar e ao qual reconheço estar vinculado por uma relação não apenas contingente, mas universal e necessária (relação que também alargo a todos esses mundos visíveis).
 
Numa, a visão de uma infinidade de mundos quase aniquila a minha importância, na medida em que me considero uma criatura animal que, depois de ter (não se sabe como) gozado a vida durante um breve lapso de tempo, deve devolver a matéria de que é formada ao planeta em que vive e que não é mais do que um ponto no universo. Pelo contrário, a outra ergue infinitamente o meu valor como inteligência, mediante a minha personalidade, na qual a lei moral me revela uma vida independente da animalidade e até de todo o mundo sensível, pelo menos na medida em que podemos julgá-lo pelo destino que esta lei consigna à minha existência, e que, em vez de ser limitada às condições e aos limites desta vida, se alarga até o infinito."
 
 

A Ciência e os quadrinhos sem legenda

O texto que segue foi retirado do livro "A construção das ciências", do físico teórico Gerard Fourez. 
 
"Pode-se comparar o processo científico a um jogo para os jovens que aparece no jornal: o da história em quadrinhos sem legenda. Esse jogo apresenta desenhos para os quais se deve encontrar uma "legenda". 
 
Um jogo cheio de convenções
 
Esse jogo implica, assim como a ciência, uma atividade cultural determinada por um consenso ligado a certo grupo. Para compreender o jogo, é preciso ter "pré-compreendido" um certo número de elementos de nossa cultura, em especial a maneira pela qual as histórias em quadrinhos são escritas. Essa compreensão implica a eliminação de outras possibilidades: desse modo, quando se compreendeu o jogo e o que é um desenho impresso, eliminam-se automaticamente os elementos que não parecem "pertinentes", por exemplo, a mancha de café que pode-se juntar ao desenho.
 
Da mesma maneira, o "jogo científico" começa por eliminar uma série de elementos, como considerações de acordo com as quais "Deus achou que as margaridas eram bonitas", a cor da mesa da qual se estuda o equilíbrio, e assim por diante. Considera-se desse modo o mundo situando-o de imediato na subcultura científica. Em outras culturas, os elementos religiosos ou poéticos não serão necessariamente eliminados da observação, assim como Newton não eliminava os argumentos teológicos de sua "filosofia natural", que denominamos "física".

¿Estamos gobernando la globalización o la globalización nos gobierna a nosotros?

Belíssimo discurso do Presidente do Uruguai, José Mujica, na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (CNUDS), conhecida também como Rio+20. O encontro foi realizado entre os dias 13 e 22 de junho de 2012 no Rio de Janeiro, cujo objetivo era discutir sobre a renovação do compromisso político com o desenvolvimento sustentável.

"Autoridades presentes de todas la latitudes y organismos, muchas gracias. Muchas gracias al pueblo de Brasil y a su Sra. Presidenta, Dilma Rousseff. Muchas gracias a la buena fe que, seguramente, han manifestado todos los oradores que me precedieron.

Expresamos la íntima voluntad como gobernantes de acompañar todos los acuerdos que, esta, nuestra pobre humanidad, pueda suscribir. Sin embargo, permítasenos hacer algunas preguntas en voz alta. Toda la tarde se ha hablado del desarrollo sustentable. De sacar las inmensas masas de la pobreza. ¿Qué es lo que aletea en nuestras cabezas? ¿El modelo de desarrollo y de consumo, que es el actual de las sociedades ricas? Me hago esta pregunta: ¿qué le pasaría a este planeta si los hindúes tuvieran la misma proporción de autos por familia que tienen los alemanes? ¿Cuánto oxígeno nos quedaría para poder respirar? Más claro: ¿Tiene el mundo hoy los elementos materiales como para hacer posible que 7 mil u 8 mil millones de personas puedan tener el mismo grado de consumo y de despilfarro que tienen las más opulentas sociedades occidentales? ¿Será eso posible? ¿O tendremos que darnos algún día, otro tipo de discusión? Porque hemos creado esta civilización en la que estamos: hija del mercado, hija de la competencia y que ha deparado un progreso material portentoso y explosivo. Pero la economía de mercado ha creado sociedades de mercado. Y nos ha deparado esta globalización, que significa mirar por todo el planeta.  ¿Estamos gobernando la globalización o la globalización nos gobierna a nosotros? ¿Es posible hablar de solidaridad y de que “estamos todos juntos” en una economía basada en la competencia despiadada? ¿Hasta dónde llega nuestra fraternidad? No digo nada de esto para negar la importancia de este evento. Por el contrario: el desafío que tenemos por delante es de una magnitud de carácter colosal y la gran crisis no es ecológica, es política.

O nascimento da Filosofia

Neste artigo, o Prof. Rodrigo Siqueira-Batista dialoga com o historiador Diógenes Laércio e discute as origens da filosofia em uma tentativa de recontar o surgimento da "dúvida".
 
"A alvorada do pensamento filosófico na Grécia inaugura uma nova atitude do homem / da mulher em relação à realidade – inscrita, claramente, no horizonte da dúvida –, a qual, de certo modo, manteve-se presente, no pensamento ocidental, ao longo dos últimos dois mil e quinhentos anos. A despeito da centralidade da filosofia naquilo que se costuma denominar cultura ocidental, sua emergência permanece como um fenômeno misterioso. Assim, tem provocado esforços de entendimento a partir de díspares frentes de argumentação: (1) as ponderações sobre uma origem alienígena da filosofia – reconhecendo-se que a mesma teria sido importada de outras culturas (formulação contraposta à concepção de pensamento filosófico como um saber grego autóctone) – e (2) a delimitação da(s) figura(s) índice(s) nestes primórdios da interrogação filosófica.
 
As posições sobre esta questão vêm sendo defendidas, por distintos pensadores, desde a Antigüidade. Neste ínterim, Diógenes Laércio – em sua obra Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres (doravante denominada Vidas e doutrinas) – traz considerações extremamente relevantes, as quais merecem uma análise mais detida. Com base nessas breves ponderações, o objetivo deste ensaio é apresentar um estudo preliminar sobre o Proêmio do Livro I, das Vidas e doutrinas, enfatizando as principais teses apresentadas pelo autor acerca do alvorecer da filosofia."
 

Nothing religious is ever destroyed by logic; it is destroyed only by the God’s withdrawal

Trecho da obra "WHAT IS CALLED THINKING?", de Martin Heidegger.

"We come to know what it means to think when we ourselves try to think. If the attempt is to be successful, we must be ready to learn thinking. As soon as we allow ourselves to become involved in such learning, we have admitted that we are not yet capable of thinking.

Yet man is called the being who can think, and rightly so. Man is the rational animal. Reason, ratio, evolves in thinking. Being the rational animal, man must be capable of thinking if he really wants to. Still, it may be that man wants to think, but can’t. Perhaps he wants too much when he wants to think, and so can do too little. Man can think in the sense that he possesses the possibility to do so. This possibility alone, however, is no guarantee to us that we are capable of thinking. For we are capable of doing only what we are inclined to do. And again, we truly incline only toward something that in turn inclines toward us, toward our essential being, by appealing to our essential being as the keeper who holds us in our essential being. What keeps us in our essential nature holds us only so long, however, as we for our part keep holding on to what holds us. And we keep holding on to it by not letting it out of our memory. Memory is the gathering of thought. Thought of what?

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